terça-feira, 18 de julho de 2017

O Casamento




Bem, bem, bem... Chegou o grande dia. O dia do meu casamento. As pessoas que estão me olhando, todas cheias de sorrisos, filmando, fotografando, ao invés de curtir o maldito momento, não fazem a MENOR ideia do que eu tive que fazer pra estar aqui na hora que foi determinada, ok?

Mas que grosseria a minha. Esperem, pausa pra uma foto. Pronto. Meu nome é Bruna, tenho trinta e dois anos e não, você não se enganou, cara pessoa que está aí do outro lado: eu estou caminhando em direção ao altar neste exato momento. Pois bem, pra estar aqui exatamente às oito e meia da noite, eu tive que começar a me arrumar às dez da manhã! Não me entendam mal, eu até gosto dessa coisa toda de “dia de princesa”, e passar um tempo no SPA e coisas assim, mas caramba... É o dia do meu casamento, devia ser mais tranquilo e não essa correria toda. Vai pra lá, arruma cabelo aqui, uma daminha ficou resfriada e não vai poder vir, o vestido não está ficando do jeito que devia ficar, como ficou das outras vezes, o cabelo resolveu que não quer ficar do jeito que foi planejado, sessão de fotos aqui, ali ,acolá... Caramba, eu só queria ficar com meu cabeleireiro e maquiador (que é a mesma pessoa), algumas madrinhas (não todas), alguns copos de suco ou champanhe... e só! Mas não, vamos causar o maior tumulto.

Enfim. Mais uma foto. Ah não, a minha vizinha tá fazendo uma transmissão ao vivo da minha entrada. Alguém podia avisar ela que ninguém assiste, não? E lá vou eu sorrir, e contribuir para mais uma transmissão fracassada. Aaaah, eu amo a música que escolhi pra minha entrada, dos dois jeitos, porém, tive que colocar um Largo em Fá Menor... Ai, aquela música que o Péricles canta, sabem? Olho para o céu... Então, eu queria na versão dele, porém, o momento não era apropriado, tive que reconhecer... E então a mulher responsável pelo grupo me mostrou essa versão que, aparentemente, é a forma original da música, e eu amei também.

Ah, meu pai... Tão orgulhoso, de braços dados comigo, enquanto caminha lentamente para me “entregar” para meu futuro marido. Que coisa mais boba isso de “entregar” a noiva pro noivo. Eu sei que é simbólico, mas ah, acho uma bobeira esses termos. Enfim chegamos, e vou ser entregue aos braços do meu grande amor. Mas eu falo dele depois, é a cereja desse bolo todo. 

Que grupo competente esse. Roberto, meu futuro marido, queria que tocassem At Last, da Etta James, pra minha entrada, mas eu pensei: “O que?! Isso é óbvio demais. Ah não, já abri mão de muita coisa pra esse casamento, inclusive de ter a versão do Péricles tocando. Essa é minha música favorita.”. Esse padre é o maior barato. Acho ele muito engraçadinho, todo pequeno, robusto, com esses cabelos pintados, que ele jura de pés juntos que ninguém sabe disso. Tem um ótimo gosto musical, que vai de Raul Seixas a Demônios da Garoa. Ele é parecido comigo, super realista, o que ajudou muito nas nossas reuniões pré-casamento, deixando o Rob mais tranquilo. 

Enquanto ele fala, deixe eu apresentar algumas pessoas. Vai ser rápido, eu juro, ele não é de demorar, como os outros padres. Vamos lá. Nossa, olhando de frente, tem mais gente do que eu imaginava. Eu não queria TANTA GENTE ASSIM, mas as amigas de bingo da minha mãe me amam, e tem também as amigas dos jogos de carteado das quartas-feiras, que também me adoram. Ah, e não posso esquecer das irmãs Souza e Silva. São vizinhas nossas, Valquíria e Sara Souza e Silva. Não sei, mas eu desconfio que elas não vão muito com a minha cara, talvez por eu sempre ter que segurar o riso a cada look horrendo delas. Por exemplo, Valquíria precisava vir toda com estampa de melancia? Até nos brincos? Qual é, é o meu dia, deixa eu aparecer um pouquinho? Brigada! 

Aqueles dois ali no banco de trás dos padrinhos são Marta e Dionísio, amicíssimos dos meus pais. E podres de ricos, os dois, o que me faz gostar bastante de Marta, porque não se encostou no marido, mas trabalhou duro pra fazer sua pequena fortuna, como eu estou lutando. Inclusive, meu vestido de casamento foi ela quem deu, afinal, eu não tenho dinheiro pra comprar um vestido decorado com diamantes REAIS, e não aquelas pedrinhas que brilham e todo mundo fica falando mal pelas costas. Não que eu seja contra, tenho dois ou três no guarda-roupas, porém... Diamantes, baby! E estão sempre elegantes, olha só esse longo azul-turquesa, gente! Que decote maravilhoso! Ei, Valquíria, por que não dá uma olhada nela, hein? 

