terça-feira, 25 de julho de 2017

O Velório





Pra felicidade de muitos e tristeza de quase ninguém, eu morri! Ah, meu corpinho... Tão lindo, meses e meses de trabalho árduo, dieta, ovo cozido, frango, batata doce, crossfit, funcional, musculação, futebol, e pra que? Pra morrer aos vinte e seis anos! Agora olha bem como isso tá, tudo inchado, sem graça, sem... Vida. 

Meu nome é Breno e esse é o meu velório. Ei, atenderam meu pedido de leito de morte e deixaram tocando Schwanengesang, D. 957: IV. Ständchen, de Schubert, no velório. Por que o espanto? Porque é difícil alguém dar ouvidos a alguma coisa que eu digo. Droga, ainda não me acostumei com isso, deixem eu corrigir. Era difícil alguém dar ouvidos a alguma coisa que eu dizia. Eu sempre fui o invisível da galera. O filho do meio. Aquele que escolheu cursar Educação Física, numa família com pai advogado, mãe arquiteta, filho-Mais-Novo-futuro-advogado, e o Primogênito quase se formando em Direito. 

Quando eu anunciei em casa que tinha conseguido passar pra Educação Física, durante o jantar, as reações foram das mais diversas. Meu pai: “Parabéns. Alguém me passa o molho de salada?”. Minha mãe: “Você sabe que professor de colégio tá ganhando mal, não é? Isso quando ganham. E ninguém ta conseguindo manter academia hoje em dia.”. Meu irmão Mais Novo: “Pelo menos não vou precisar pagar ninguém.”. E o Primogênito... “Legal. Mas podia ser algo que desse dinheiro, não?”. Assim mesmo, uma família super apoiadora. 

O Primogênito e o Mais Novo foram partos difíceis e, por isso, o casal que agora chora inconsolável ao lado do caixão sempre valorizou mais os dois. Eu? Bem, eu fui um parto super fácil. Normal, sem complicações, segui a ordem natural das coisas e saí, fácil, fácil, gritando pros quatro cantos da Terra que eu tinha chegado no pedaço. Quem se lembra de um parto fácil? Sem problemas? Sem precisar ficar na UTI por quase dois meses? Ninguém. Entrava e saía de casa e ninguém dava falta. Uma vez, nas minhas férias do escritório de Contabilidade, fiquei fora por quase três semanas, fazendo uma série de trilhas com a galera da academia. Quando voltei, foi como se eu nunca tivesse saído de casa, e não no sentindo mágico da coisa. Simplesmente não perguntaram como tinha sido, por que eu não dei notícias, se eu estava bem... Acho que deduziram pelas fotos no Instagram, e por isso acharam que não era preciso maiores informações. 

Olha só o Primogênito, todo de preto, com cara de quem perdeu feio um processo. Bem, você perdeu foi o Irmão do Meio, aquele que nunca recebeu um presente de aniversário, mas que deu vários, por quase dez anos. Não que eu ligue pra coisas materiais, mas ganhar alguma coisa de vez em quando é bom, poxa vida. Aquela ao lado dele, toda de preto, com o rosto inchado de tanto chorar, é a atual namorada dele, Malu. Nunca falou um ‘a’ comigo, e agora ta aí, sofrendo como se me conhecesse. Cadê o Mais Novo? Ah, está ali, encolhido, sem saber o que fazer. Pois eu te digo, irmãozinho, você devia ter me dado valor, tá? Devia! Agora não adianta chorar, ficar com essa cara de ator que não ganhou o Oscar. 

Olhem só esse casal ao lado do caixão. Olhando de longe a gente até sente pena, sabe? Os dois chorando, inconsoláveis. Impecavelmente bem vestidos e inconsoláveis. Pobres Pai e Mãe... Perderam Breno, o Filho do Meio. O filho deixado de lado. O que teve namoros e términos, e eles nunca souberam, porque sempre que eu me sentava pra contar alguma coisa, ou pedir algum conselho, precisava esperar, pedir depois, ou simplesmente não davam ouvidos porque estavam com os olhos fixos, vidrados, naqueles malditos smartphones. Ou em plantas de prédios. Ou processos. Aquele filho que aprendeu a andar de bicicleta sozinho. Que levava broncas da Mãe por aparecer todo sujo, ralado e sangrando em casa, sujando o piso. O filho que levou duas namoradas e um namorado pra jantar com a família, e foi ignorado junto com elas/ele, porque ninguém se importava, ninguém tinha tempo, ninguém sabia falar de outra coisa que não fosse Direito e Arquitetura. Ou futebol. 

E essas pessoas, quem são? Não conheço a maioria delas. Devem ser amigos da família dona da casa onde eu morava. Sim, porque nunca me senti parte deles, sangue do sangue deles. Nunca consegui. Eu apenas morava ali. 

Quantas coroas de flores. “Que no Céu tenha as trilhas mais fodas. Sentiremos saudades. Dos amigos da academia Timer.”. Aaaah... Que legal da parte deles! Tem outra aqui. “Você merecia mais. Saudades eternas. Ed. Física 2016.”. Pelo menos mais gente sabe que eu merecia mais. E esse outro aqui? É... “Amamos você. Sempre amaremos. Saudades eternas, filho amado.”

“Filho amado”... Parece piada. Será que pega mal eu sentar em cima do caixão? É meu mesmo... Tá, eu sento no chão. 

A noite em que eu morri... Eu me lembro como se fosse ontem, até porque foi mesmo ontem à noite. Foi num jantar de família, olha só que coisa. Estávamos todos reunidos. Mãe, Pai, Primogênito e Mais Novo. Malu também estava, eles tinham feito um jantar para comemorar o pedido de namoro. O pai dela é Desembargador, a mãe é Juíza, então vocês façam as contas. Se eu não tivesse aparecido, ninguém daria falta, até porque eu ouvi o Pai e o Mais Novo comentando sobre na cozinha, durante o café da manhã, e nem se deram ao trabalho de falar nada comigo, então eu poderia não ter ido, mas eu resolvi ir, não sei bem porque. Me vesti e desci quando já estavam todos conversando na sala. Fui na cozinha, peguei uma taça de vinho e fiquei observando, pasmo, como eu não pertencia a minha própria família. Algumas poucas palavras foram dirigidas a mim. Primogênito disse que eu cursava Educação Física, em tom de deboche, e a garota ruiva foi educada e disse que devia ser interessante. Comecei a falar e logo fui cortado pelo Pai, que disse esperar uma mudança de ideia. Relações Internacionais, talvez, ou Direito, afinal, seríamos uma família de advogados, teríamos muito em comum. Eu sorri e dei mais um gole no vinho. Minha mãe voltou a criticar o fato de eu querer ser professor, e eu dei outro gole. Outras farpas, mais assuntos desinteressantes, e finalmente o jantar estava pronto, um cheiro delicioso! Coloquei um pouco de fricassê no prato, um pouco de salada, e comecei a comer, ouvindo todo aquele papo sobre leis e tudo mais, afinal de contas, a jovem Malu TAMBÉM está cursando Direito. Minha mãe devia se unir a mim, afinal de contas, éramos as duas pessoas na sala de jantar que não tinham absolutamente nada a ver com o assunto, mas, ao contrário de mim, ela se interessava pela profissão do marido, então se mantinha informada. 

Todo mundo repetiu o fricassê, inclusive eu, mas estava tão gostoso que eu queria mais, porém a Mãe mandou retirar tudo pra comermos a sobremesa. E foi o que passou:

- Espera, eu quero mais um pouco. 
- Você já repetiu, a gente vai colocar a sobremesa agora. 
- Tá, mas eu quero mais, o que tem eu comer salgado enquanto vocês comem doce? 
- Porque você já comeu duas vezes. – O tom dela mudou, o que foi novidade pra mim, nunca tinha ouvido tom mais ameaçador vindo dela. 
- E eu vou comer a terceira, e quantas vezes eu quiser comer. 
- Então você sai da mesa. 
- O quê?! Sair da mesa só por causa disso?! 
- Breno... – O Pai me olhou com dureza, o que também foi novidade. 
- Breno o caramba. Que inferno vocês, sabia? Todos vocês. Todos vocês! – Foi aí que eu me levantei e disparei a falar. – Todo santo dia eu acordo, dou bom dia, falo com vocês, e nenhum de vocês consegue me dar um maldito bom dia direito. Cagaram e andaram pra mim quando disse que ia cursar Educação Física, só porque não é essa bosta de Direito. Me reprovam, debocham de mim, não estão nem aí pra mim. Sabiam que eu sou bissexual? Sabiam que aquelas pessoas que eu trouxe aqui eram minhas namoradas? Meu namorado? Vocês com essas vidinhas pseudo-perfeitas já pararam pra olhar pra dentro de casa e ver que vocês têm um terceiro filho?! Um irmão?! Que eu existo?! Que eu saio sexta e só volto no domingo à noite, quase todos os finais de semana? Hein, bando de cretinos?! Vocês cagam pra mim, não se importam com nada relacionado a mim, e não fazem questão alguma de disfarçar. Pra mim já chega, amanhã eu caio fora daqui! 

Empurrei a cadeira e saí batendo a porta, com o Primogênito logo atrás, seguido do Pai. Enquanto eles corriam atrás de mim chamando meu nome, eu chorava de alívio e de desespero por ter chamado eles de cretinos. No dia seguinte eu sairia mesmo de casa, cumpriria a minha promessa. 

Mas aí um motorista bêbado perdeu o controle do carro e me jogou longe. 

Me lembro de acordar no hospital, sem conseguir mover um músculo, e só ouvia choros e mais choros. A Mãe estava arrasada. Por um milagre, consegui murmurar alguma coisa. O nome da música que eu queria no meu velório. E então, uma hora e meia depois, eu morri. Sóbrio. Atingido por um carro conduzido por um homem bêbado. O cretino ainda tá vivo, e eu? O que sobrou pra mim? Bem...

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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