sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ser ou Não Ser (Gay)? Eis a Questão





Em maio de 2015, o cantor pernambucano Johnny Hooker, em uma entrevista publicada no Jornal Extra, declarou que dispensava rótulos e que gostava de ser visto como um cantor popular. 
  “Nunca me senti um artista de nicho. Não gosto de ser rotulado de underground e acho tendencioso dizer que faço música gay. Não existe música gay, existe música de gente”
 Na época que surgiu, o cantor foi entitulado como “o novo Ney Matogrosso”.

Pouco mais de dois anos, quando Hooker concedia uma entrevista para divulgar o seu segundo álbum (e, obviamente, para causar uma polêmica para chamar atenção), o mesmo cantor torceu o nariz à declaração de Ney Matogrosso para a Folha de São Paulo, quando disse que não gosta de ser entitulado de gay. Matogrosso disse que não defende (apenas) gays, mas também a causa indígena e a negra. O músico pernambucano ainda afirmou que a frase “que gay o caralho, eu sou um ser humano” dita por Ney foi “desastrosa” para um país onde mais existe violência contra a comunidade LGBT e ainda acusou o ícone de ter “cristalizado”. Para colocar mais lenha na fogueira, Hooker ainda declarou que a única resposta possível é “que vai ter gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokemon”. Hooker “se incomodou” pelo fato da declaração ter vinda “de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público”.

Lendo a matéria, entendi que Ney Matogrosso não gostaria de ficar rotulado exclusivamente à causa. O cantor, inclusive, citou a nova geração de artistas que levam a sexualidade para os palcos como Liniker, Rico Dalasam, As Bahias e a Cozinha Mineira e o Não Recomendados, defendendo a manifestação artístico-cultural contra a “direita-careta” do poder, não importando se são travestis ou transexuais.

Curiosamente, eu estava preparando uma matéria sobre a tal algazarra de confetes e serpentinas em torno da queer music atual quando esse assunto pipocou. Independentemente da qualidade dos novos talentos neste nicho musical, essa questão de empoderamento e “lacre” tem me cansado ultimamente, pois tudo gira em cima do potencial “bafônico” que a nova geração acredita que possui.

No mundo da música, passar um delineador nos olhos e usar ao mesmo tempo saias e bigode é tão antigo quanto os vídeos pré-históricos cheios de chuviscos de David Bowie com a bunda de fora e todo produzido no make up para a turnê de Ziggy Stardust, em 1972. Se puxarmos um pouco pela memória, vamos lembrar de figuras como Freddie Mercury dando pinta com aquele visual Tom of Finland com direito a coroa, cetro, capa vermelha, bigodão e peito cabeludo; ou então toneladas de glitter, plumas, sapatos plataforma e os indefectíveis óculos multicoloridos de Elton John. Nos anos oitenta também tinha aquela enxurrada de bandas gays eletrônicas como o Erasure e o Pet Shop Boys; o glam pop do Culture Club (com o andrógino e travestido vocalista Boy George, o synthpop do Dead or Alive; o funk´n´soul-jazz de Prince e a metralhadora político-ativista de Morrissey, no Smiths.

No Brasil, muito antes do sucesso da Banda Uó, Jaloo, Pablo Vittar e Linn da Quebrada, artistas como Angela Ro Ro, Renato Russo, Cazuza e Cássia Eller precisaram receber muitas pedradas no que diz respeito à discussão da transgressão de identidade de gênero na música. Infelizmente temos uma memória fraquinha, que ignora quem realmente foi precursor nesse antigo debate. Até mesmo no cenário underground (que notoriamente é muito mais restrito), bandas como Montage (do sensacional Daniel Peixoto) e o Textículos de Mary (formada por travestis mutantes), ambas saídas de Estados nordestinos onde predominam o senso comum de serem mais preconceituosos pela máxima “terra-de-cabra-macho” precisaram repregar muitas lantejoulas para que suas obras fossem percebidas. 

O mais interessante nessa treta é que exatamente quem começou tudo isso é que foi insultado, por uma declaração que se tornou deselegante e oportunista. Ney Matogrosso, hoje um senhor com mais de 70 anos de idade, sempre ousou transitar com liberdade, mas também precisou afrontar a ditadura militar se requebrando seminu em cima de um palco quando tinha 30, desrespeitando todos os limites e padrões sociais, à época.

Ney, que se vestia com plumas, paetês, brilhos e maquiagem no início dos anos 1970 quando ninguém usava o termo LGBT e seus direitos, tem todo o direito de não gostar de ser rotulado. Tem muito gay que não gosta de ser chamado de gay, pois acha ofensivo. Ney tem crédito de sobra. E concordo com ele quando diz que não temos obrigação de nos demarcarmos de acordo com o gênero ou a sexualidade. 

Agora, avisem aí que lacrar tudo não é somente uma questão de bas-fond. Em boca lacrada também não entra mosca, nem purpurina.

Leia Também:
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: