sábado, 12 de agosto de 2017

Bicha Velha





Sempre tive uma pele ótima e nunca aparentei ter a idade que tenho, consigo passar por alguém que tem uma década a menos de vida tranquilamente. A aparência física com o avançar do tempo nunca me preocupou, porque além de uma genética privilegiada, faço parte de uma geração que demora mais para aparentar velhice, a chamada Geração Y. E não é só na aparência que demoramos aparentar amadurecimento, os millenials também possuem um retardo no amadurecimento emocional, mas isso é assunto para outro texto. Como eu dizia, minha preocupação maior com o acúmulo de anos sempre esteve mais ligada com a dificuldade em ser um adulto realizado como pessoa, questões muito mais interiores que exteriores. Até que um dia desses me olhei no espelho do banheiro e enxerguei nitidamente rugas nas laterais dos olhos, aquelas coisas horrorosas popularmente chamadas de "pés de galinha".

Fiquei arrasado, e notei que comecei a ficar com ar envelhecido pelos olhos, qualquer expressão que eu faça com eles, uma porção delas aparecem. Imediatamente lembrei de Madonna em um filme que adoro chamado Sobrou Pra Você (The Next Best Thing), em que na pele de Abbie ela se olha no espelho nostálgica e melancólica, dando-se conta do peso da idade em sua aparência, estica o rosto com as mãos e diz: "aos 20". Solta: "aos 40". Em seguida faz o mesmo com os seios, empinados e duros aos 20 e caídos aos 40. Era uma cena bem-humorada e triste ao mesmo tempo. Sabemos que a juventude não é eterna, mas ficar enrugado, caído e embarangado não é muito bacana, e quando se faz parte de uma comunidade que cultua a beleza a qualquer custo, chega a ser cruel e bastante doloroso.

Os sinais do tempo no corpo são implacáveis. Pode-se tentar enganá-los e disfarçá-los à vontade, mas seus joelhos vão convencê-lo facilmente de que sim, você está ficando velho. Constatei isso definitivamente quando saí pra dançar semana passada. Demoro muito pra sair de balada, mas quando decido que preciso descer até o chão, eu desço mesmo, então me jogo na pista sem reservas. E foi dançando Uma Bomba (aquela do movimento sexy), do Braga Boys, que senti meus joelhos estalarem no momento em que tentava coreografar a decidinha sexy até o chão. Estalaram com força e doeram, fiquei em choque, pois sempre fui ótimo pra descer até o chão, mas parei na hora ao ter a sensação que minha patela fosse arrebentar a qualquer momento. Acho que ali, naquele exato momento, caiu minha ficha. Já vivi um terço da expectativa média de vida de uma pessoa e agora o corpo começa a cobrar os excessos e desmazelos que praticamos com ele, há que se ter mais cuidado e carinho.

Já me preparo para começar a comprar muitos anti-rugas. Já ando utilizando umas amostras francesas incríveis que um amigo que trabalha em uma clínica de estética consegue pra mim, mas eu mesmo ainda não encomendei nem entrei em nenhuma loja especializada para adquirir os creminhos milagrosos, mas isso não vai demorar nada.

No mais, acho que a velhice não me assusta tanto, mas é assustador o pavor que ela causa em alguns. Eu mesmo, tenho um amigo que dizia querer morrer aos 36 anos, como Elis Regina, tão forte era sua aversão de envelhecer. Esse amigo vai completar 38, e acho que mudou de ideia. O maior problema não é simplesmente a velhice, que por si só já parece ser ruim o suficiente, mas a velhice no meio gay, isso sim é deveras apavorante. Não é fácil ser um gay gordo, não é fácil ser um gay afeminado, não é fácil ser um gay de forma nenhuma. Imagina ser um gay idoso? Gays idosos são invisíveis na sociedade, segundo pesquisa recente.

Todos esses pensamentos me vieram à cabeça nos meus recém completados 36, idade de ícones como a própria Elis e Marilyn Monroe quando morreram. Não tive a vida intensa como a delas, mas também não pretendo parar por aqui. Já falo de velhice numa idade não tão avançada pois tenho consciência que a partir de agora, mais do que nunca, é só água morro abaixo, o tempo continuará passando como um trem desgovernado, trem-bala. E já me preparo para ser uma bicha velha literalmente, porque a pele ainda é uma seda, mas a cabeça já envelheceu há muito tempo, ficará agora condizente com a idade. Mas antes isso, do que uma bicha velha com cabeça e atitudes adolescentes, que se recusa a encarar o tempo de frente, né, não? Eu acho!

E pra encerrar, deixo um vídeo bem famosinho, mas que condiz bastante com esse clima de aniversário, nostalgia e um pouquinho de medo da passagem do tempo. Fiquem com o Filtro Solar, sempre é bom lembrar de seus conselhos!


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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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