quarta-feira, 12 de julho de 2017

Meu Primeiro Beijo





No último sábado, 08/07, fui comemorar o aniversário da minha irmã na casa dela em Niterói e encontrei boa parte de seus amigos lá. Eis que no meio da festinha, lembrei-me que estava completando 16 anos exatamente naquele dia que eu dava o meu primeiro beijo; e a autora do feito estava lá presente. Sim, nobre leitor, eu me recordo da data. Sim, nobre leitor, eu tinha 17 anos. Sim, nobre leitor, I kissed a girl. Mas minha opinião foi diferente da Katy Perry.

Uma das coisas que não esqueço era a pressão que os meus amigos faziam naquela época para que eu deixasse de ser BV (para quem não se lembra das gírias escolares, “boca virgem”). Impressionante como um menor de idade era (e imagino que ainda seja, mesmo hoje em dia) cobrado e praticamente achacado para que desse esse passo, mesmo contra a sua vontade. Durante muitos anos, usei como fuga o fato de achar que era apaixonado por outra menina, que nunca me deu bola. Em nome desse sentimento que eu nutria platonicamente, não me sentia na obrigação de fazer com mais ninguém. Quando, na verdade, não deveria ser obrigado mesmo.

Também é impressionante como se cobra, desde cedo, definições de sexualidade sobre aqueles que sequer ainda a tem definida. Ou melhor, sequer ainda tem qualquer sexualidade. Criança é criança; não é para ter namorado, não é para beijar na boca, não é para ver revista de sacanagem ou de mulher pelada.

Voltando àquele 08 de julho de 2001, lembro-me do episódio até hoje: estávamos em uma festa julina e todos os casais formados, exceto eu e essa amiga da minha irmã. Num dado momento, todos sumiram e eu tive que ir procurar o grupo num lugar mais afastado, tipo meio do mato. Logo eu, tão intuitivo, não havia percebido que o povo todo havia armado para que eu chegasse numa área erma e ficasse sem saída com a menina que me desejava por muito tempo. Não havia nenhum Antônio Fagundes vestido de caminhoneiro para gritar: “é uma cilada, Bino!”. Caí na emboscada e não vi qualquer possibilidade para dizer “não”. 

Não, eu não queria, mas àquela altura da vida, já me cobrava. Não foi bom. Não a via com desejo, embora fosse bonita e uma menina muito legal. Lembro do beijo e de, na sequência, pensar: “Meu Deus, tanta cobrança para isso?”. E depois, uma amiga minha me dizer: “Querido, não existe beijo ruim, existe beijo que não encaixa”. E me dei conta de que, realmente, a questão foi que não encaixou. Não era a minha sexualidade, não era o meu momento. Mas, ainda assim, talvez por eu ter dado o meu primeiro beijo mais amadurecido do que outros amigos meus, talvez por ter esperado o momento mais correto da minha vida (embora não fosse ainda aquele instante exatamente), eu tenha tido mais convicção para refletir sobre o que, de fato, me atraía.

Naquela mesma noite, entrei no chat gay que já frequentava no extinto mIRC, pois já havia aceitado a ideia de que eu me sentia atraído também por pessoas do mesmo sexo. Conversei com um rapaz que já falava havia meses. Ele quis saber de tudo e me deu parabéns pelo primeiro beijo. Duas semanas depois, eu o encontraria e daria o meu primeiro beijo em um homem. E a máxima de que “não existe beijo ruim, existe beijo que não encaixa” fez muito sentido. Ele também não era alguém com quem eu queria desenvolver algo mais sério, mas mostrou que, sim, eu me atraía por rapazes.

Foi 16 anos atrás. Um fato simples, que provavelmente muitos não recordam. Mas um divisor de águas para a minha vida, fundamental para que eu me encontrasse mais comigo mesmo.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Latinha disse...

Poxa, muito bacana seu post! Me lembrou uma situação que passei esses dias...

Assim como você, eu também tive um momento Katy Perry! kkk
Estudavamos juntos, ela era - e ainda é - uma das minhas melhores amigas e naquela época todos torciam que ficassemos juntos. Paixões adolescentes!

Acabou que virou um amiga muito próxima de toda a minha família e aproveitando que estava visitando meus pais, saimos todos para jantar. Lá pelas tantas, alguém resolveu fazer uma foto e, depois, olhando a foto com calma, foi interessante pensar em "em um mundo alternativo", aquela teria sido uma bela foto de família.

Acho bacana esses "trechos" das nossas histórias! Valeu!!!