quarta-feira, 28 de junho de 2017

Há Mais Vida Fora do Armário





Vivemos um mês inteiro dedicado ao Orgulho LGBT e, mais especificamente essa semana, a causa ganhou mais visibilidade mundo afora. Vimos bandeirinhas pulularem no Facebook, paradas protestarem no Brasil e no mundo, casais homoafetivos declarando amor em público. Mas sabemos que isso é muito mais uma onda de otimismo e esperança do que a realidade da maioria. O Brasil é o país que mais mata por homofobia no mundo: média de praticamente uma morte registrada por dia. Isso sem contar os demais assassinatos ignorados e os diversos outros tipos de agressão, física e psicológica, que os LGBT sofrem diariamente.

Lembro-me da primeira vez que ouvi de um conhecido que foi morto aparentemente por homofobia. Um colega meu, amigo do meu primeiro namorado, com quem cheguei a sair junto para a balada e na casa de quem cheguei a dormir para não precisar voltar muito tarde para Niterói. Foi encontrado morto, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. A Polícia disse que tinha sinais de que poderia ter sido motivado por perseguição sexual. O maior medo da grande maioria das pessoas é morrer. Ainda mais morrer simplesmente por ser quem você é. E quando isso chega tão perto de você é assustador. Não é algo que se passa em Brokeback Mountain ou no rodapé do noticiário. É com alguém que pegou na sua mão e acolheu você em sua casa.

Eu não posso dizer que sofri muito por ser gay. Seria leviano e vitimizador da minha parte fazer isso. Muitos mais sofrem bem acima do que eu penei – meu companheiro Cristiano, por exemplo. Na verdade, desde o momento em que comecei a minha aceitação, aos 16 anos, passei a lidar com muito mais leveza e, inclusive, a receber muito menos preconceito externo. Desde que me casei com o Cristiano e publicizamos isso de alguma forma, só recebi carinho e reconhecimento. Nenhuma mensagem de ódio ou discriminação raivosa. Nossas famílias convivem harmonicamente e sempre encontramos amor em nossos pais, irmãos e sobrinhos. Não nos obrigamos a viver em gueto nenhum, pois sempre fomos bem aceitos, respeitados e até mesmo vistos como exemplo. Porém, tenho plena consciência de que somos exceção. Ainda que crescente, devido à conscientização gradual da sociedade quanto ao tema, somos uma minoria.

Semana passada, tomei ciência de que o cineasta Fernando Grostein, irmão do apresentador Luciano Huck, foi ao programa Conversa com Bial. Falou da sua homossexualidade e do relacionamento com o ator Fernando Siqueira. Ao contar como o irmão recebeu a notícia no momento em que ele saiu do armário, disse que Huck declarou: “Você demorou 20 anos pra resolver isso na sua cabeça, a gente precisa de um tempo aqui também para resolver dentro de nós”. Lembrou um pouco a declaração da minha mãe quando eu contei para ela, com 19 anos: “Não posso dizer que estou chocada, mas ao mesmo tempo não nego que estou surpresa de ouvir de você”. As famílias podem não estar preparadas. Mas será que deveriam estar? Ou será que essa surpresa ou esse tempo para resolver dentro dos outros não é fruto de uma expectativa sobre outro ser que não é uma continuidade deles?

Aliás, o fato de um rapaz levar 20 anos para resolver isso dentro dele não é uma escolha. Ele não demorou esse tempo porque quis, mas, sim, porque achou que poderia ser julgado, agredido e execrado na sociedade. Jogado à margem daquilo que ele sempre viveu (e bem viveu) durante uma pseudo-heterossexualidade declarada. Quantos filhos não deixam de receber uma grana dos seus pais ou a chave do carro emprestada quando eles descobrem que não é pegador (de mulheres) que eles imaginavam? Quantos amigos que sempre foram íntimos não passam a não trocar mais de roupa na frente do outro? Quantos parentes (irmãos, primos, tios) não chantageiam um homossexual ao descobrir sua orientação e ameaçar revelar aos pais em troca de vantagens?

Durante muitos anos, mantive minha sexualidade de forma extremamente velada, em âmbito totalmente restrito ou privado. Aos poucos, comecei a tratá-la mais publicamente e, ao ver todo o carinho em retorno e todas as pessoas que nos revelam que, de alguma forma, servimos de exemplo, vi que não posso esconder quem sou. Sim, é possível ser feliz e ter uma vida sólida e respeitada, mesmo em um país homofóbico e assassino como o nosso. Tornou-se uma obrigação moral e cívica passar, de alguma forma, a militar pela causa, ainda que timidamente comparado a pessoas que dão suas vidas por isso.

Por isso é tão importante celebramos o Orgulho LGBT. Não poderia deixar passar essa data sem levantar uma bandeirinha do arco-íris ao menos. Sim, cabe a nós, que já passamos por tudo isso (cada um à sua forma) sinalizar aos outros: há ainda mais vida do lado de fora do armário do que dentro dele.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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