domingo, 18 de junho de 2017

O Bispo Crivella e o Carnaval Carioca





O debate sobre as decisões do prefeito bispo estão bombando na minha timeline. Comentei um último post e decidi publicar o raciocínio porque não tá dando pra conversar em todos. O que eu penso disso - e vai vir textão, porque eu não acredito em debate político honesto com textinho - é que o bispo não é bobo e que usar crianças e creches como desculpa foi uma puta jogada. A maioria cai na comparação simples e, nesse método, até eu concordo com o prefeito. Acontece que em política, o simples costuma ser um equívoco.

Gestão pública não é economia doméstica. Não é como cortar o Netflix porque a conta de luz entrou na bandeira vermelha (deus nos livre). Na política, tudo é mais complexo porque além de uma decisão executiva sempre impactar diversas áreas, ela faz parte de um plano de governo com linhas traçadas em ideais e as escolhas deixam isso claro. E é aí que a gente tem que tomar cuidado.

A subvenção para as escolas de samba, que andavam mal das pernas desde 2008, subiu porque tudo mais subiu. O carnaval já é feito com dinheiro próprio das escolas (de fontes nem sempre muito honestas, é verdade), tanto que a prefeitura carioca entrega 2 milhões para cada uma e o carnaval das mesmas varia entre 8 e 12 milhões. Há patrocínios, direito de imagem, venda de CDs, ingressos etc que compõem os orçamentos das agremiações. A parte da prefeitura, que é de R$ 24 milhões, 17% em média do que é gasto em cada desfile, volta para a cidade com um montante de 30 BILHÕES em 4 dias de carnaval graças às movimentações financeiras do turismo e alimentação. Veja bem... APENAS do turismo e alimentação. O prefeito poderia definir, por exemplo, que parte da renda do carnaval que retorna como imposto municipal iria ser investida em creches. Ele opta por diminuir a qualidade do evento que mais traz dinheiro para o município que precisa do turismo pra sobreviver. Já impacta não só as escolas (é interessante lembrar das costureiras, escultores, desenhistas, ferreiros e toda a estrutura do espetáculo aqui), como também a hotelaria e todos os ramos impactados (mais uma vez, falo de empregos, de demissões e de retorno para a economia da cidade e para os cofres públicos).

Há outras opções interessantes nas mãos do executivo municipal. Na tentativa de cortar gastos para enfrentar uma crise, por que exatamente o prefeito não mexeu nas isenções fiscais de R$ 71,7 milhões para empresas de ônibus? Até 2019, a previsão é de que o valor salte para 79,3 milhões. Serão R$ 226,6 em três anos. Isso com passagens que estão entre as mais caras do mundo. Se a gente pensar nos benefícios fiscais como um todo, dinheiro que a prefeitura ESCOLHE não receber, só em 2017 teremos uma perda de R$ 294,5 milhões. Esse valor é 2.200% maior do que os R$ 12 milhões que Crivella pretende retirar do carnaval este ano. E isenção fiscal sem visão estratégica e período determinado de retorno e suspensão gera emprego e faz girar a economia por um período curto de tempo até virar presente para grandes empresários e perda pura e simples. Eis outra opção absurdamente óbvia que o prefeito ignorou.

Pra fechar, amarro o raciocínio. Pensa comigo... O gestor público SEMPRE tem opções para gerir o orçamento. De onde tirar e onde colocar a grana, respeitando o orçamento da câmara municipal e as ferramentas de alocação de recursos, é sempre uma OPÇÃO. A pergunta que a gente deve fazer não é se as creches merecem mais investimento. Essa é uma resposta óbvia: SIM, merecem. A pergunta que deve ser feita é a que interesses a política em prática responde. Olhar o quadro geral pode ajudar um pouco. O prefeito, bispo evangélico, vem tomando outras medidas. Por exemplo, decidiu cortar 100% do investimento da Parada Gay do Rio, inclusive a da baixada, que já era mixaria e não representa economia de jeito nenhum. O prefeito também decidiu que qualquer evento na cidade agora só pode ser autorizado pelo seu gabinete, sem diálogo com produtores, sem o julgamento técnico e cultural. Um dos artigos diz que Crivella pode terminar, inclusive, com eventos já autorizados. Por fim, nessa semana, Crivella decidiu rebaixar a Coordenadoria de Diversidade Sexual, que perderá autonomia para criar políticas públicas que auxiliem a população LGBT.

Faz as contas: o prefeito bispo, eleito pedindo votos em igrejas, atacou o carnaval, derrubou o apoio às Paradas LGBTs, pôs fim à coordenadoria que trabalhava pela inclusão e defesa de direitos de LGBTs e passou a controlar sozinho as festas e eventos culturais na cidade. Inclusive barrou semana passada uma festa de música eletrônica na Quinta da Boa Vista por possíveis danos ambientais. Ali mesmo onde são realizados todos os grandes eventos evangélicos da cidade sem grandes problemas.

Tem um raciocínio claro por trás do governo de Crivella e a agenda evangélica é tão óbvia que já saiu até na Veja! E se tem uma coisa que conta pouco nesse caso são as creches. A desculpa para a medida é perfeita. Quem vai reclamar de investimento em creches, certo? Pra maioria, a questão é simples: vai tirar de uma festona e colocar no cotidiano de crianças carentes. Tudo muito simples. Mas a gente tem sempre que desconfiar da simplicidade em questões políticas. Na política, nada é simples. Nada.

Leandro Faria  
Rodrigo Mariano é jornalista. Assina o jornal de uma organização de classe centenária no Centro da cidade do Rio de Janeiro, onde escreve sobre política, economia e grandes temas nacionais. Umbandista, gay, nerd, esquerdista e urso, lida com preconceitos mesmo onde, teoricamente, eles não deveriam existir e faz disso sua militância cotidiana.
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Um comentário:

eduardo.preto disse...

Evangélicos são sujos, dissimulados, ignorantes e mentirosos, começa por terem surrupiado descaradamente a lenda de Jesus dos católicos e venderem como idéia deles. Os caras são excelente mão de obra barata mas péssimos administradores. Tal qual um corpo, na sociedade existem partes destinadas a pensar e outras existem para fazer força, inverter as posições da nisso (serve para a esquerda também).