sexta-feira, 30 de junho de 2017

A Música do Futuro




Volta e meia me reencanto com algumas canções que, mesmo fazendo parte da trilha sonora de minha vida, ficam às vezes ali, escondidinhas num canto para brilhar novamente em alguma circunstância especial. E foi novamente por uma dessas circunstâncias que voltei a ouvir Radiohead. Recentemente, o terceiro disco deles, o magistral OK Computer, completou inacreditáveis vinte anos. Enfatizo essa minha incredulidade pois, quando o ouço, tenho a impressão de que este disco é, na verdade, um reflexo do futuro, se é que isso possa existir.

Mas para falar do futuro, voltemos ao passado. Quando eu era somente um adolescente, tive uma professora de Filosofia (sim, eu tinha aulas de Filosofia no antigo segundo grau – atual nível médio) que dizia que “tudo que era belo transporia os séculos”. E, nas aulas, sempre discutíamos esse conceito associativo de “belo” como algo muito subjetivo. Afinal, não poderíamos gostar de nada que fosse considerado “feio”?

Obviamente, a aula entrava nos caminhos da história da Arte, dos corpos perfeitos da Grécia Antiga, da poética, do termo “belas artes” do classicismo, a estética aristotélica e os aspectos formais de ordem, proporção e simetria utilizadas na produção visual grega, renascentista e gótica.

Aí, de tempos em tempos, aparecia um Van Gogh, um Picasso, um Helio Oiticica, uma Lygia Clark, um Iberê Camargo, um Miró, uma Frida Kahlo, um Farnese de Andrade (ou um Radiohead) para desconstruir todo um contexto histórico-conceitual do que era belo. 

OK Computer é um disco experimental e que se tornou uma característica dos álbuns que se seguiram. Na época, toda a abstração das letras e do clima das melodias foram criadas propositalmente para afastar do estilo das guitarras estridentes dos antecessores The Bends e Pablo Honey. Ninguém acreditou muito (nem a própria gravadora) que o disco venderia bem por ser tão anticomercial e com temas sérios ou complexos como o isolamento, a alienação social num cenário político perturbador e o consumismo desenfreado, antecipando o deprimente cenário do novo século. A sombria Fitter Happier, por exemplo, é uma das canções-chave dessa estética.

Os singles Lucky, a sublime canção-de-ninar No Surprises (que também tem um belíssimo videoclipe – veja aqui), o hit Karma Police e a sinfônico-futurista com toques de bossa-nova Paranoid Androidassista aqui -  toda realizada em animação foram os principais destaques, mas não temos como nos emocionar com uma trilha tão coerente em um único disco, como a impactante abertura em Airbag, que fala de morte, reencarnação e como a tecnologia poderia salvar um indivíduo para que ele se tornasse o salvador em uma guerra futura; a decepção com o mundo contemporâneo em Let Down; a raivosa Electioneering; e as encantadoras Subterranean Homesick Alien e Exit Music (for a film), esta última, uma canção que eu gostaria de ter composto - escute.

Conturbado, ousado, cheio de ruídos e grandioso. Como a vida. Distópico e épico. E que se tornou um sucesso estrondoso em todo o mundo, contrariando todas as expectativas. Se Sgt. Peppers dos Beatles foi o álbum do século XX, OK Computer é o disco do século XXI. Dentro de sua esquisitice onde os instrumentos não parecem se encaixar propositalmente, lembro das aulas de filosofia da antiga professora do meu nível médio. O belo realmente é subjetivo. Na sua feiúra entre os sulcos, é uma bela metáfora do mundo moderno e que obrigatoriamente todos precisam ouvir, sentir e contemplar.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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