quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Tragédia Fria das Ruas




Dia desses fui abordado por um homem na rua. Estávamos eu e Cristiano, meu companheiro, passeando com os nossos cachorros já bem tarde da noite, após as 23 horas. Franzino, veio com a voz mansa explicando:

- Não vim pedir dinheiro não. Eu queria ver se o senhor tem um cobertor, porque eu tenho passado frio toda noite. Cheguei de Pernambuco há pouco tempo, estou morando embaixo de uma passarela e minhas roupas não seguram o frio.

Aquilo me cortou o coração, da mesma forma que o frio fazia com aquele rapaz todas as noites desde que chegara do Nordeste. Por acaso, eu tinha dois cobertores em casa que tinha lavado justamente para doar. Não titubeamos nem um minuto: fomos para a casa com os cachorros, pedimos para ele esperar do lado de fora, catamos uns agasalhos e demos com as cobertas, umas frutas e uma garrafa de mate. O rapaz ficou tão feliz e ainda ofereceu serviços de ajudante de obras: 

- Só procurar por mim lá embaixo da passarela do Maracanã: Henrique. 

Não estou aqui para falar do que eu fiz naquela noite fria. Mas, sim, do que está acontecendo à nossa volta e que não estamos sabendo lidar. Vivemos uma tragédia humana monumental. No último domingo, fui ao banco e ao mercado na minha vizinhança e fui abordado por, pelo menos, cinco pedintes, aparentemente moradores de rua. 

A situação dos moradores de rua é como uma hipertensão: uma pressão que cresce silenciosa e que só tratamos quando aparecem os sintomas avançados. São pessoas muitas das vezes invisíveis, que ignoramos ou até mesmo enxotamos, mas que quando ultrapassam níveis que a sociedade considera “adequados”, começam a se tornar incomodamente visíveis. 

Os “mendigos” historicamente crescem em número em áreas mais nobres ou próximas ao Centro da cidade. Justamente aos olhos de quem mais cobra atitudes do Poder Público, mas que não costuma se preocupar muito com a destinação daquelas pessoas. Uma política de sanitização das ruas. Lembro-me que uma pessoa que já trabalhou no call center da Comlurb, a companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro, me disse que uma vez recebeu uma ligação pedindo para os garis irem retirar uma pessoa que estava dormindo na sua calçada. Retrato do que muitos pensam, sem um pingo de empatia.

A grande parte das pessoas que mora nas ruas não é de meros “vagabundos”. São pessoas que perderam o emprego na crise e não encontram o apoio de suas famílias (talvez nem as tenham mais); são trabalhadores que não têm dinheiro para voltar para casa todo dia porque vivem em condições trabalhistas precárias; são jovens que sofreram algum tipo de abuso em casa ou que se perderam, sem oportunidade, em alguma droga e nunca tiveram apoio psicológico. São pessoas como o Henrique, que fizeram a migração do Nordeste acreditando que no Sul Maravilha teria mais oportunidade e sequer tinham uma roupa de frio. 

Tudo o que eu pensava era que, naquela noite, eu consegui fazer algo de bom para alguém. Henrique pode nunca saber o meu nome, pode não me reconhecer mais caso me veja na rua; mas se ele dormiu aquecido pela primeira vez, provavelmente me abençoou em seu sono. Que ele tenha força para vencer a sua tragédia pessoal, porque perspectiva, realmente, está difícil...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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