quarta-feira, 10 de maio de 2017

Sobre os Textos Injustiçados




Ontem estávamos nós, do Barba Feita, relembrando alguns dos textos mais lidos da nossa trajetória de dois anos e meio. O Leandro, nosso idealizador e chefinho, nos destacou ainda algumas colunas do passado que foram “ressuscitadas” nos últimos dias. Textos que estavam parados no tempo e que, de repente, [pluft!] voltam a ter umas 100 novas visualizações.

Sempre me questionei muito sobre o que faz um texto bombar aqui no Barba Feita. Analisei muito os meus próprios textos e há uma ou outra temática que a nossa audiência gosta mais e, com isso, acabam rendendo mais pageviews. Mas há as vezes em que esses mesmos assuntos não emplacam tanto.

Há outras oportunidades em que você acredita que escreveu um texto DAQUELES, que seus leitores vão amar, que as pessoas vão compartilhar e... nada. Quase não olham. Quase não notam. Você não tem um retorno sequer. Nenhum fenômeno. Uma enorme decepção. Mas um aprendizado também. Isso me instiga. E me faz buscar razões.

Essa semana, um amigo meu me abordou para falar sobre arte. Ele me enviou uma imagem renascentista de um São Sebastião e me perguntou porque aquele quadro valia mais do que o prédio onde eu estava naquele exato momento. E emendou: 
Você concordaria se eu dissesse que você escreve para pôr um obstáculo entre você e a certeza da sua morte? Que você produz algo além de você, para sublimar a ideia de que um dia não estará aqui?”. 
Passamos algumas horas divagando sobre arte, seu valor e sua lógica. A pintura tinha uma coisa etérea e, ao mesmo tempo, sensual. Mexia com morte, perfeição e erotismo. Eu o respondi que escrevo porque acredito que o que eu tenho a passar tem valor para outras pessoas. Mas depois parei e pensei: será que essas pessoas enxergam esse mesmo valor? Será que o pintor conseguiu transmitir tudo o que ele queria? Será que enxergamos além do que ele havia imaginado? Será que essa obra teria a mesma valorização se não fosse o tempo e o reconhecimento tardio de seu artista?

Cheguei à breve conclusão de que assim como aquele quadro não pertence mais ao seu autor, mas, sim, a quem o pendura na parede, um texto nosso tem apenas a nossa concepção. Ele é vivo e imortal. E sua leitura é o que o faz transcender a nossa existência, não a sua escrita. A interpretação é individual, uma experiência impossível de se transferir, por mais que se possa influenciar. Talvez por isso alguns enxerguem textos do meu livro Perversão, por exemplo, como meramente eróticos e outros o achem quase um ensaio sobre a psique humana.

Não sei quantas visualizações esse texto terá, mas se ao menos um o compreender, já terá valido a pena. Que seja uma boa experiência e sirva de quadro na parede do intelecto de alguém. Mas prometo aos curiosos que depois conto quantos pageviews teve, tá? ;)

 Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Um comentário:

Marco disse...

Sempre existem alguns tesouros escondidos, descobertos ao acaso. Não é à toa que Nazaré Confusa virou um meme mundial trocentos anos depois de ir ao ar no Brasil. Vai entender, né?