terça-feira, 6 de junho de 2017

Depois Que Ele Acordou





Ouvir aquelas palavras... "Você esteve em coma por cinco anos...". Não era possível... Não podia ser possível. Era tudo tão... real, tão vivo, tão... Ai, não. Ana! Ana não existia, nunca existiu. Ou será que existiu? Eles se conheciam? Ela era uma personagem de algum filme, ou série, ou livro? Talvez de algum jogo? Não podia ser verdade. Seu emprego não era real. A bicicleta. O apartamento. O paracetamol. A academia. Os amigos. Caramba, o pai em depressão pela morte da mãe, que, agora, estava ali, viva e bem, feliz com o retorno do filho. Quantos anos ele tinha? Não era vinte e três, certo? 

Sentiu a cabeça doer com tantas informações "novas" surgindo ao mesmo tempo. Precisava sair dali, fazer alguma coisa, descobrir o que havia acontecido com ele, e procurar Ana. Seus amigos de bar. Seu suposto emprego. Tudo. Tinha que descobrir como era sua realidade, sua nova realidade.

Pedro sofreu um acidente quando pescava com o tio em alto mar. Felizmente, o tio conseguiu tirá-los de lá antes que a tempestade lhes matasse, mas não foi rápido o suficiente pra evitar que o sobrinho entrasse em coma, ao bater a cabeça contra o chão do barco, enquanto o mesmo era sacudido pelas ondas. Os médicos disseram que Pedro era um caso perdido, que não se sabia quando ele acordaria, mas Marta, sua mãe, e seu pai, Horácio, foram firmes em sua decisão: esperariam o tempo que fosse necessário. Dinheiro não era problema, a prioridade era o filho. Consultaram médicos nacionais e internacionais, tentando de tudo para manter o filho são, e descobrir uma forma de tirá-lo daquela situação.

Pedro ficou em observação por uma semana, até que foi liberado, com muitas restrições. Foi para casa. O perfume da residência fez seu coração acelerar, descarregando mais uma dezena de memórias em sua mente. Com a ajuda dos pais, foi até o quarto, e seus olhos se encheram de lágrimas ao ver que tudo estava como ele se lembrava de ter deixado. Sorria entre lágrimas, passando as mãos nos móveis, nos livros.

- É... surreal... - Se sentou na cama, deitando logo em seguida.
- Com o tempo você se acostuma e tudo volta ao normal, meu filho. - O sorriso de Horácio o deixou mais jovem do que aparentava, e Pedro se lembrou da sensação que tinha toda vez que seu chefe lhe sorria assim. Ele conhecia aquele sorriso, mas o homem que comandava o escritório era completamente diferente do seu pai.
- Assim espero.

Mais tarde, Jarbas, seu amigo de infância, bateu na porta entreaberta do quarto.

- E aí, Zé Mané. - A frase "E aí, Zé Mané", ecoou na mente de Pedro, mas na voz de Ana. Teve vontade de chorar, mas segurou firme.
- E aí, Cretinão.
- Cara... eu fiquei tão, mas tão preocupado com você. - Se sentou ao lado dele, segurando em sua mão. Jarbas era, praticamente, irmão de Pedro. Cresceram juntos, faziam tudo juntos, viviam um na casa do outro. As famílias eram muito unidas.
- Jarbas, se eu te contar você não acredita. - E ele narrou tudo o que viveu em estado de coma. Cada detalhe, cada palavra, cada momento, tudo. De tempos em tempos, Marta ia até o quarto conferir como estava o filho, ou levar alguma coisa para os garotos. Jarbas ouvia atentamente, as sardas nas bochechas brancas tremendo de tensão, os cachos ruivos sendo jogados para trás o tempo todo. Três horas e meia depois, Jarbas só conseguiu dizer:
- Sério que eu não apareci em momento algum?! Cara... - E riu em seguida. - Puxa vida, eu não consigo imaginar como é isso, de viver em uma realidade alternativa, irmão, sério... não consigo imaginar como deve estar sendo pra você. Quer dizer, no prédio onde você trabalhava nessa realidade, não tem nenhum escritório de gestão de crises, porque é o escritório de advocacia do seu pai.
- Jura?! Nossa, é mesmo... meu pai é advogado.
- Sim, então provavelmente o caso do advogado pego com duas menores tenha surgido da profissão dele.
- Bem provável. Mas, e meus amigos? Nenhum deles existe?
- Devem existir, mas aqui nessa realidade, devem ser pessoas que você apenas vê e cumprimenta casualmente, ou cumprimentava, né.
- Verdade. Jarbas, você não faz ideia. É como se tivessem tirado tudo de mim. Eu perdi toda uma vida. Eu perdi Ana. - Os olhos já marejando. - Você precisa me ajudar a encontrar ela, cara.
- Mas... e se ela não existir? E se for um produto da sua imaginação?
- Temos que tentar. Vai, por favor. Por mim.
- Tá bem, tá bem.

