sexta-feira, 16 de junho de 2017

Férias em Natal - Uma Odisseia de Aventuras - Final




Um dos destinos mais badalados de Natal, Pipa, na verdade é um conglomerado de praias que pertence ao município de Tibau do Sul, cerca de 45 km de Natal.  O local tem esse nome devido a um imenso morro (Pedra do Moleque) que os navegadores portugueses, ao avistarem de longe, assemelhavam-no a um barril de cachaça (ou seja, pipa, em terras lusitanas).   O local é incrível e é considerado uma das praias mais belas do Brasil.  As principais praias de lá são a Praia do Amor, que é chamada assim devido ao formato em que as ondas quebram na areia (como se fosse um imenso coração); a Baía dos Golfinhos, onde dizem que os mamíferos dão sempre uma passadinha por lá (eu não vi nenhum, pra dizer a verdade...); a Praia de São Sebastião, que está sempre com maré baixinha, repleta de piscinas naturais; a Praia do Madeiro; e a Praia das Cacimbinhas (estas duas mais apropriadas para quem curte surf, kitesurf e parapente, por causa das ondas e os bons ventos).  O acesso às praias se dá através de umas escadarias gigaaaaaantes, mas não tão complexas como algumas em Fernando de Noronha.  No fim, vale o esforço.  Há várias opções de hotéis e pousadas em Pipa e o ideal é que o turista possa pernoitar por lá para aproveitar mais, já que existem centenas de restaurantes, boates, culinária francesa, italiana, portuguesa, japonesa, tailandesa... enfim, uma delícia para quem curte uma bela farra gastronômica.  Fazendo uma comparação com outros locais misturando praia e gastronomia, Pipa lembra um pouco o clima de Búzios (RJ) e Jericoacoara (CE).

Mas o que eu mais curti em Pipa é a deslumbrante vista do famoso chapadão entre as praias do Madeiro e do Amor.  Esse chapadão é uma espécie de cânion / falésia imensa.  Lá eu fiquei uns bons minutos meditando e observando aquele horizonte sem fim... “de tarde quero descansar... chegar até a praia e ver se o vento ainda está forte... vai ser bom subir nas pedras.  Sei que faço isso pra esquecer.  Eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora!”.  Apesar da singeleza (e tristeza) da canção da Legião, Vento no Litoral (ouça aqui) ficou ali, tocando na minha jukebox mental, como uma forma de agradecimento por poder vislumbrar tamanha imensidão.  E lá me dei conta do quanto somos pequenos perante todo o mundo.  Pode parecer um papo dos adeptos de Sana, mas lembrei de um texto onde um físico explicava a dimensão de todo o universo:  ele comparou a Terra como um pequeno grão de areia.  E pediu para que imaginássemos todas as praias existentes no planeta de onde retiraríamos somente um grãozinho.  Este grãozinho seria a Terra azul.  E ao seu redor, todo o infinito universal.  Sei que chega uma hora em que até nos perdemos com as comparações, mas naquele momento, ali, naquele meu microcosmo e no meu infinito particular, eu fui feliz.

Em um outro momento, também vivenciei um misto de felicidade, medo e superação em Natal.  Todo mundo sabe que eu tenho pavor de aviões... Mas tem outra coisa que me deixa apavorado: barcos e lanchas.  E no último dia em que estivemos em Natal, fomos a dois locais maravilhosos: Punaú e Perobas.

Punaú fica a aproximadamente 65 km de Natal e é um lugar paradisíaco, cheio de dunas, coqueiros e onde há um encontro das águas do rio e do mar, com água cristalina que não passa da sua canela. Perto dali, há uma praia de pescadores chamada Pititinga, um reduto de pescadores, onde podemos saborear algumas coisas exóticas como o pastel de arraia. Punaú é um lugar para relaxar. Já Perobas é pra quem curte uma aventura.  Na verdade, a praia não tem nada demais... é bem simples.  A parte mais bacana de Perobas não fica ali, mas sim a cerca de 8 km mar adentro.  Para chegar lá tem que ir de lancha.  E aí começou meu drama.  A última vez que resolvi entrar numa embarcação tinha sido em Buenos Aires, quando resolvi ir até Colônia do Sacramento, no Uruguai, de barco, que se tornou uma das viagens mais apavorantes da minha vida, pois embarcações e mar agitado não combinam.

