quarta-feira, 21 de junho de 2017

Se Todos Fossem Iguais a Diana...





Desde pequeno, sempre fui muito fã dos super-heróis da DC Comics. De alguma forma, Super-Homem e Batman eram mais populares na minha infância do que Homem-Aranha e Capitão América. Alguns especificamente apareciam mais nos desenhos da Liga da Justiça, como era o caso do Aquaman e da Mulher-Maravilha. Essa última, em especial, sempre foi muito relegada a ser uma coadjuvante de um grupo de heróis masculinos; um toque feminino de equilíbrio e sabedoria, mas meramente colateral, em especial aqui no Brasil.

Lembro-me de que teve uma vez que a DC resolveu unificar seus universos paralelos e fez uma série chamada Crise nas Infinitas Terras. Na sequência, veio a série Zero Hora, uma contagem regressiva para o fim do(s) mundo(s), por meio de um vilão chamado Extemporâneo, e os quadrinhos começaram de novo do número zero. As revistinhas eram cinco: Super-Homem, Superboy, Batman, Batman e os Vigilantes de Gotham e Shazam!. Essa última, sobre um super-herói pouco conhecido, o Capitão Marvel (que, embora tenha esse nome, era de outra editora pequena, mas foi considerado um plágio do Super-Homem e a DC ganhou seus direitos autorais na Justiça). Mas nenhuma era dedicada à heroína mais famosa da trupe. Uma injustiça e também um sinal de seu tempo.

Pois é, os tempos agora são outros. E a Mulher-Maravilha renasceu aos olhos do grande público em um filme DAQUELES. Um filme essencial para falar sobre feminismo, sim, mas principalmente sobre a humanidade. Dentro da mesma película estão os diversos tipos de feminismo, desde o mais radical até o mais conciliatório. E muitos são os acertos ao fazer uma história sobre uma heroína no contexto pouco explorado da Primeira Guerra Mundial, sendo fiel à sua origem nos quadrinhos.

Curioso é que quando fui ao Museu Nacional da História Americana, em Washington, nos EUA, aprendi um pouco sobre o surgimento dos super-heróis e o hábito que os norte-americanos em especial têm em cultuar heróis de uma forma geral, desde o mais seculares até os mais efêmeros e fugazes. Foi justamente por conta das guerras, para melhorar a autoestima da população e fazê-los acreditar na salvação e em dias melhores que surgiram o Super-Homem, a Mulher-Maravilha, o Capitão América e o Homem-Aranha, por exemplo. Heróis, inclusive, que carregam patrioticamente as cores da bandeira americana, mesmo sendo o Super-Homem um alienígena e quase uma metáfora para o Messias. 

Falando em Messias (e sem dar spoiler), o filme tem uma enorme sensibilidade em falar que, sim, entre nós habitam deuses. Ou melhor, muito daquilo que atribuímos às divindades, para o bem e para o mal, habitam na verdade dentro de nós. Nossa expectativa de sempre nos desresponsabilizar dos nossos atos enquanto humanos e acreditar que necessitamos da intervenção divina para nos salvar fica explícita no filme, mesmo que não desmerecendo a fé no divino.

O recado de que a mulher não vai vencer a batalha utilizando as mesmas armas das quais os homens sempre se valeram também está ali. Aliás, muitos são os recados. A ingenuidade de Diana diante de um mundo perverso e cheio de valores invertidos ou deturpados chega a ser cômica – e comovente. Sua capacidade de extrair a verdade com seu laço, como se a verdade fosse uma grande arma para vencer uma batalha. Afinal, não foi isso que disse Jesus, o maior Messias? Para conhecermos a verdade, pois essa nos libertaria?

Aliás, não poderia deixar de mencionar a atriz Gal Gadot. Uma beleza que foge do óbvio, uma atuação entre a doçura ingênua e a força de uma amazona, e um carisma de encher a telona, como também tem seu par, Chris Pine, que vive o militar Steve Trevor. E ainda assim, mesmo vivendo novos tempos, Gal  ganhou apenas 2% do salário pago ao ator Henry Cavill por Superman: Homem de Aço. Se equivalermos seu cachê em reais, ela levou menos pela heroína que o destinado ao vencedor do Big Brother Brasil...

Seria tão bom se tivéssemos mais Dianas entre nós. Temos ao menos o alento de poder ver seu belo filme e sua arrebatadora intérprete.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: