sexta-feira, 7 de julho de 2017

Bate-Bola é o Terrô!





Desde pequeno, eu sempre curti muito o carnaval, vocês sabem. As escolas de samba sempre povoaram meu inocente imaginário e eu passava a noite inteira assistindo os desfiles das agremiações pela televisão, em uma época em que as apresentações terminavam com o sol à pino, bem depois de meio-dia. As ruas tinham outra cor, outro clima, outro cheiro. Lembro que sempre ia com minhas tias comprar picolé na padaria da esquina e seguíamos um pouco mais adiante até o Largo da Penha, bem em frente ao Parque Shangai, para ver os grupos de crianças e adolescentes fantasiados, correndo pela rua dos Romeiros.

Muitas vezes estava ao lado de meus irmãos, que se borravam de medo dos temíveis bate-bolas, que, sempre em grupo, aterrorizavam as crianças. Não sei o porquê, mas nunca senti medo deles; muito pelo contrário... Eu tinha uma espécie de fascínio por aquelas fantasias coloridas e barulhentas com as longas capas bordadas e cheias de caquinhos de espelhos. À tardezinha, íamos para um clube em Bonsucesso para brincar e todos os anos me fantasiavam de havaiano, coisa que eu detestava, pois sempre fui meio gordinho e morria de vergonha das minhas dobrinhas, que eu escondia esticando aquele colar de plástico colorido. E aquele saiote? Jesus!

Meu sonho sempre foi me fantasiar de bate-bola. Minha mãe nunca deixou. Dizia que era perigoso. Hoje, eu vejo que a própria fantasia de bate-bola tinha um quê de transgressor. Talvez por isso, me identificava.

Essa fantasia era muito comum nos subúrbios no fim dos anos 1970 e durante toda a década de 1980. Em alguns bairros, chamavam bate-bola; em outros “chupetinha”, e na zona oeste era chamado de “linguição”. Depois, viraram Clóvis, que era uma derivação de “clown” (palhaço) em uma indumentária mais elaborada. Andavam sempre em grupos e, em contraponto com as roupas berrantes, sempre haviam as máscaras com uma feição diabólica, com cabelos coloridos e a indefectível chupeta, muitas vezes substituída por um apito, já que os integrantes não falavam uns com os outros e somente usavam os sons ou mímicas para se comunicarem. 

Naquele tempo, as fantasias também eram acompanhados por uma bola feita de bexiga de boi e que fazia muito barulho quando era arremessada ao chão. Para ganhar o aspecto de balão de gás, a bexiga era arrancada do animal, inflada e exposta ao sol para secar e se tornar resistente. E eram fedorentas pra cacete, o que fazia com que as crianças fugissem amedrontadas.

O que mais me deixava fascinado era exatamente o mistério que havia por trás daquelas máscaras. A preservação da identidade sempre dava uma certa liberdade para que houvesse a transgressão. 

Semana passada, em uma festa de 15 anos, onde o tema era o carnaval, fiz questão de me fantasiar de bate-bola. Quarenta anos depois, foi a chance de compreender um pouco essa relação imaginária que me acompanhava por tantos anos. Não consegui assustar nenhuma criança na festa; afinal, crianças hoje em dia não tem mais medo de nada. 

Citando a canção do Los Hermanos, “todo carnaval tem seu fim”. No fim da festa, era a hora de tirar a máscara e satisfazer o desejo de anos.

PS.: Ah, por falar em Los Hermanos, a foto do bate-bola que ilustra essa coluna é a capa do primeiro disco da banda carioca, lançado em 1999.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Muito bom ter um sonho realizado! Ótima narrativa, parabéns!