quarta-feira, 5 de julho de 2017

Quando a Experiência Fragiliza




Dentre as muitas tarefas ingratas da profissão de jornalista, talvez a maior delas seja lidar de forma tão banalizada com a morte. Lembro-me do primeiro momento em que tive que cobrir, na rua, o falecimento de uma pessoa. Eu tinha 19 anos. Ele era um menor de idade, que havia sido amarrado com as mãos para trás e executado à beira da BR-101, em São Gonçalo. Foi a primeira vez em que vi alguém assassinado na minha frente. Identidade ignorada. O fotógrafo e o motorista, mais acostumados que eu, trataram com grande indiferença. A editora-executiva da redação comemorava que tinha um presunto para ser uma possível manchete. Eu vesti o personagem da minha profissão e não me comovi na hora. À noite, foi um pouco angustiante recordar aquela cena.

Sempre busquei manter esse personagem e ter o “decoro” da minha função de repórter em qualquer situação, seguindo, inclusive, os passos dos mais antigos. Fui hostilizado na Alerj quando Rosinha Garotinho fez sua prestação de contas de Governadora e eu estava na TV Globo. Fui ameaçado em enterro de traficante. Corri de confusão em rebelião em presídio. Entrevistei o então prefeito César Maia dentro de um cemitério, em meio a um monte de morros no Catumbi, com as pessoas avisando: “os traficantes sabem que vocês estão aqui, só não aponta a câmera pra favela que não tem risco”. Mas havia situações em que, de uma forma ou outra, era impossível não se comover ou se abalar, ainda que silenciosamente.

Passei, ainda no jornal O Fluminense, minha primeira experiência profissional, pela escuta de uma perseguição policial dentro de um condomínio no bairro de São Francisco, área nobre de Niterói. O segurança foi assassinado por bandidos, com pelo menos três tiros na cabeça. Creio que já mencionei o caso aqui; chocou-me a naturalidade com a qual os moradores daquele conjunto de casas tratava o corpo estendido bem diante deles. Alguém que convivia até minutos antes, cheio de vida, com cada um dos residentes. Teve um que levantou o pano para olhar a cara do defunto, tomando sua caneca de café placidamente. Outra lavava a calçada com o sangue, como se fosse uma sujeira qualquer e sua limpeza fosse tão corriqueira quanto a diária. A imagem dos peritos levantando o corpo inerte e contando os furos no crânio enfiando o dedo com luva em cada um deles é algo que marcou a mim; talvez não a muito dos moradores, que provavelmente o tratavam apenas como um acessório de segurança.

Já na TV Globo, quando houve a morte do menino João Hélio, que comoveu o país, sobrou para mim uma vez ligar para o pai para marcar uma pauta dias após o episódio. Peguei o telefone e não pude fazer a tradicional pergunta: “Tudo bem?”. Era tão óbvio que não estava tudo bem. Mas como lidar? Como ser delicado e profissional numa hora dessas? E como não soar um abutre?

Em outro episódio de muita repercussão, pela primeira vez bandidos atearam fogo em um ônibus com gente dentro, sem deixar que saíssem. Foi na linha 350, no subúrbio do Rio. Morreram mãe e filha, um bebê de colo. Foi o meu pior dia dentro do jornalismo acompanhar o enterro delas. Nunca me senti tão mal em ver aquela família destroçada, dezenas de repórteres dentro do cemitério, e o avô do bebê pedindo apenas para que a neta não fosse enterrada como uma indigente, pois como não tinha tempo para o exame de DNA e a criança sequer tinha arcada dentária ainda, a Polícia não a identificou oficialmente. Gravar essa declaração dele (que foi parar na Retrospectiva da Globo daquele ano), apertou meu coração de uma forma como nunca antes. 

Veio a missão de ir para a assessoria de imprensa e naturalmente me afastei das pautas mais policiais. Fui para um campo mais empresarial, corporativo e político. A sensibilidade que às vezes aflorava mesmo no exercício da profissão cresceu mais longe dela. Essa semana, soubemos de um bebê atingido por uma bala dentro da barriga da mãe. Está em estado grave, com coágulo no cérebro e paraplégico (segundo os médicos, ainda reversível). Assumo que tem sido muito difícil para mim ver qualquer notícia sobre esse assunto. Aliás, está difícil viver no Brasil e mais especificamente no Rio ultimamente: andamos cercados de notícias como essa. 

Imagino nessas horas meus colegas jornalistas tendo que lidar com matérias como a desse bebê. Espero que tenham conseguido ter estômago e que a experiência os tenha calejado para tratar do assunto. No meu caso, a experiência só me sensibilizou ainda mais...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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