sexta-feira, 23 de junho de 2017

Após o Fim, Ainda Restará a Hipótese





Enquanto releio algumas matérias de jornais expostas na timeline de meu amigo morto, também observo atentamente centenas de comentários deixados pelos familiares, amigos e conhecidos. Uma sensação angustiante se espalha em mim, misturado com um sentimento de revolta, impotência, tristeza e até uma certa resignação que não gostaria de admitir.

Ele foi assassinado na madrugada de um sábado qualquer. Estava em um bar, tomando uma cerveja com a namorada quando uma bala perdida encontrou seu peito, após ter sido disparada após um assalto corriqueiro. Momentos antes, parecia instantaneamente feliz, rindo com os amigos que o zoavam após a publicação de uma foto sua no Facebook, com uma grande flor amarela na cabeça. Segundos depois, só havia o silêncio e a escuridão. A morte havia dado-lhe a pancada certeira.

Imagino que esse golpe seja o medo que mais me corrói, em vida. A cada dia que passa, mais e mais nos aproximamos Dela, sem saber quando e como virá. Será que vai chegar de mansinho enquanto estivermos dormindo? Nos pregará um susto tão grande que enfartaremos, fulminantemente? Ou será que agonizaremos por horas e horas a fio até cansarmos e entregarmos os pontos? Será que vai doer?

(...)

Nunca furei a orelha com medo de sentir dor. E empurrei com a barriga o quanto pude para que fizessem uma tatuagem em mim. No fim da sessão, achei que nem doeu tanto assim. Foi uma dor absolutamente suportável e, se soubesse, teria feito uma tatoo há muito mais tempo. Também nunca aprendi a andar de bicicleta devido ao medo insano de cair e sofrer uma fratura exposta. E, convenhamos que uma fratura exposta deve doer pra caralho! Também tenho medo de morrer em um acidente de avião. Especialistas dizem que quando uma aeronave está em queda livre, nem conseguimos perceber que a morte está chegando pois, bem antes disso, perdemos os sentidos. Eu nunca acreditei muito nessa teoria, pois presumo que deva existir alguns minutos de agonia antes do corpo ser dilacerado. E mais uma vez, imagino que isso pode doer muito!

Curiosamente, já tive mais de uma dezena de crises renais. E crise renal dói pra caralho, digo por experiência própria. E, por incrível que pareça, ainda tenho muito medo de furar a orelha e sentir dor, assim como na hora da morte.

Mas, independente da questão apavorante da dor, a morte deve ser algo bem semelhante ao nascimento. Nenhum de nós se lembra como deve ser a terrível sensação de ter que se liberar das entranhas, completamente sufocado com alguém puxando nossa cabeça, sem o mínimo de consciência do que acontece ao redor. 

Deduzo que o momento em que somos postos de cabeça para baixo para que expulsemos o líquido amniótico que estava já meses nos nossos pulmões seja o mais traumático. Trocar o líquido pelo ar deve doer. Por isso choramos. Nascer deve doer. Se não dói, deve provocar um baita de um susto. E, por isso, concluo que, ao morrer, esta mesma dor deva estar presente, infelizmente.

Entretanto, o que mais me incomoda na morte é a ausência da próxima página. Quando nascemos, por mais que a dor possa existir, temos um livro inteiro pela frente para escrevermos todas as dores que encararemos durante a vida. Viver também dói. Ao longo da nossa trajetória teremos muitas fraturas, furadas de orelha, tatuagens, marcas e cicatrizes. Mas, ainda assim, estaremos escrevendo nossa história. Ao morrer, esta história passa a ser contada somente pelos que ficaram. Será que vão prosseguir contando nossa história até que, por si só, comece a desbotar como uma velha fotografia?

Sempre gosto de citar um trecho de Memórias de Emília, que Monteiro Lobato escreveu em 1936. Nele, a boneca de pano filosofa com o sábio Visconde de Sabugosa e em um momento, diz: 
– A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais […] A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre. – E depois que morre?, perguntou o Visconde. – Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”
Que aflição imaginar que seremos uma suposição ao deixarmos essa vida! Por mais que deixemos livros e mais livros, textos e mais textos, tratados e mais tratados, teses e mais teses; ainda assim, nosso pensamento será somente uma tênue especulação.

Na minha juventude, depois que li Sandman – O Mestre dos Sonhos, cheguei a mudar um pouco a minha percepção sobre Ela. Sempre imaginava a Morte como uma sinistra figura cadavérica, vestida com um roupão negro, uma foice na mão e uma grande ampulheta na outra, e com uma voz gélido-soturna anunciando que nossa hora havia chegado. Quando finalizei a saga de Neil Gaiman sobre o Senhor dos Sonhos e seus irmãos perpétuos (Destino, Morte, Desejo, Destruição, Delírio e Desespero), passei a encará-la como o autor a imaginou para a história em quadrinhos: um misto de uma jovem punk e neogótica, com um cordão ankh simbolizando a imortalidade no pescoço, uma maquiagem pesada como a da cantora Siouxsie Sioux e munida de um senso de humor sarcástico, apesar de totalmente incompreendida. Entre diversas falas marcantes nas edições da HQ, uma delas nunca me saiu da cabeça e dizia:
“É apenas isto: se você vai ser humano, tem um monte de coisas no pacote: olhos, um coração, dias e vida. Mas são os momentos que iluminam tudo. O tempo que você não nota que está passando… é isso que faz o resto valer.”

Exatamente por este motivo e, involuntariamente por nos aproximarmos Dela a cada dia que vivemos, pensar sobre isso me obriga a dar mais valor a tudo que está ao meu redor e me impulsiona a não deixar absolutamente nada para o amanhã, afinal, são todos esses momentos, grandiosos ou não, que iluminam tudo.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Sei lá...a gente mal nasce e começa a morrer...a vida tem sempre razão! Beijos, Marcos Araújo!