Não sei se era o vento o culpado, mas a sensação que eu tive ao pegar a lancha era novamente aquele estado de pequenez.  O mar era gigante demais enquanto eu era somente um grãozinho de areia.  Foram 30 minutos mar adentro rezando para santos que eu até nem sabia que existiam.  Mas assim como uma neblina que se dissipa aos fortes raios solares, de repente a lancha parou e ainda sem conseguir abrir totalmente os olhos por causa do meu rosto encharcado, fui surpreendido por uma das paisagens mais lindas que já vi.  Estávamos no meio do oceano, sem ver alguma faixa de areia por um ângulo de 360º.  Descemos da lancha com água transparente e morna um pouco acima dos joelhos.  Um Caribe.

É meio arriscado ir até Perobas por conta própria e sem ter lugar garantido na lancha.  O ideal é tentar agendar o passeio nas centenas de receptivos ou guias locais, pois eles também sabem quais são as melhores condições para chegar até lá (já que variam de acordo com as marés).  Brinquei um pouco com o snorkel (não adianta que não sei usar isso) enquanto Julio e Adelia, mais adiante faziam mergulho com cilindros.  Ao mergulhar, só ouvia a canção Amelia no meu cérebro (ouça aqui).  Se os peixes curtissem canções, certamente ouviriam Cocteau Twins e suas canções em línguas ininteligíveis.  Lá só dá pra permanecer cerca de 2 horas pois a maré enche rápido.  Em pouco tempo, a água já havia subido do joelho para o pescoço, mas há uma segurança bem bacana por lá (toda hora aparece a guarda costeira, por exemplo) e existem umas cordas delimitando o lugar para a realização dos mergulhos, onde podemos observar uma infinidade de peixes marinhos e corais.  

Quando estávamos nos preparando para sairmos dali, o medo já havia dissipado.  Eu estava praticamente no meio do oceano e não senti mais temor.  Me senti orgulhoso de mim mesmo.  Estava vencendo mais uma etapa.  Enquanto voltávamos para o ponto de partida eu jurava estar ouvindo uma de minhas canções favoritas que parecia tocar em um dial sendo sintonizado (ouça aqui):  “todos ao mar outra vez / e agora os meus furacões fizeram desabar essa chuva oceânica / para me banhar outra vez / o meu navio velejando / você pode ouvir seu frágil casco / gritando sob as ondas?  / Todas as mãos no convés ao crepúsculo / navegando para portos mais tristes / seu porto nas minhas fortes tempestades / abriga os meus mais sombrios pensamentos”.

Natal me encantou.  Além do reencontro com minhas origens, Natal me fez repensar tantas e tantas coisas... Ver aquela gente simples, com a pele tostada pelo sol, com o sotaque encantador e o sorriso estampado no rosto, percebi que precisamos de muito pouco para sermos felizes.  No caminho de volta para o hotel, antes de arrumarmos as malas para voltarmos para o Rio na manhã seguinte, a guia Jana, que se tornou uma figura indispensável na viagem, apontou para uma pequena casa, bem pobrezinha no meio do nada e disse: “estão vendo aquela casa ali, adiante?  Pois então, ela tem características barrocas e góticas”.  Eu olhei novamente e não encontrando nenhuma menção aos estilos artístico-arquitetônicos, questionei:  “mas onde você está vendo isso?”.  

“Você não está vendo os estilos barrocos e góticos?  Ela é toda feita de barro e o telhado, todo furado.  Quando chove, no meio desse sertão, é goteira pra tudo que é lado!  É muita felicidade!”

E aí tenho certeza de que precisamos de muito pouco para sermos felizes.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Muito maneiras as sua aventuras em Natal! Deu vontade de conhecer os lugares!