domingo, 9 de julho de 2017

Toda a Experiência da Metade de Uma Vida




É... cheguei aos 35 anos... Metade da expectativa de vida no meu país. Costumo dizer que uma das principais funções da morte é nos fazer pensar sobre a vida. Acho que a função dos aniversários também é esta, pelo menos pra mim. Quanta coisa já passou pelas nossas vidas, não é mesmo? Quanto riso e choro. Quanta alegria e sofrimento. Quantos lugares incríveis você já pôde conhecer? Oportunidades que teve. Experiências... Eu me casei num castelo, acredita?

Me declarei gay aos 17 anos, me descobri com HIV aos 26, participei de uma reunião na ONU na Suíça aos 32, tive uma infecção generalizada aos 33 e, aos 34, fui diagnosticado com uma doença autoimune que não me deixa comer nada que eu gosto, além de intolerância à lactose e à frutose... Sim! Existem pessoas que passam mal quando comem frutas.

E você já parou para pensar o quanto o universo é incrível com a gente? Se você acredita num deus, pense o quanto ele é fantástico! Como ele nos faz ter forças e vontade de continuar. Nos faz experimentar sensações e refletir sobre o que é bom de uma maneira que talvez não saberíamos, se não vivêssemos restrições e dificuldades.

É certo que algumas pessoas têm uma resiliência (capacidade de retornar ao estado anterior) maior que outras. Para mim, é ruim ter HIV e tomar medicamento todos os dias? É. Mas, quanta coisa boa posso tirar dessa experiência? Pude conhecer pessoas incríveis, viajar para lugares que nunca pensei estar, ajudar e mudar a vida de pessoas que nem mesmo conhecia pessoalmente. Afinal, o saldo da minha doença é positivo ou negativo? Posso dizer que o HIV me trouxe uma maneira de ver a vida que eu jamais teria visto. Isso fez parte da construção do ser humano que sou hoje.

O que você acha de começar a inverter alguns questionamentos ao deus que você acredita? Sempre que algo ruim acontecer e que você pensar "Meu Deus, por que comigo?", inverta a frase para "É, Deus, por que não comigo?". Isso pode lhe ajudar a entender que ninguém merece mais do que ninguém e que todos estão suscetíveis aos problemas da vida. Sempre há algo por trás de cada acontecimento da nossa existência. E que você sempre pode tirar algo bom de uma experiência, mesmo que ela pareça ruim de início. 

Estamos aqui para ser felizes, mas, também, para evoluir, sofrer e nos tornar melhores. Enxergo o ser humano como uma pedra feia, opaca, sem forma, que está rolando no rio. Estamos sendo lapidados pela vida com lixas grossas e finas. Esse processo leva anos. Aos poucos, vamos ganhando brilho, forma, transparência e valor como uma pedra preciosa. Acredito que temos que nos esforçar para virar essa joia. Por mais perfeito que você se considere, acredito, falta muito! Mas seja paciente… Isso é natural. 

Aliás, você já pensou em fazer um trabalho voluntário? Experimente! Você pode ter experiências únicas. A sensação de ajudar outras pessoas menos privilegiadas é algo que não tem preço. Além de nos tornar ainda mais humanos.

Ah, e você vive em armários por ser gay, porque vive com HIV, porque gosta de se vestir de mulher ou porque gosta de jaca? Saia. E se for preciso, saia com o pé na porta! Viva sem medo! Ninguém tem o direito de te manter num molde que não seja o seu. O seu molde é único e foi construído a partir de tudo o que você viveu.

Se você considera que teve bons pais, agradeça-os por terem te ensinado o valor da família, do trabalho, dos estudos, da tolerância e da honestidade. Os agradeça, também, por terem te dado oportunidades. Admita que você tem privilégios quando os tiver. Isso demonstra humildade. E lutar para que todos tenham os mesmos direitos e que não exista privilégios é um sinal de humanidade. Agradeça também quem está do seu lado, te fazendo companhia. Pode ser amigos, familiares ou companheiros de vida. Por mais diferente que sejam, podem ser o que te equilibra no mundo.

Deixe a vida te ensinar que você pode conversar com qualquer pessoa sem cair na porrada. Mesmo que seja preciso um esforço sobre-humano para que isso não aconteça. 

Enfim, desculpem o textão, mas como eu disse, cheguei a metade da minha vida e tenho que pensar mais ainda nela. Afinal de contas, a única certeza que tenho é que vivi até aqui.

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Leandro Faria  
João Geraldo Netto é marketeiro, barbudo, gay, soropositivo, ativista, apaixonado, inquieto, metódico, chato e muitas outras coisas. E o responsável pela coluna mensal Conversa + aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Unknown disse...

Adorei sua retrospectiva!!!Sucesso nos próximos 35,36...