quarta-feira, 7 de junho de 2017

Onde Foi Que Não Demos Certo




Na segunda-feira, vi uma postagem no Facebook do meu cunhado perguntando o que era dar certo na vida na visão de cada um. Eu pensei logo que dar certo foi o que a Luciana Gimenez fez, que deu pro Mick Jagger uma vez só e engravidou – e ainda saiu sem nenhuma DST. Aí reparei que não tinha humor nenhum por trás da reflexão dele, mas, sim, um debate importante sobre como a nossa sociedade enxerga vitoriosos e derrotados.

A postagem foi provocada pela divulgação das fotos de uma atividade chamada “Se nada der certo” da Instituição Evangélica Novo Hamburgo. Em 2015, o Colégio Marista de Porto Alegre também havia feito uma “brincadeira” semelhante. Ambas as instituições teriam feito isso para os alunos refletirem que rumo tomariam em suas vidas caso não passassem no vestibular. Pessoas com roupas de mecânico, gari, atendente de McDonald’s, entre outros. As duas reconheceram os erros e aboliram a prática logo após terem realizado.

E aí volta a pergunta do meu cunhado. O que é dar certo na vida? Eu vim de uma família em que meus pais e meus avós não tiveram diploma algum. Meu avô materno tinha um pequeno comércio, assim como meus pais; meu avô paterno tinha umas terrinhas e vivia de subsistência no Agreste da Paraíba; minha mãe foi bancária antes de abrir sociedade no comércio com meu pai e ter dedicado anos a cuidar dos filhos; meu pai foi mecânico de máquina registradora e morador de favela depois de ter chegado do Nordeste aos 14 anos de idade para vir morar com a irmã que ele sequer conhecia. Minhas avós foram donas de casa; a materna cuidou de cinco filhos; a paterna, de 16, sendo que quatro morreram crianças.

Para mim, todos deram certo.

Não guardo trauma ou mágoa alguma da Páscoa em que não deu para os meus pais comprarem o ovo que eu queria, porque a situação estava apertada. Nem do Natal em que o Papai Noel foi menos generoso. Meus pais criaram dois filhos numa era recém saída da Ditadura Militar, com a inflação galopante do Governo Sarney, a instabilidade do Collor com direito a poupança confiscada e as crises econômicas do FHC. Ainda assim, se esforçaram para dar os melhores estudos para mim e minha irmã. Viram os dois ingressarem e se formarem por uma universidade pública federal, o sonho de muitos. Não foram coadjuvantes nisso; foram grandes responsáveis por tudo.

Como bem lembrou meu amigo Wallace, houve uma vez em que o jornalista Boris Casoy fez uma piada em público no Jornal da Band, sem saber que estava vazando o áudio, em que criticava a matéria de Feliz Ano Novo ser encerrada com os votos de garis. Como se eles estivessem na pior profissão, sem capacidade de desejar algo de melhor para os demais que os assistiam. Imagino que o Boris deva ter sofrido muito preconceito na vida e deveria ter aprendido um pouco com isso. Seu pedido de desculpas no programa seguinte não convenceu a mim e nem a boa parte da população. Mas sua reação foi um sintoma da nossa sociedade. Sintoma esse que vimos nas atividades dos colégios que viralizaram essa semana.

Infelizmente, alguns riem e diminuem aqueles que trabalham dignamente, mesmo sem um diploma, para sustentar suas famílias em um país que fica cada vez mais impossível de se viver. Esquecem-se de que é na sua camada, a mais rica, favorecida e com ensino superior, onde se encontra a maior parte dos que estão sendo presos nas operações de devassa anticorrupção no Brasil.

Na verdade, seriam esses que deveriam perguntar: “onde foi que não demos certo”?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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