segunda-feira, 17 de julho de 2017

Nossas Pequenas Corrupções Diárias





Minha empresa, aquela que paga o meu salário para que eu possa com isso fazer as coisas que efetivamente me dão prazer nessa vida, não fornece o cafezinho dos funcionários. Um absurdo, eu sei. Acho que café, um copo d'água e, como diria a filósofa contemporânea Valeska Popozuda, um boquete, não se nega a ninguém. Por isso, para atender às nossas necessidades diárias de cafeína para aturar a rotina de sempre, nos organizamos em grupos e providenciamos o nosso café de todo dia. Uma contribuição mensal, alguém que se responsabilize pela compra dos insumos e nos revezamos no ato de preparar o café pela manhã e depois do almoço. Funciona bem para nós. E toda essa introdução para quê? Para dizer que minha amiga querida, a responsável pelas finanças do nosso café, foi furtada no nosso local de trabalho.

Isso mesmo. Apesar de todo o cuidado que se tem com dinheiro, ela sentiu-se mal numa sexta-feira, não foi trabalhar e, por isso, as gavetas dela ficaram destrancadas no fim de semana. Na segunda-feira, ao chegar no trabalho, cadê a carteira com os golpinhos do nosso café? Puft, sumiram! Alguém, que imaginamos ser do serviço de limpeza dos fins de semana, não só abriu a gaveta dela, como furtou a carteira mais os aproximadamente R$ 250 da nossa caixinha do café que estavam guardados nela. Bando de filhos da puta.

Eu, revoltado e tentando consolá-la pelo acontecido, falei da minha raiva e da sensação de impotência. Ela, apesar de tudo, tentava entender o caso e, mesmo indignada, contemporizava a situação, que deveria ser alguém que, precisando, teve a oportunidade na sua cara e não resistiu à chance de desembolsar o dinheiro alheio. Teria essa pessoa crise de consciência ou pegou o dinheiro com a naturalidade de alguém que se aproveita de uma desatenção? O que você faria no lugar dessa pessoa?

Como julgo as pessoas pela minha própria régua, eu fiquei puto. Roubar é errado, não importa se você precisa ou não. Filhos da puta, merecem a morte! Vai se fuder!, eu bradei. No que minha amiga, com toda a sua serenidade, perguntou: Mas e as nossas próprias corrupções diárias? E, pronto, eu me calei.

Furar a fila, não ser totalmente honesto na hora de declarar o imposto de renda, comprar produtos falsificados, fingir que está dormindo para não ceder o lugar para um idoso ou uma grávida no transporte público, colar numa prova, apresentar um atestado médico falso, andar com o carro pelo acostamento em uma congestionamento, burlar o sistema de uma forma qualquer para conseguir alguma vantagem. São atos "pequenos" mas corriqueiros que, tantas vezes, fazemos sem questionar. A oportunidade aparece e, você faz, sem mesmo sentir a dor na consciência de estar fazendo algo moralmente questionável.

Bradamos "Fora Dilma", "Fora Temer", falamos da lama da política brasileira, somos "assaltados" todos os dias e a todo momento nos deparamos com um 07x01 diferente em nosso cotidiano. Mas somos incapazes de fazer uma autoanálise e de avaliarmos as nossas próprias ações; de pensar "o que eu estou fazendo para me tornar a pessoa que eu quero que os outros sejam?".

Não se trata de contemporizar os erros alheios ou de relevar corrupções e injustiças. O que estou querendo dizer é que é fácil exigir justiça quando somos nós os injustiçados. Mas, e quando são as nossas ações inconsequentes que estão prejudicando terceiros? São dois pesos e duas medidas ou conseguimos ser justos e saber que sim, nós somos tão corruptos quanto os políticos que nos representam ou aquela pessoa que furta uma carteira com R$ 250?

É apenas segunda-feira, mas estou com a cabeça cheia de retóricas. E meu objetivo hoje é apenas dividí-las com vocês. Afinal, serão as nossas "pequenas" corrupções diárias tão pequenas e insignificantes assim?

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Cleyde Couto disse...

é... as vezes vendemos a alma pra alimentar o corpo,os 250 do seu cafezinho virou a conta de luz atrasada de alguém...