quarta-feira, 26 de julho de 2017

Aos Meus Avós




Hoje é o Dia dos Avós. Na verdade, a comemoração vem da data dedicada a Sant’Ana e São Joaquim, avós de Jesus Cristo, e acabou servindo para lembrar desses seres que, por tantas vezes, criam os próprios netos como filhos. Ou se permitem terem com eles uma relação menos austera do que tiveram com os seus próprios rebentos, agora numa idade mais avançada da vida. Minha avó Thereza, a única que tenho viva até hoje, sempre diz que avó é mãe duas vezes. O que importa é que amor de vó é amor de vó e ponto; diferente de tudo o que a gente sente por aí por outros parentes, até dos nossos próprios pais.

Tive a felicidade de conhecer meus quatro avós. De parte de mãe, Thereza e Francisco. De pai, Davina e Sebastião. Thereza e Francisco eram de Niterói. Viviam a poucas quadras de onde eu morava quando era pequeno. Lembro-me até hoje daquela época em que, quando ainda tinha os dois por aqui juntos, juntávamos boa parte dos tios e netos para um café da tarde, no qual tomávamos café com leite ou um Toddy (peguei enjoo de café com leite já nessa época... tenho na memória até hoje o dia em que chamei minha mãe num canto com uns quatro anos de idade para perguntar se minha avó ia ficar chateada se eu dissesse que não gostava de café com leite e preferia o Toddy) com uma bisnaga que meu avô trazia para repartirmos. Aquele pão tinha um sabor que pouco vejo hoje em dia. Talvez tenha gosto de nostalgia...

Meu avô Francisco partiu muito cedo, aos 66 anos, quando eu tinha cinco. Fui o primeiro neto a vê-lo passando mal, com o meu tio aos berros pedindo para eu chamar a minha mãe. Era aniversário da minha tia e foi a data em que ele nos deixou, culpa de um remédio que o médico receitou e que ele nunca poderia ter tomado por ter insuficiência respiratória. Ainda assim, meu avô me acompanhou por muito tempo e me acompanha até hoje: as similaridades que temos, as broncas na minha mãe, o mesmo time de futebol, a mesma escola de samba, a mesma religião... Parece até que convivemos longos anos.

Meus avós Davina e Sebastião moravam a milhares de quilômetros de distância de mim, no interior da Paraíba. Eu apenas os via cerca de uma vez no ano. Vó Davina se foi aos 76 anos, quando eu estava prestes a fazer 12; tinha um estilo doce, mas endurecido pela vida num agreste seco e paupérrimo, de quem pariu 16 filhos e viu quatro morrerem ainda crianças. Ainda teve a infelicidade de se descobrir diabética já idosa, por conta de uma complicação na perna que a levou a uma amputação. Herdei dela os olhos verdes e os cabelos claros, oriundos da invasão holandesa no Brasil.

Depois da morte da minha avó paterna, a família resolveu trazer o meu avô Sebastião para o Rio. Na verdade, para Itaboraí, onde ele ficou em um sítio. Era o mais diferente fisicamente de mim: caboclo do Nordeste, pele negra, atarracado. Rezava a lenda que ele havia roubado minha avó da família e levado para longe para viver o amor quase impossível daquela época de um mestiço com uma flamenga. A convivência com meu avô não era fácil: era teimoso, cheio de manias e de hábitos que para nós, filhos da cidade grande e de uma realidade tão díspar da dele, por vezes repelia. Mas comigo e minha irmã Natalia meu avô era cheio de amores. Foi-se aos 88 anos em um dia de São José, em 2002, quando eu tinha 17 anos.

Já minha avó Thereza está aqui, entre nós. Desde muito nova, diziam que não iria durar. Era cardíaca, tinha várias complicações. Aqui está a velhinha, com seus 85 anos. Nove netos e cinco bisnetos. Ela foi o que mais me define o amor de avó(ô), pois nossa convivência sempre foi muito próxima, pacífica e cheia de carinhos. Foi ela que me ensinou uma penca de brincadeiras quando eu era criança, ela que me falou um bocado de safadeza que eu nem tinha ideia quando era adolescente, ela que me ensinou a ter paciência e não querer mudar alguém que teve uma vida inteira pra fazê-lo e não o fez – a essência dela é dela e, com todos os seus possíveis defeitos e virtudes, temos que aproveitar enquanto o relógio corre contra a sua presença.

Existe um poema que Cazuza fez para a sua avó e que foi transformado em música através de Ney Matogrosso, que sempre me toca muito todas as vezes que ouço. Chama-se... “Poema”. É de uma singeleza sem igual. E é com ele que encerro esse texto aos meus avós que já se foram e à que ainda está aqui. Obrigado por existirem, ainda que por pouco ou muito tempo, na minha vida:

“Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo 
Eu acordei com medo
E procurei no escuro 
Alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança 
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro 
Desculpa pra um abraço ou um consolo 

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim (que não tem fim)

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho 
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.”

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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