segunda-feira, 10 de julho de 2017

Soundtrack: Um Drama Existencial no Ártico




Estrelado por um inspirado Selton Mello, Soundtrack é um filme que evoca emoções diversas de seu público. Apesar do título que remete à música, é um filme sobre silêncios - literais e figurados - e sobre a humanidade, ou melhor, aquilo que nos faz humanos. É um filme sobre a amplidão e sobre sentir-se pequeno, perdido na imensidão. É um filme sobre a solidão.

Chris, personagem de Selton Mello, é um fotográfo que partiu para uma estação científica no Ártico com um projeto inusitado: tirar fotos diversas de si mesmo, as chamadas selfies, sempre ouvindo músicas, para que em uma exposição futura as pessoas possam experimentar as suas mesmas sensações ao colocarem um fone de ouvido e apreciar suas fotografias. Mas, em uma estação com outras quatro pessoas empenhadas em seus projetos científicos, ele é o peixe fora d'água, que causa desconfiança; o artista errante e sem noção, que vai ao Ártico para perder tempo tirando selfies enquanto eles fazem o trabalho de verdade. É o embate e a convivência entre Chris e esses outros quatro personagens, Mark (o britânico Ralph Ineson), Cao (Seu Jorge), Huang (o dinamarquês, apesar dos olhos puxados e no filme vivendo um chinês, Thomas Chaanhing)  e Rafnar (o sueco Lukas Loughran) que dão a tônica do filme, que tem como paisagem um dos locais mais frios e inóspitos do planeta.

Dirigido pela dupla autodenominada 300ml, formada por Manitou Felipe e Bernardo Dutra, do aclamado curta metragem Tarantino´s Mind, de 2006, Soundtrack é praticamente todo falado em inglês, com uma ou outra cena em português, nos diálogos entre os personagens de Seu Jorge e Selton Mello. Com personagens profundos e uma paisagem que, de tão aberta, algumas vezes soa como claustrofóbica, o longa nos leva a meditar sobre a nossa finitude, em diálogos inspirados entre os cientistas e Chris, enquanto imaginamos o verdadeiro motivo que levou o fotógrafo até aquele lugar perdido no meio do nada.

Aliás, é o que não é dito o maior charme de Soundtrack, que é tudo, menos um filme óbvio. Apresentando um ritmo lento, o filme vai construindo sua trama aos poucos, nos fazendo acompanhar o dia a dia daquele grupo díspar e vivendo condições extremas, nos familiarizando com cada um, enquanto criamos afeto pelos personagens. Parece inevitável que algo vá dar errado em algum momento, mesmo sem que saibamos exatamente o que e como e isso é um grande mérito do longa, já que fica sempre aquela sensação incômoda de que algo está para acontecer e que isso não será bom. Mas, será que acontece? Relaxem, eu não vou dar spoilers.

Construído de forma a ir crescendo a cada cena, o filme tem um clímax inesperado e até mesmo poético, condizendo com o que vimos até aquele momento. Usando a vida daqueles homens que resolveram desbravar o Ártico como alegoria, podemos pensar em nossas próprias decisões, nos caminhos que escolhemos e os percalços que, eventualmente, acabam surgindo e nos desviando da rota para que voltemos a ela, sempre mais fortalecidos e destemidos.

No fim das contas, Soundtrack não é um filme para todos. É para pensar, não é um filme fácil e está longe do que o público do cinemão costuma assistir e gostar. Mas aqueles que se permitirem viajar até o Ártico na companhia desses homens destemidos e cheios de defeitos, olha, serão recompensados. É um filmão. Assim como a imensidão retratada na tela...

Leia Também:
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: