sábado, 8 de julho de 2017

Não Espere Nada, Esteja Preparado e Faça Acontecer





"Esperou o momento perfeito, e morreu sem ter feito nada..."

A frase acima, que li no Instagram de Adriane Galisteu e compartilhei na minha página do Facebook, me caiu como uma luva. Muitas fichas tem me caído nas últimas semanas, a cabeça não para de fazer plim, plim, plim o tempo todo, e minha auto-crítica anda mordaz. Tenho vivido à espera dos momentos perfeitos, e chego à lastimável e frustrante constatação que tudo que fiz até aqui não serviu de nada. Dei os passos mais difíceis, mas paralisei nos momentos cruciais, na hora de dar a cara a tapa e mostrar ao que vim de verdade.

Abandonei a vida cômoda ao lado da família e ralei pra caramba sozinho em uma cidade imensa, sem conforto, sem carinho e, às vezes, até sem coberta. E como uma gata borralheira, sentindo-me a princesa mais sofredora e batalhadora do conto de fadas, fiquei à espera da fada madrinha, que num passe de mágica, admirada e tocada pela minha comovente história de luta pelos sonhos, como grande recompensa me abriria todas as portas do castelo.

Eis que concluo que essa tal vida dura, batalhada e sofrida, que tanto já dissertei em outros textos, não é nem o começo de tudo o que eu ainda preciso enfrentar e batalhar, só pra começar a chegar onde tanto almejo há muitos anos. Dou-me conta, às portas de fazer mais um aniversário, do quanto fui acomodado, bobo, ingênuo, idiota mesmo, ao esperar o momento perfeito, aquele meu momento onde alguém descobriria meu grande talento e me daria a chance de explorar todo meu potencial, e então eu estaria a um passo do sucesso, da fama e do dinheiro. Era só isso que eu achava que precisava, de um descobridor de talentos, uma pessoa influente, de uma única oportunidade pra me mostrar. O resto aconteceria naturalmente, porque afinal eu sou uma pessoa extremamente talentosa, minha vocação grita dentro de mim, simples assim, tudo correria num fluxo perfeito. Nada disso, cara pálida. A vida é só a vida, e os contos de fada já não são mais os mesmos há algum tempo.

Algumas portas até poderão se abrir em algum momento, mas a grande maioria terá de ser arrombada, e para arrombá-las é preciso estar muito preparado. Eu não estou. E como posso querer ser descoberto, ganhar uma chance de ouro do universo, se não tenho força para lutar sozinho por mim mesmo? Se sonhadoramente espero o momento perfeito para as coisas acontecerem? E o momento nunca chega. Nem nunca vai chegar, porque a gente forja esses momentos na vida, os grandes plot twists da nossa história, mas eu apenas espero. E se um dia, por um mero golpe de sorte do destino acontecer, estarei preparado para agarrar a oportunidade com todas as forças? Entendi finalmente que não.

E me lembrei de uma conversa que tive um dia com uma amiga muito querida que, possivelmente já cansada de ouvir minhas lamúrias cheias de "queria tanto", "desejo tanto", "mereço tanto" e "é o sonho da minha vida" mais os meus devaneios sobre como seria quando atingisse os louros de minha futura glamourosa profissão, me perguntou com todo o jeito: "Você deseja isso com tanta gana, mas se um dia conseguir chegar lá, alguém te acenar com a oportunidade da sua vida, você vai conseguir assumir todas as consequências daquilo que mais sonhou na vida?" E arrematou dizendo: "É que às vezes eu tenho a impressão que no dia em que as coisas saírem do campo da sua imaginação e começarem a se materializar de forma real, você se sabota." Fiquei com aquelas palavras na cabeça. Tudo sempre esteve no campo dos sonhos pra mim e a possibilidade real me assustava, quando parei pra pensar friamente. Demorei dois anos, depois daquela conversa, pra assumir isso pra mim mesmo e afirmar em frente ao espelho minha covardia e comodismo disfarçado de sonho impossível.

Quantas oportunidades pequeninas, que poderiam se tornar grandiosas, perdi? Quanto tempo gastei me lamentando, idealizando e vendo os outros realizarem, enquanto eu podia estar estudando, me preparando, fazendo contatos e produzindo? Foi tempo demais, no mínimo 10 anos, que não voltam nunca mais. Mas não chorar pelo leite derramado é lição que se aprende bem cedo. Ainda tenho tempo, as pequenas oportunidades estão aparecendo, e eu não pretendo mais deixar escapar nada. Mas tenho que me preparar, pra não passar vexame quando estiver cara a cara com aquele momento, e for confrontado sobre quem sou eu de verdade. Firmeza no olhar, segurança nas palavras e repertório suficiente para sustentar quem sou e a vocação que sempre foi minha.

No ano passado, exatamente por esses meses, junho e julho, um amigo diretor teatral, que rala muito pra produzir e colocar suas peças em cartaz, me convidou para um projeto. Queria que eu roteirizasse uma peça sobre o Holocausto. Eu, sem experiência nenhuma, vi ali uma boa oportunidade pra começar. Mas escrever sobre a ideia de outra pessoa, eu que sempre achei o ato de escrever algo personalíssimo, me senti desafiado, mais ainda, quando me vi obrigado a me aprofundar no tema através de muita pesquisa. Não era uma história minha, eu não sabia como fazer, por onde começar, estava completamente no escuro. Senti medo, insegurança, não podia começar fazendo uma porcaria. Também estava com inúmeros problemas pessoais, então declinei do convite, e senti ali que tinha deixado minha primeira grande oportunidade escapar por entre meus dedos. Meu amigo diretor jamais me daria outra oportunidade.

Essa semana, surpreendentemente, recebo outro convite, para um novo projeto. Com inúmeros planos em andamento, meu primeiro ímpeto foi recusar a proposta, mas a ideia do projeto me agradou. Me senti mais capaz de encarar o desafio que da primeira vez, e vou topar. Ainda não dei minha resposta, mas estou dentro. Chega de ter medo, insegurança e esperar o momento perfeito. Se nada der certo e sair uma grande porcaria, tentei, e comecei de algum lugar. Quantos são os privilegiados que tem começos gloriosos na carreira, ainda mais quando se trata de arte?

Sem falar que um de meus dois amigos mais íntimos está ficando com um famoso autor da Rede Globo. Eu, claro, estou mais empolgado que meu próprio amigo com toda essa história. E contando os dias pro momento em que serei apresentado ao tal autor como o melhor amigo do seu namorado, porque sim, as coisas estão se encaminhando pra isso. Mas independente dos meus devaneios, se esse momento acontecer, e eu sou bem tiete do cara, não quero me apresentar só como o amigo do namorado ou um grande admirador de seu trabalho, mas sim como um futuro colega. E pra isso, como eu tenho que estar? Batendo novamente na mesma tecla: preparado.

A preparação vem de muita leitura, muitos cursos e bastante criação. Estou começando, ou melhor, recomeçando. E dessa vez da maneira correta. Alguma coisa nesses anos todos de perturbação e tormenta tinham que servir pelo menos pra aprender como fazer direito. Um passo de cada vez, mas sem parar pra ficar esperando o momento perfeito. E meter as caras, não ter medo de errar, de ser péssimo e dizer com todas as letras, sem timidez nem falsa modéstia que se é aquilo que você nasceu pra ser e acabou.

E que venham a peça teatral, o autor da Globo e mais o que vier, nada de recuar. O momento perfeito muitas vezes é aquele que parece terrível num primeiro instante, mas começa com um primeiro passo inseguro, lento e assustado, como o de um bebê que começa a andar e depois não para mais. Nada de morrer sem ter feito nada. Já morri muitas vezes durante minha existência, sempre que fiquei esperando o momento ideal. Agora é chegada a hora de cravar os dentes na vida e sugar todo o seu sangue. Já dei o meu start e estou sedento.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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