terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Adrenalina




Droga, droga, droga, droga... Por onde...? Ah, por aqui, é melhor. 

A pior parte de ser eu com doze/treze/quatorze anos é exatamente essa: ser perseguido pelos garotos mais velhos. Merda, lá vem eles de novo, que inferno. Espera, deixa eu entrar nessa rua aqui. Pronto, acho que vai dar pra aguentar aqui até eles irem embora. Meu nome é Glauco, e hoje eu estou sendo perseguido por dois garotos, Marcos Paulo e um outro qualquer que é amigão dele. O motivo? Bem, vamos voltar um pouco? 

Minha mãe me deu um conjunto novinho de canetinhas e lápis de cor, e tudo que minha mãe me dá eu faço questão absoluta de cuidar, guardar e, às vezes, eu nem uso, só pra não estragar, aí deixo lá, sendo exibido feito um troféu no meu guarda-roupas. Aí o Marcos e esse outro garoto me pediram emprestado na aula de Artes. MAS... é meu. São meus. Minha mãe que me deu. Eu não cuidei deles com tanto carinho pra deixar que dois desconhecidos saiam usando. Então eu neguei. O resto? O resto vocês já sabem. Espera aí, cadê o outro? Merda, eles se dividiram. Ah não, lá vem o Marcos, é melhor eu correr, mas como que corre com essa mochila nas costas?????

É difícil ser uma das pessoas que têm essas coisas na escola, porque sempre tem alguém querendo usar, ou te perseguindo por isso, como no meu caso. E agora ferrou tudo, o outro tá vindo lá do começo da rua, e o Marcos tá logo ali atrás. Agora é seguir o conselho da minha mãe, ficar paradinho e deixar que eles me batam. Eu sei, péssimo conselho, mas o que eu vou fazer, arrumar mais confusão, sendo que nem brigar eu sei? Melhor não. Espera, aquele ali é o Chico? ÓTIMO! O Chico é um amigo antigo da família, e se eu correr até a loja de tintas onde ele está, consigo pedir uma carona. 

CARA, EU ODEIO MOTO! Morro de medo de cair, ou de não virar pro lado certo (o quê? Isso pode acontecer, oras). Mas, felizmente, eu estou em casa, são e salvo. E, é claro, ouvindo um esporro da minha mãe por não ter emprestado as canetinhas pros garotos. Claro que não ia fazer isso, são minhas, ela que me deu, e é meu dever guardá-las e protegê-las com a minha vida. 

Certo, mais um dia vencido, posso dormir e pensar no que vou fazer amanhã. Preciso dar um jeito de ser o primeiro a sair. Amanhã eu penso melhor sobre isso. Porém, é melhor apanhar em público do que ser assediado por um garoto da igreja, e em público. Aquilo era constrangedor demais da conta. 

Ele era mais velho, estava na oitava série, e eu na quarta, em outro colégio e, no caminho, a gente se encontrava, porque eu ia pra casa dele, afinal, meus pais trabalhavam no bairro ao lado, que não é longe mas não tem como ir de ônibus porque não tem ônibus pra lá. E ele sempre estava acompanhado de mais dois ou três amigos, o que me impedia de fazer qualquer coisa que fosse, e eu não sei brigar, então o que eu fazia? Me deixava ser agarrado, esfregado, encochado, como... Argh, que nojento. E ele gemia alto, chamando meu nome daquela maneira, sabem? Igual nos filmes pornô, com todo mundo olhando, rindo, inclusive colegas de classe que iam pelo mesmo caminho, o que tornava meus dias na escola insuportáveis... O pior é que ele me perseguia TAMBÉM dentro da igreja. Legal, né? Pois é. Mas teve um dia que me veio um negócio de dentro e me fez jogar ele longe, só que ele caiu sentado num dos bancos da igreja e voltou com toda a força, PORÉM, alguém apareceu e me livrou de uma bela surra. Sério, seria horrível. E só parou quando meu pai começou a se encontrar comigo no meio do caminho. Eu detesto isso, me sinto tão inútil, queria saber me defender sozinho. 

O que me faz lembrar também de quando uma professora de Matemática da quinta série parte dois (sim, eu repeti) desafiou um aluno a me bater na frente dela. Eu não sei, mas queria entender o que tava se passando na cabeça dela, mas o garoto, mais forte que eu, me deu um soco no ombro, dentro da sala de aula, na frente dela, e bem, na frente de todo mundo. Ele foi pra Secretaria, mas essa era apenas a ponta do iceberg. Ao terminar a aula, eu fui na sala da coordenadora do SOE (Serviço de Orientação Escolar - ou Estudantil, eu nunca lembro) falar com a Soninha, que simpatizava muito comigo, e quem eu encontro lá, cheia de plantas nas mãos? Minha mãe! As duas também tinham simpatizado uma com a outra, e minha mãe foi lá pegar umas mudas. Eu não sei, mas acho que a Soninha avisou a minha mãe, porque não é possível, ela estava preparada praquele momento. E outra, eu sei quando minha mãe está tentando despistar a verdade, porque eu perguntei se ela tinha ido por causa do Felipe e ela: "Eu? Não tô sabendo, vim pegar umas mudas com a Soninha!". Aham... tá bem, mãe, eu finjo que acredito. 

Saímos, na mão direita as plantas, na mão esquerda a minha mão, e diante de nós, Felipe, o garoto que me bateu na sala de aula. Atrás dele? Cerca de vinte garotos, todos amigos dele, todos prontos pra me bater. O motivo? Podem crer que não foi por causa de canetinhas. Eu acredito que tenha a ver com o fato de... bem, eu sou diferente dos outros garotos, né? E o fato de fazer tudo certinho, ter pai, mãe e irmã que vão me buscar após as aulas acaba atraindo atenção. 

Minha mãe apertou a minha mão, olhou em volta, e eu pude sentir tudo o que ela estava sentindo, toda a respiração dela, toda a tensão, e dava pra ver a mente dela trabalhando, pensando num jeito de sair dali com vida. Ninguém apareceu pra ajudar a gente. Éramos só nós dois contra aquele pequeno exército de elite, que se aproximava cada vez mais, até que minha mãe me colocou atrás dela e bateu de frente com Felipe, querendo saber porque ele queria tanto o meu mal. Meu sangue subiu quando os garotos começaram a ofender a minha mãe, dizendo que iam me encher de porrada na frente dela, e se ela tentasse alguma coisa, iam bater nela também. Mas o que eu podia fazer? Não dava conta de dois moleques, imagina de vinte... Um deles tentou me chutar, mas o dedo rígido da minha mãe se levantou bem na cara dele, seguido das palavras: "NÃO! SEM BATER!". Até que, depois de um tempo, eles conseguiram negociar um acordo de paz, e fomos embora pra casa, um apertando a mão do outro, enquanto eles nos xingavam. Bem, doeu um pouco minha mãe ter duvidado do fato de que eu não fazia nada contra eles, só queria fazer amizade, e eu levei uns esporros também, mas é aquela coisa de mãe, né? Ela sabe o filho que tem, então tava apenas se certificando. 

Bom, já tá tarde, e amanhã eu tenho um grande dia pela frente. Ou, pelo menos, uma grande manhã. Eu até gosto de adrenalina, mas precisa ser tanto assim? E precisa ser desse tipo? 

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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