Minhas madrinhas são as mais lindas, embora eu achasse que elas deviam vir vestidas com os vestidos que lhes agradassem, e não todas da mesma cor. Gosto de tudo o menos formal possível, porém, apesar de o dinheiro ser meu e do Rob, foi minha mãe quem conseguiu os melhores contatos pra, basicamente, tudo, então eu resolvi ceder a mais essa. 

Deixa eu ver... Quem mais? Bom, temos os amigos do escritório do meu pai, alguns sócios dele (pessoas chatas demais, vou passar direto), e... Ah, não acredito. Meu irmão convidou esse cara? Eu não sei o que dá nele, com tanto homem bonito por aí, ele resolve se apaixonar por um que é a cara do Ed Sheeran, sério! Me perdoem vocês que gostam, mas ai... Ah, por falar nisso, meu irmão é meu cabeleireiro e maquiador. Meu pai ainda não se acostumou, mesmo após três anos. Ele acha um absurdo termos um clichê em casa (gay, cabeleireiro e maquiador), o que eu acho algo horrível de se dizer, mas bem, Bruninho não se incomoda, ele mesmo já disse. Eu o amo tanto, é meu melhor amigo, sempre foi. Todas as vezes que brigamos foi por alguma burrada que um ou o outro fez, e cabia ali um esporro, puxão de orelha, enfim. 

Agora vamos para a cereja do bolo. Meu marido. Roberto. Deixem eu me sentar. Pronto, que mão macia... Somos ambos cariocas, mas nos conhecemos em São Paulo. Eu estava viajando a trabalho, num congresso de Direito Penal, super interessante, inclusive, quando resolvi que precisava relaxar, então fui até o bar do Outback do shopping próximo ao hotel e pedi a maior caneca de chopp gelado que eles tinham. De repente, chegou um bilhetinho num guardanapo, dizendo que minha presença tinha iluminado o lugar. Achei inusitado, nunca havia acontecido comigo, então respondi dizendo pra que, quem quer que fosse, se aproximasse pra se aquecer (estava bem frio na época). E então Roberto chegou de camiseta pólo azul, jeans preto e tênis preto, todo sorridente, com os cabelos caindo na testa. Fiquei um pouco cega, afinal, ele é bem branco, e estreitei os olhos pra conseguir enxergar normalmente. Não foi amor  primeira vista, mas foi... à... terceira? Quarta? Décima, definitivamente. Ficamos nessa, até que ele me pediu em namoro, com flores, de joelhos, num restaurante. Eu achei inusitado e um tanto quanto óbvio também, porque ai, tava na cara que ele ia pedir desse jeito, mas eu sou uma dama, e fingi surpresa. E todo mundo no restaurante batendo palmas, dizendo pra eu aceitar. Por que as pessoas adoravam se meter nos meus momentos, hein? 

Porém... Apesar de óbvio e de lembrar um pouco o Rodrigo Maia, ele é um ótimo marido. Romântico? Demais! Mas me deixa ser quem eu sou, apesar de fazer bico quando eu bato o pé em algumas (várias) coisas, como, por exemplo, almoçar no restaurante x, quando ele quer ir ao restaurante y, que é o que SEMPRE vamos. Por que algumas pessoas perdem a espontaneidade durante o relacionamento, hein? Faz séculos que não fazemos coisas do tipo assistir o pôr-do-sol na Pedra Bonita. Eu, que sou advogada, tenho mais tempo que ele, que é contador. E, às vezes, eu cedo, não por pena, mas por não querer almoçar com um ser carrancudo e monossilábico do meu lado, que é assim que ele fica quando é contrariado. Eu culpo a mãe, que mimou ele demais, afinal, filho único... Não que todos os filhos únicos sejam assim, mas Rob... Conclusão? Almoçamos uma vez só no restaurante x, e há meses não volto lá com ele.

A bem da verdade é que, apesar de amá-lo muito, Rob tem me irritado um bocado nos últimos meses por causa desse casamento. Tive que bater o pé pra que fosse nessa igreja, com o Padre José Maurício, com esse grupo. Conseguiu irritar até minha mãe, e olha que ela é toda yoga, meditação, orações e incensos. É difícil irritá-la, mas Rob conseguiu. Da metade do segundo ano até o último dia do quinto ano de namoro, ele mudou muito. Demais. Bastante. E vocês vão me achar uma pessoa horrível, mas aqui, neste altar, eu não tenho tanta certeza se quero juntar minha escova de dentes com a dele não, viu? 

Bem, é hora do sim ou não. 

- Bruna, aceita Roberto como seu legítimo esposo? 
- Ahn... Não. 

Eu sei, eu sei, vocês estão me achando a pior das pessoas agora, mas esse foi o ‘não’ mais libertador que eu já disse. Pelo menos tenho a bênção de três pessoas. Marta, Denise (minha mãe) e Bruninho, meu irmão, que se juntou à minha mãe e Marta, que me acompanhavam enquanto eu saía, gloriosa.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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