segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Primeiro Beijo





Outro dia, fazendo algumas coisas pelo centro do Rio, acabei pegando o VLT da região portuária até a Cinelândia. Sentado no bondinho, distraído, ia pensando na vida e acompanhando a paisagem, olhando as pessoas nas ruas, o movimento de uma cidade pulsante de vida, tão linda e tão caótica.

Foi quando observei um casalzinho ali pela região da Praça Mauá, mochila nas costas, aos beijos, em meio a um dos cartões postais da cidade. Bonitinho, eu pensei. Mas o VLT seguiu o caminho mas, sei lá porque, a cena se manteve na minha cabeça enquanto eu continuava o meu trajeto.

Não sou nenhum voyeur, mas a cena me fez viajar na minha própria história. Mais especificamente, me fez relembrar o meu primeiro beijo. Afinal, alguns momentos de nossas vidas nos marcam de certa forma, que eventualmente nos recordamos deles. Principalmente momentos que acabam se tornando tão especiais. E quem não se lembra do próprio primeiro beijo?

Meu primeiro beijo aconteceu quando eu tinha 14 anos. E, aos 14 anos, eu não pensava muito em meninos. Sei lá, na verdade nem pensava em meninas também. Era um garoto apenas. E adolescente é uma coisa boba demais, definitivamente. Lembro de ver os casais na TV, nos cinemas, nos livros e via beijos em todos os lugares. Naquela época parecia que o todo mundo beijava, menos eu. E vivia me perguntando como seria o meu primeiro beijo. E, mais insistentemente, quando aconteceria.

E aconteceu da forma mais ridícula possível: eu em casa, num dia à tarde, quando uma vizinha chegou e perguntou se eu queria ‘ficar’ com a Alessandra. 

Heim, como assim? Não estou entendendo!!!

Eu era apaixonado pela Alessandra, a minha vizinha de frente. E ali, do nada, a outra vizinha perguntando se eu gostaria de ficar com ela. Nem lembro direito o que respondi, só lembro que gaguejei que sim.

Quando, que dia, que horas?

Tudo combinado para mais tarde no mesmo dia, comecei os preparativos. Corri pro meu quarto, escolhi a melhor roupa, escovei os dentes, até me perfumei. De tardezinha, no horário de sempre, estava na rua com os vizinhos, brincando e jogando conversa fora. Foi quando elas apareceram e fomos todos (sim, umas seis pessoas!!!) pra uma praça próxima à minha casa naquela época. E foi só chegando lá que vi como tudo havia sido armado: éramos três casaizinhos de adolescentes bobos, que só queriam beijar. Os outros dois casais logo se agarraram e sobramos Alessandra e eu, em pé, olhando um pra cara do outro. Sem saber direito o que fazer, falei:

Vamos lá, né?

E aconteceu o tal do beijo.

Opinião sincera? Foi horrível. Não sabia o que fazer com as mãos, achei muito esquisito outra língua dentro da minha boca e bati dentes pelo menos umas duas vezes. Eu só queria que aquilo terminasse logo pra eu voltar pra minha casa e amaldiçoar o tal do primeiro beijo. 

Acabou, eu respirei fundo e dei tchau pra menina.

Alessandra continuou sendo minha vizinha por algum tempo, até que se mudou pra outra cidade. A paixão antiga virou amizade e até hoje mantemos certo contato. Mas, naquele dia, no meu quarto, prometi a mim mesmo que nunca mais beijaria na minha vida. Óbvio que não cumpri essa promessa.

Voltei ao presente, sentado no VLT e me peguei quase gargalhando ao lembrar dessa situação que podia ter sido traumatizante. E tentei me lembrar do meu primeiro beijo num homem. Lembrei e, assim como o meu primeiro ‘primeiro’ beijo, não foi nada bom.

E assim, com trinta e cinco anos e alguma bagagem de experiência, é fato que a prática é a melhor professora e que beijar é uma delícia, quando se sabe o que está fazendo e, melhor ainda, quando se está com uma pessoa especial. 

Ainda bem que sou insistente, né?  Pois hoje sei o quão gostosa é a sensação de sentir outra boca junto à minha e, modéstia à parte, já recebi alguns bons elogios pelos meus beijos. Duvida? Quer provar? Quem sabe, heim...

Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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