domingo, 25 de junho de 2017

Um Encontro Com o Eu





Me vi esposa, me fiz madura, me recriei, me reciclei, e quando não tinha mais papéis para inventar, decidi ser Eu. Mas o Eu discorda, o Eu não aceita, o Eu chora, o Eu briga, o Eu tem vida própria e isso foi demais pra nós. A casa, que já era pequena, ficou menor quando o Eu chegou; até insistimos para que fosse embora, mas entre uma briga e outra, uma indiferença aqui, uma frieza acolá, ele decidiu ficar, disse que seria melhor assim. O Eu foi ficando espaçoso, foi nos distanciando e, quando eu percebi ele já dormia em nossa cama, não nos encontrávamos mais entre os lençóis, quanto mais tentávamos nos achar mais nos deparávamos com o Eu.

Um dia, finalmente consegui expulsá-lo. Depois de ter me perdido, me calado, de ter me esquecido, depois de ter pedido desculpas sem ter errado, não consegui mais ver o Eu, ele tinha mesmo ido embora. No primeiro dia sem ele não houve briga; no segundo, um afago em meu rosto; no outro, nos encontramos embaixo do edredom; tudo havia voltado ao normal, a distancia entre nós já não existia, mas sim um grande e profundo vazio em meu peito.

Depois de tanto tempo acostumada com o Eu, algo simplesmente não se encaixava mais, não encontrava segurança em seu abraço, não buscava mais refúgio no seu beijo, e todos os planos que antes eram contigo não faziam mais sentido sem o Eu. Não podíamos mais continuar assim, algo estava muito errado e só pensava em ir atras do Eu. Não sabia nem por onde começar a procurar, mas sabia que naquela casa já não estava mais, então lá também não poderia mais ficar.

Juntei minhas coisas - quase 4 anos divididos em 3 malas - e respirei como se fosse o último suspiro daquela vida; olhei ao redor, vasculhei todos os cômodos para ter certeza de que o Eu realmente não estava mais ali e, quando me dei conta já estava ajoelhada aos soluços, sem forças, sem rumo, com lágrimas escorrendo dos meus olhos e o coração pulsando em minhas mãos. Eu precisava desistir, isso não estava certo, eu estava ficando louca!

Quando já estava quase me convencendo de que meu lugar era ali, de que ficaria tudo bem, levantei meus olhos e mal pude acreditar no que estava vendo: Eu estava na porta de mãos estendidas para mim, me inundando de amor e coragem, me lembrando que Eu seria a melhor escolha. O Eu chegou perto, enxugou minhas  lágrimas, me ajudou a levantar, me envolveu em um abraço e antes que pudesse pensar em resistir, sussurrou em meu ouvido:  "Não precisa mais ter medo, estou aqui e nunca mais vou deixar você."

Fui tomada por uma segurança que há muito tempo não sentia, deixei a casa sem olhar para trás, de mãos dadas com o meu  novo amor...

Me vi mulher, me fiz criança, me resgatei, me descobri e, quando tudo parecia estar errado, quando ninguém parecia se importar, eu apenas me lembrei de não deixar de me amar.

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Leandro Faria  
Bárbara Cortez, 26 anos, com rostinho de 15 e pique de 70. Virginiana nada organizada, começou a escrever para não perder também a cabeça. Radialista por formação, cantora por paixão e escritora por cara de pau mesmo.
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