quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Geração Que Se Autodestrói





Houve uma época em que as pessoas compravam rolos de filme para colocar em suas máquinas, fotografavam sem saber como a imagem havia ficado e depois esperavam (às vezes dias, a revelação) para ver o resultado. De vez em quando o filme se perdia por inteiro. Ou algumas fotos queimavam. Era um horror, sem dúvida. Até que chegaram as câmeras digitais e tivemos uma revolução na qualidade das imagens: agora era possível ver exatamente o que estava se captando e fazer vários exercícios de luz e ângulo, sem gastar as poses do filme.

Em pouco tempo, todos tinham no celular uma câmera de alta resolução. Onde estivermos, podemos produzir uma foto, de qualquer trivialidade, a qualquer momento. Surgiram Fotolog, Facebook, Instagram, Flickr, Pinterest... Até que chegou o Snapchat. Admito que nunca entendi muito bem a lógica do Snapchat (a não ser para enviar nudes...) justamente porque vim de uma geração em que fotografia era praticamente um bem familiar, e não algo meramente descartável. Não tenho e não consigo ter, mas vi que o Instagram e, agora até o Facebook, se renderam às imagens que se autodestroem em 10 segundos. E percebi que, muito mais do que ser uma nova proposta, o Snapchat era a consequência de uma geração que trata muitas coisas que antes tinham grande valor como efêmeras e descartáveis.

Sei que muitos das novas gerações sinalizam os avanços que conquistaram e que a minha geração, por exemplo, falhou nas tentativas. Ou que pelo menos ainda há esperança entre os mais novos de buscarmos as revoluções necessárias. No entanto, o egocentrismo que vemos hoje em muitos dos mais jovens (e, vejam, não falo em egoísmo aqui) e a sua falta de dedicação a projetos que não são seus ou que não lhes aprazem mais é flagrante. Pulam de galho em galho em seus empregos, seus relacionamentos, suas amizades, suas religiões... Tudo parece já nascer com prazo de validade. Tudo se autodestrói.

Quantos puramente não desistem com frequência de uma relação afetiva pelo simples argumento de que não estava dando certo, sem ao menos ter uma dose de altruísmo e sacrifício? Quantos não abominam a ideia de ter um filho (com a suposta bandeira da libertação ou do feminismo) não porque não gostam de criança, mas sim porque não se sentem capazes de cuidar de outro ser (como fizeram com ele mesmo no passado) e preferem ser eternos adolescentes? Quantos não buscam novas responsabilidades simplesmente porque essa palavra traz um peso com o qual não são capazes de lidar?

Desiste-se ao primeiro sinal de sofrimento. Não sabem se erguer de baques. Não estão preparados para a dura realidade de que não, você não é mais especial do que o coleguinha ao lado. Não, você não nasceu um campeão ou um rei. E, sim, se você perder uma ou apanhar em outra, ainda assim é possível vencer e a derrota veio para engrandecer a sua vida. Mesmo que nem tudo lhe agrade; mesmo que nem tudo lhe satisfaça; mesmo que nada gire ao seu redor.

Curioso que essa mesma geração é a que majoritariamente vai às academias com camisetas escritas ou postam fotos com a hashtag “No Pain, No Gain”. Pena que isso vale apenas para as dores físicas de um treino muscular. Deveria também inspirar os intelectos e se lembrar de que, para nada na vida há verdadeiro ganho sem uma dose de sacrifício. A frase pode ser piegas, mas é eterna: “o único lugar no qual sucesso vem antes de trabalho é no dicionário”.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: