sexta-feira, 2 de junho de 2017

Férias em Natal - Uma Odisséia de Aventuras - Parte 2





A noite passou como num piscar de olhos. Em Natal, o sol nasce muito cedo. Às 5 da manhã já estava acordado e morto de fome. Descemos para o café e, logo após, o rapaz da recepção já estava avisando que nosso bugueiro (sim, a primeira coisa que você deve fazer ao chegar a Natal é contratar um bugueiro) estava nos aguardando. Estávamos exaustos, mesmo sem termos feito nenhuma excentricidade (ainda). Quando chegamos na esquina do hotel, um senhorzinho estava reclinado em seu buggy. Dei graças a Deus ao ver aquele “quase vovozinho” para realizar o nosso passeio pelas praias do litoral, pois pra quem não sabe, existe aquela famosa frase-pergunta que todos os bugueiros de lá fazem para os clientes: “é com ou sem emoção?”.

Medroso como sempre fui, sempre quis colocar as emoções em segundo plano. Um “sem-emoção” já estava de bom tamanho. E pela carinha doce do Sr. Francisco (ou Titio, como ele é chamado) eu não esperava tantas manobras radicais. Humpf... ledo engano... Foi só chegarmos às dunas de Genipabu para o “Titio” meter o pé no acelerador e fazer todos nós quase voar do carro. O lugar é uma maravilha... Aquelas dunas de areia branca fazem parte dos cartões postais de Natal, transformando num quadro paradisíaco – que aliás, também foi cenário para algumas novelas como Tieta e O Clone.

Por incrível que pareça, as dunas móveis tem um “dono”. Até 1988, a entrada para as dunas eram livres. Mas a partir daquele ano, os proprietários decidiram cercar o local e os bugueiros são obrigados a pagar uma espécie de pedágio para poder entrar no local que também pude perceber já está sendo loteado para futuros empreendimentos imobiliários. “Mas como vão trazer água e luz para esse desertão todo aqui”, indaguei. E “Titio”, com toda sua experiência respondeu: “com dinheiro se consegue tudo, meu filho...”.

Apesar de pegamos a maior tempestade no meio do deserto e achar que o passeio tinha melado, em meia hora abriu o maior “solão”. Natal tem dessas coisas. Dizem que só chove mesmo durante 65 dias durante o ano. Os outros 300 são de sol, sempre. Enquanto esperávamos a chuva passar, em algum rádio quase inaudível, Cindy Lauper mandava ver com She Bop (ouça aqui) e eu soltei uma gargalhada relembrando o dia anterior e tendo uma convicção de que realmente eu estava preso em alguma espécie de portal nos anos oitenta. Só faltava eu abrir a mochila e encontrar um pote de New Wave gel rosa com purpurina.

Além daqueles cenários deslumbrantes, os “causos” de Natal são os melhores... Uma das principais curiosidades que são base para essas inúmeras histórias, durante o período da II Guerra Mundial a cidade serviu de base aérea militar americana. Então, vários termos nordestinos são derivados daquela época, como a interessante explicação de como surgiu a palavra “forró”. 

Diz a lenda que, quando os soldados americanos estavam de folga, iam a festas locais frequentada por todo tipo de gente. Eles diziam que as festas eram “for all” (para todos). Por isso, os potiguares “abrasileiraram” o “for all” até chegar ao forró. Até a palavra “oxente” tem suas origens americanas. De tanto os soldados dizerem “oh, shit!”, os potiguares, imaginando que estariam o remedando, começaram a criar as variações de entonação até chegarem ao clássico “oxente”. Certamente essas histórias dariam um ótimo bate-papo com a mestra Rosa Magalhães numa tarde qualquer. E já que falei da supercarnavalesca, pra quem não lembra, Rosa foi campeã do carnaval em 1995, na Imperatriz Leopoldinense com um tema pra lá nordestino com o interessante título Mais vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube... (ouça aqui). Para quem já esteve lá, sabe o que eu estou dizendo... Nas dunas de Genipabu existem muitos camelos fazendo os passeios turísticos e, coitados... sempre com meio metro de língua pra fora enquanto os jegues, pequenininhos, aguentam o tranco naquelas areias escaldantes.

Enquanto Julio e Adélia se esbaldavam nos morros fazendo skibunda, aerobunda e qualquer coisa que terminasse em bunda na Lagoa de Jacumã, eu me empanturrava com aquelas cocadas deliciosas que as crianças vendem em tudo que é canto e de tanto ouvir o sotaque nativo (que eu amo), minha jukebox mental só reverberava a voz de Amelinha em Frevo Mulher (ouça aqui). Passamos pela Praia da Redinha, Pitangui, atravessamos o rio Ceará-Mirim de balsa, percorremos quilômetros e quilômetros de dunas, sol no lombo, muita felicidade e nada da canção sair da minha cabeça. 

É impressionante ver aquela beleza toda, sabe? Não tem como a gente se sentir tão pequeno diante do tamanho daquelas dunas gigantescas que se movem sob a batuta dos ventos. O passeio durou o dia inteiro, até chegarmos literalmente assados no hotel no primeiro dia de aventuras. A brincadeira estava só começando. 

(continua...)

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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