sexta-feira, 21 de julho de 2017

Todo Adulto é Triste e Solitário




Teve um dia dessa semana que eu acordei triste. Não sabia o porquê. Só estava triste. Tinha até dormido cedo na noite anterior, algo que eu nunca faço e que só fazem ampliar minhas olheiras de panda. Mas, naquela manhã fria, eu acordei triste. Exausto, fui me arrastando para o chuveiro, liguei o registro até enfumaçar todo o banheiro e enquanto percebia o vapor escorrer pelos espelhos enquanto minha própria imagem embaçava, lembrei de uma entrevista que a escritora Clarice Lispector concedeu à TV Cultura em 1 de fevereiro de 1977 para o programa Panorama.

Clarice deu essa entrevista 10 meses antes de morrer, pouco tempo depois de ter lançado seu último romance, A Hora da Estrela. Na época, a escritora fora internada devido a um câncer de ovário que foi detectado tardiamente e a doença já tinha se espalhado por todo o seu corpo.

De vez em quando, revejo essa entrevista, que acho sensacional. Com aquele ar misterioso e enigmático, Clarice conduz a gravação com o peculiar sotaque ucraniano-nordestino, que na verdade era somente um problema de dicção. Sim, Clarice tinha “língua presa” e nunca quis corrigir com medo de sentir dor. E curiosamente morreu com uma metástase! Não é louco isso?
“Mas eu não sou solitária não. Tenho muitos amigos... e só tô triste hoje porque estou cansada, pois no geral eu sou alegre”.
Naquele dia eu estava assim e por isso, através do celular procurei no YouTube aquela entrevista. Naquela manhã acordei totalmente Clarice. E quem nunca se sentiu assim, monossilábico e submerso em seu próprio oceano, não é mesmo? 

Em muitas partes da entrevista ela parece estar tirando um sarro da cara do entrevistador. Mas não. Ela era assim mesmo: “tímida e ousada” como mesmo se definia. Não se achava profissional. Se dizia amadora e fazia questão de continuar sendo pois só escrevia quando queria, para manter sua liberdade. Clarice achava inclusive que era mais fácil se comunicar com crianças pois se achava maternal, já que com os adultos ela precisava expor o seu lado mais secreto. Vale ressaltar que Clarice se sentia muito culpada pela doença mental do filho, que era esquizofrênico e, em muitos de seus livros, esses questionamentos e devaneios sobre a loucura e a morte em tons filosóficos e emocionais são muito presentes, quase que obsessivos. 

Enquanto colocava a cabeça debaixo da água quente, aumentei o áudio da entrevista através do aparelho celular. A escritora não trocou a arte pelo dinheiro. Ela não tinha ideia de seu gigantismo. Hermética? Talvez. Clarice tem uma obra que toca ou não toca. A Paixão segundo G.H., um dos seus livros mais incríveis, era completamente incompreendida por um professor catedrático em letras, mas também era o livro de cabeceira de uma adolescente de 17 anos. “Coisas simples que são recebidas de maneira complicada”. Algo bem atual nesse mundo que vivemos. As pessoas estão cada vez complicando mais e mais.

Dez ou onze anos antes desta entrevista, Clarice provocou sem querer, um incêndio em sua casa por causa de um cigarro que deixou aceso antes de cair no sono. Na ocasião, quase teve sua mão direita amputada por causa dos ferimentos. Clarice acordava quase de madrugada para escrever. Bebia, acendia seus cigarros incessantemente e mergulhava em seu silêncio e sua solidão. Apesar de afirmar que o papel do escritor é de falar cada vez menos possível, admitia que quando não escrevia, estava morta. E que precisava exercitar a experiência da escrita para poder reviver.

Re-vi-ver. Experiência que buscamos atualmente todos os dias. Para quem mora em grandes metrópoles, principalmente o Rio de Janeiro, que se encontra em uma tristeza imediata de um suicida, largada e abandonada por tudo e todos, a impressão que tenho é que nestes tempos cruéis, quando chegamos em casa, dia após dia, sentimos no nosso cérebro um tilintar de um joguinho de video-game... plooooing... parabéns, você passou para mais uma fase. Nosso dia-a-dia se transformou em um looping de passar de fase, driblando as barreiras para não sermos atingidos pelo game-over.

E novamente sou atingido pelo olhar gigante de Clarice... Muito jovem, leu o angustiante e atormentado O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse e, inspirada, começou a escrever um conto que nunca terminava. Com raiva, rasgou todo esse material que poderia ter se tornado uma surpreendente obra. 

A água quente começa a deixar meus dedos enrugados e dou uma gargalhada quando ouço Clarice responder de forma lacônica ao entrevistador que, ao questioná-la sobre sua última obra, quis saber o nome da personagem principal e o nome do livro. “É segredo”, corta, para logo depois, emendar que é a história de uma alagoana que mora no Rio de Janeiro; “uma moça tão pobre e de uma miséria tão anônima que só comia cachorro-quente”.

O looping de passar de fase reaparece em minha mente. Estou triste hoje pois estou cansado, mas no geral eu sou alegre. Cansado de ver tantos problemas sociais... de tantas Macabéas comendo cachorro-quente com guaravita, ou nem tendo moedas para isso. Se alimentando dos olhares cruéis e do ar pesado e perdido da cidade, sem perspectivas.

Clarice termina, cabisbaixa, a entrevista. “Agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo. No momento eu estou morta. Estou falando de meu túmulo”. Ao me enxugar, apressadamente, me enrolo na toalha, tremendo com o frio que faz no quarto e, para não piorar da gripe que já se instala em mim há semanas, visto imediatamente as roupas para sair para o trabalho. Encaro pela janela a chuva fina e o forte nevoeiro que assola a cidade. Mesmo com toda aquela paisagem monocromática, ainda temos muita beleza para descobrir... fugindo do game-over no eterno-looping-enquanto-dure, do “passar de fase” diário.

Assista a entrevista completa clicando aqui!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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3 comentários:

Homem, Homossexual e Pai disse...

adorei esse texto... ha muito não pensava na clarice... e adorei vc ter dito que ten dias que "acorda clarice"... acho que tb tenho dias assim... acho que vou precisar ler umas duas vezes mais para entender tudo... e me deixar emocionar... é umsaco ter muitas coisas apra fazer! obrigado por compartilhar! abs

Marcia Pereira disse...

Estou assim hoje, à flor da pele! Obrigada por me contemplar com este texto que me traduz totalmente hoje! Beijos no coração!

Marcia Marino disse...

Os meus dias têm sido assim...ufa! Consegui passar de fase... Parabéns pelo texto! Beijinhos nas bochechas 😘