sexta-feira, 9 de junho de 2017

Férias em Natal - Uma Odisséia de Aventuras - Parte 3






Sempre quando viajo de férias, volto ainda mais exausto, pois não consigo parar um segundo quieto. Não nasci para ficar naquele clima “quero uma rede preguiçosa pra deitar e em minha volta, sinfonia de pardais”... Gosto mesmo é de agito e de conhecer cada pedacinho do lugar que visito. Geralmente já saio com um pré-roteiro anotadinho no meu moleskine. Pesquiso meses antes os “pontos turísticos” que qualquer turista que se preze precisa ir e também dou uma fuçada naqueles roteiros underground para também dar uma conferida.

Naquela manhã, a chuva nos pegou de surpresa. Abri o site do Climatempo e vi que eles acertaram em cheio, com a indicação de aguaceiro o dia inteiro. Curiosamente, a nossa guia Janaína (acho que ainda não falei dessa figuraça, né?) já tinha mudado o roteiro na noite anterior. Na troca, faríamos o city tour com aqueles passeios pra turista. E sempre quando faço esse tipo de passeio, fico reparando nas coisas mais improváveis possíveis. E, como não poderia deixar passar, notei que em Natal (assim como a grande maioria dos estados nordestinos) não existem jornaleiros (ou se existem, eles sempre ficam muito escondidos). Eu acho isso muito louco, pois o Rio de Janeiro parece que tem a maior concentração de jornaleiros por metro quadrado e me acostumei a parar em tudo que é banca para observar as manchetes de revistas e jornais. Certamente, isso possui um viés político. E não tem como não associar com a antiga canção de Caetano Veloso (ouça aqui), pois, afinal, “quem lê tanta notícia?”

O tempo começou a dar uma clareada e aí resolvemos ir até o “maior cajueiro do mundo”, que fica bem próximo à praia de Pirangi e a música do Raimundos não saía da minha cabeça (ouça aqui). Nos impressionamos quando chegamos ao local. Realmente é um assombro. O cajueiro ocupa um quarteirão inteiro, com quase 9 mil metros quadrados, e produz, em média, 80 mil cajus durante a safra anual, coisa de quase 3 toneladas. Diz a lenda que o cajueiro teria sido plantado por um pescador em 1888 que morreu sob a sombra da árvore que, devido a anomalias genéticas, ao invés dos galhos crescerem para cima, se alastram para os lados, e com o peso, tocam o chão criando raízes, crescendo como se fossem outras árvores. O gigantismo do cajueiro fez com que ele entrasse para o Guiness Book, mas dizem que existe um maior ainda, localizado no Piauí. De qualquer forma, vale muito a pena conhecer esse local, que se tornou um ponto turístico pela singularidade. Infelizmente, devido à própria modernidade, já vemos um certo “sufocamento” com a pobre da árvore... Caramanchões de ferro foram instalados para impedirem que os galhos invadam as residências locais e a pista de uma das estradas para a Rota do Sol. Mais uma vez, a mão do homem querendo mudar o curso da natureza... Espero que o centenário cajueiro consiga resistir.

Natal não tem um parque aquático que nem o Beach Park com aqueles toboáguas imensos (que eu tenho pavor) mas tem um bacaninha chamado Ma-Noa (tááááá, gente... ele é bem infantil, mas pra quem tem medo de tudo, eu adorei, pois não tem nada tão radical assim e tem uns “escorregas” até que bem divertidinhos, cascatas artificiais e rios com correnteza). O parque fica na Praia de Maracajaú, o chamado “Caribe nordestino”, um lugar bem bacana para quem curte águas límpidas e piscinas naturais (os chamados “parrachos”), que são formações de corais, localizados a uns 7 Km da costa.

Em Maracajaú também dá pra fazer uns passeios de quadriciclo, cavalos ou de buggy bem legais. Lá conhecemos o bugueiro Leandro, que por quase duas horas nos levou para locais encantadores, naquele eterno sobe-desce emocionante das infinitas dunas e cenários de novela. Lembrei muito de um bugueiro que conheci anos atrás em São Miguel dos Milagres, que até rendeu um trecho de um conto, publicado no meu livro Troco a bituca por duas jujubas. Sempre me emociono com suas histórias e com a simplicidade em que vivem, muitas vezes enraizados em seus vilarejos e penínsulas, fazendo de tudo para que saiamos felizes dali. São indivíduos que satisfazem nossos sonhos, mas ficam presos no seu universo particular. Muitos deles não tem a oportunidade de realizar os seus. Leandro, por exemplo, tem o sonho de poder assistir um desfile de escola de samba, coisa que já fiz inúmeras vezes. Em um momento, ele me mostrou todo orgulhoso em seu celular, uma foto em que aparecia ao lado de Neguinho da Beija-Flor, em uma das passagens do intérprete da escola de Nilópolis por Maracajaú. 

Naquela noite fui dormir pensando nisso... Quantas e quantas vezes não valorizamos momentos tão valiosos pois julgamos ser tão simples e banais? O quanto esses mesmos momentos que passam despercebidos por nós poderiam ser tão gratificantes para outras pessoas?

O sono chegou enquanto eu punha no laptop uma de minhas canções favoritas para celebrar aquele momento de celebração - ouça aqui.

(continua...)

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Curiosa para ler a próxima parte! Adoro suas histórias!(