sábado, 10 de junho de 2017

Meu Querido Pinto





Meu querido pinto,

Não posso acusá-lo de nada. O que foi feito de você faz parte da narrativa. Da narrativa do falo cujo império do poder foi construído. Nada contra o falo, mas falo do que você nos impõe tacitamente. 

Por causa de você, me foi desencadeada a avalanche de papéis, comportamentos e posturas que o detentor de um pau supostamente deve ter, como se a minha coluna vertebral fosse você, como se eu pisasse com você, como se você, enfim, me mantivesse em pé e me direcionasse. 

Por causa de você não pude usar uma certa camisa rosa nem vestir aquele collant preto para as aulas de jazz. Por causa de você não pude recusar o beijo vazio na boca das meninas nem fugir do futebol sem sofrer chacota. 

Ainda sem saber que usavam o pênis para manipular a mim e outros homens, passei – como faz parte desse pacote – a me orgulhar de você. Sempre que possível, te exibia livremente, troféu entre as pernas, e até me demorava nos mictórios para que os outros vissem o quando você era bonito. Desfilava nos arredores do clube de férias com a sunga justa, ostentando o graúdo conteúdo. 

Assim como te determinam que me faça ter filhos e alinhe a minha preferência a carrinhos (e não bonecas), chega o momento em que você deve me causar orgulho. Quanto maior, melhor. Se pequeno, sofra. É documento. É documento de identidade. Que homem você é, hein? 

Mas, veja bem, você não é mais importante do que a guerra na Síria. Os percalços econômicos não são influenciados pelo seu peso sobre a gravidade. Os homens, ricos, de confessos ou inconfessos paus medianos, porque donos do mundo, das empresas, do mercado, porque donos dos animais e das mulheres e da geopolítica, porque donos da História única e privilegiada, esses homens definem a rota de pessoas como eu que, por acaso, nasceram com um pinto. 

Há mudanças de vento, há um futuro e isso tende a mudar apesar das ameaças. Gênero, sexo, afetividade. Nada designa nada. É o momento de redefinir os protocolos. Por isso e por tudo, meu querido pinto, te escrevo essa carta de amor. Agora você pode ser simplesmente o que é, não precisa mais ter a responsabilidade que a sociedade te encarregou: fazer pressão e censura comportamental. 

Obrigado pelo prazer que me tem ofertado. Estamos juntos. E que os pintos de outros meninos não lhes sirvam de cabrestos. Sejam livres, eu peço, todos os meninos.

Grande-afetuoso beijo. 

Leandro Faria  
Maurício Rosa é poeta ocasional e brinca com as palavras pra produzir textura e emoção. Tem 24 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.
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