Jarbas puxou o celular, abriu o Facebook e digitou 'Ana' na barra de buscas. 

- Ok, essa Ana tem sobrenome?
- Tem sim, é... - Apertou os olhos. - Linhares Correa.
- Ok.  

Os dedos ágeis de Jarbas correram pelo teclado virtual, e várias Anas apareceram nos resultados. Franziu o cenho ao entregar o celular para o amigo. Pedro olhou atentamente, uma por uma, mas nenhuma delas era a sua Ana. Não era possível, ela tinha que existir. Continuou olhando, alternando entre Ana Linhares e Ana Correa, mas nada, zero. Nenhuma delas era ela. Pedro já perdia as esperanças, quando seu coração acelerou, a respiração parou, junto com seus membros.

- O que foi, cara? Tá passando mal? Fala comigo, Pedro.
- Ela... existe. Ana existe... ela é... real.

Jarbas pegou o celular e abriu o perfil da garota. De fato, era ela, do jeito exato que Pedro a descrevera. Laço nos cabeços, olhos tão azuis que podiam ser confundidos com uma safira, a pele bronzeada, o sorriso, as roupas com cores vivas, tudo. Sentiu um aperto no peito ao ver a expressão de esperança nos olhos do amigo. Tudo podia acontecer. Não fazia ideia do quanto tinha sido real para ele, e não queria que ele se machucasse. Ana, que trabalhava como atendente do bar que ficava ao lado da faculdade onde Pedro e Jarbas trabalhavam, agora trabalhava na Horácio Luz e Advogados Associados. Mais uma chuva de memórias inundou a mente de Pedro. Ele extremamente tímido ao falar com ela, e Jarbas rindo discretamente. As trocas de olhares dos dois, o dia em que ela mencionou estar trabalhando ali para pagar a faculdade de Direito e a chance dele de ajudá-la, conseguindo um estágio no escritório do pai. Sorrisos, agradecimentos, e ele nunca teve chance de chamá-la pra sair, pois a timidez e a faculdade de Marketing formavam uma barreira impenetrável, mas agora ele não queria perder tempo. Já teve Ana arrancada de sua vida uma vez, não queria arriscar.

- Eu preciso falar com ela, urgente. - A respiração ficando ofegante.
- Calma, cara, respira, vai. Você precisa descansar.
- Não, eu descansei por cinco anos, Jarbas. Cinco anos, e quando eu tive a chance de me declarar, quando eu tive coragem, ok, o álcool ajudou, mas eu tive a coragem antes de beber, ela foi tirada de mim. Eu não posso perder essa chance. Quem sabe o que pode acontecer? Vai saber, às vezes esse é um segundo estágio do coma, e eu posso acordar em situação pior ainda.
- Não fala isso.
- É sério, cara, eu preciso ver ela, já.

Após muita discussão, Jarbas concordou que seria impossível tirar a ideia da cabeça do amigo. Então Pedro chamou seu pai e pediu pra que chamasse Ana até lá. Relutante, ele pediu para que Ana passasse lá. Quando ela entrou no quarto, Pedro prendeu a respiração. Ana estava linda, num vestido azul até os joelhos, um cinto preto passando na cintura, o decote discreto, as alças curtas. Carregava uma bolsa preta junto ao corpo, os cabelos presos num laço preto, combinando com o sapato de bico fino, salto doze. A pele morena, os olhos azuis, e o sorriso acanhado.

- Oi. - Conseguiu dizer.
- Olá. Que bom que está bem. - Pedro sorriu e não conseguiu conter as lágrimas.
- Sim, eu estou bem, Ana, muito bem, obrigado. - Num canto, Jarbas olhava a situação e as unhas marcavam as palmas das mãos, tamanha era a força que fazia para segurar o choro. 
- Ana, eu... é difícil explicar, mas nesse período de coma, você estava lá, e tínhamos algo... não dito, sabe? Uma queda um pelo outro, e quando eu finalmente ia me declarar pra você, eu acordei, então eu não quero perder a chance dessa vez. Quem sabe o que pode acontecer, não é mesmo? Eu quero saber se, assim que eu puder sair de casa, se você aceita tomar um chopp ou cinco comigo, e beliscar alguma coisa, pra eu poder falar o quão linda e especial você é, e que o seu sorriso me manteve são naquela realidade, e os seus olhos... ah, eu tenho tanta vontade de mergulhar neles, e ficar neles pra sempre... O que me diz?

Jarbas não conseguiu se conter e começou a chorar, baixinho, as lágrimas saindo como uma cascata.

- O que houve, cara? Por que essa choradeira toda?
- É que... - Ana começou, olhou para Jarbas, e em seguida, Pedro viu a aliança na mão dela, e só então reparou que o amigo usava um anel parecido, mas não tinha reparado que era uma aliança. 
- Cara, eu não consegui encontrar uma forma de te contar... não depois de tudo o que você me disse...
- Acontece que Jarbas e eu nos aproximamos e... estamos namorando.


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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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