sábado, 24 de junho de 2017

A Síndrome dos Seis Anos





Aos 21 anos de idade, decidi que era o momento de sair de casa. Deixei o pequeno e tedioso balneário em que morava com meus pais no Rio Grande do Sul, e parti para a capital gaúcha. Era o ano de 2003, eu queria ser escritor, sempre, desde que me entendia por gente, mas não apenas escrever, sobreviver disso. Mal sabia da utopia que isso representava. Impossível não era, mas muito, muito, muito difícil. Então tracei mil planos e atalhos. Queria me formar em jornalismo, mas a grana era curta e a faculdade cara. Parti para um plano B. Curso técnico. Adorava cozinhar. Me meti em um curso de Técnico em Nutrição. E lá fui eu, sair das asas da família para estudar em Porto Alegre.

O pai de boa, a mãe inconformada, e eu feliz da vida, cheio de expectativas e com o coração aos pulos. Liberdade, cultura, glamour e o meu futuro brilhante me aguardavam logo ali, não tinha erro, estava tudo bem planejado. Em cinco anos, pelo menos metade das minhas metas estariam alcançadas com sucesso. Seis anos depois de muita ralação, privação e decepção, olhei o horizonte daquela Porto Alegre que eu tanto amava e que tanto me prometia pela vista privilegiada que eu tinha da minúscula quitinete onde morava, e pensei: pra mim não dá mais, preciso de novos horizontes, novos desafios e uma oportunidade maior que você não me deu nesses seis anos suados e batalhados.

Tirei um ano sabático em 2010, e no ano seguinte chegava à São Paulo. Mesma emoção, excitação e frio na barriga de quando cheguei em Porto Alegre, oito anos antes, mas dessa vez tudo seria diferente. Não havia margem pra erros. São Paulo é a terra das oportunidades, não ser bem-sucedido aqui é assinar um atestado de fracasso total. Tudo é rápido e frenético na terra da garoa, minhas realizações também seriam, com certeza. Meus sonhos se realizariam no mesmo ritmo que pulsa a cidade, tão certo como 2 e 2 são 4.

Essa semana, no dia 19 para ser mais exato, completou-se seis anos de minha vivência nessa cidade que aprendi a amar como nunca amei nenhum outro lugar (já morei em muitos, acredite). A cidade que já considero minha há algum tempo, acolhedora e ao mesmo tempo hostil, me mostra cada vez mais e mais que eu não conseguiria mais ser feliz ou pelo menos não totalmente, em outro lugar. No entanto, diante do fato de estar numa situação um tanto quanto parecida com aquela em que olhei pro horizonte de Porto Alegre em 2009, me pergunto: até quando essa vida de ralação e pouca grana vai continuar? Cadê as oportunidades? As portas se abrindo? Os sonhos se realizando?

Sinto a síndrome dos seis anos me abraçando. Aquela vontade de jogar a toalha e partir pra outra. Mas que outra, se dentro do meu País estou no único lugar onde absolutamente tudo acontece? Sair daqui é enterrar de vez tudo o que ainda insisto em sonhar. A não ser que eu faça a Sol, de América, e resolva entrar clandestina nos EUA. Antes de chegar, morro pelo caminho.

A verdade é que pensar que mais seis anos de ralação, com pouquíssimos resultados, estão indo pelo ralo novamente, dá um certo desespero, bate aquela bad. Mas o problema nunca está no lugar e sim nas nossas atitudes, no foco e onde colocamos nossa energia. É fácil se dispersar em São Paulo, perder o foco. Tem horas que você não sabe pra onde olhar, o que viver primeiro, e fica muito fácil cair na armadilha de se viver nessa cidade, só de sonhos. Aqui, pra concretizar é preciso artilharia pesada e jamais esmorecer.

São Paulo é o meu lugar, e quero deixar registrado aqui, que podem se passar mais seis, doze, dezoito anos, que eu não vou fugir. Trago o que me falta pra cá, adapto da forma que der até chegar lá, mas é aqui que eu vou ficar.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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