sábado, 5 de agosto de 2017

Confissão





Cecília e Arthur estavam casados há cinco anos. Jovens, apaixonados e felizes, eram cúmplices, fiéis e leais acima de tudo. Nos últimos meses, porém, um remorso cruel vinha atormentando a consciência de Arthur e roubando suas noites de sono. Ele amava sua pequena e não suportava mais a culpa, estava deveras arrependido. Certa noite, farto de viver com aquele peso na consciência, resolveu confessar, abrir o jogo e com o perdão de Cecília, finalmente dormir em paz e poder olhá-la nos olhos sem remorsos. Preparou o ambiente e o espírito e esperou a esposa chegar do trabalho. Quando ouviu o barulho da chave na fechadura, seu coração disparou, as mãos estavam geladas e a boca seca. Era uma situação desesperadora, mas ele precisava contar. 

Cecília adentrou o apartamento com aquele sorriso cansado por mais um dia de trabalho, porém luminoso, largou a bolsa no sofá grená e beijou o marido nos lábios docemente, como sempre fazia quando chegava e ele estava em casa.

- Oi amor, que delícia te encontrar em casa! Ai, tô exausta! Vou tomar um banho. Você pede alguma coisa pra gente comer? 

Pensou em esperá-la tomar o banho, e assim, mais relaxada, lhe fazer a desagradável confissão. Achou melhor não, lembrou que se esperasse mais um segundo perderia a coragem.

- Espera Cecília, antes de mais nada preciso falar com você!
- Ai amor, deixa eu tomar um bainho primeiro. Você sabe que enquanto eu não jogo uma água no corpo, não consigo nem pensar direito.
- Não Cecília, não dá mais pra esperar, é urgente, se eu não falar agora vou sufocar!
- Nossa Arthur, que isso? Tô ficando preocupada. Que urgência é essa, é alguma coisa grave?!
- Sim Ceci, é grave, é urgente, é péssimo, mas eu preciso falar. Não aguento mais te esconder essa história. Talvez você me odeie por isso, mas eu tenho que confessar porque eu te amo!
- Confessar o que Arthur, que história é essa? Que merda você fez?
- Foi... foi uma merda mesmo!
- Fala logo Arthur, que merda foi essa?
- Antes de qualquer coisa, é importante que você saiba que eu te amo profundamente e essa confissão é uma prova disso.
- Fala Arthur, desembucha de uma vez!
- Certo. Lembra, aquela convenção que você foi na serra gaúcha em abril, passando toda a semana anterior a páscoa lá?
- Claro que lembro Arthur, há 4 meses. O que é que tem?
- Então, aconteceu... Eu saí com o pessoal pra beber, descontrair um pouco, a casa tava tão vazia sem você...
- Qual é a novidade? Você sempre sai pra beber com o pessoal. Fala de uma vez, que raio de confissão é essa?
- Eu bebi um pouco além da conta, e acabei indo pra cama com outra garota.

Durante os minutos que antecederam a última frase, o mundo de Cecília ruía vagarosamente, pois o tom exitante e aflito de Arthur já prenunciava o pior, mas com as derradeiras palavras, ele desmoronou por completo. Houve uma curta privação de sentidos, alguns segundos, talvez minutos, até conseguir dizer palavra.

- Você fez o que, Arthur?
- Eu dormi com outra garota, mas foi um erro, o maior erro que já cometi na vida, uma imbecilidade. E isso já faz 4 meses, mas eu não consegui ter paz esse tempo todo. Eu te amo, me perdoa!
- Você transou com outra mulher?
- Sim, transei.
- Onde, na nossa cama?
- Não, imagina, jamais! Foi num motel qualquer, eu nem me lembro mais.
- Por que você tá me contando isso agora?
- Porque eu te amo, e esse amor me faz sentir culpa, remorso, um arrependimento atroz. Eu nunca ia ter paz se não te contasse!
- Quem ama trai, Arthur?

Arthur hesitou, mas Cecília prosseguiu...

- Não, Arthur, quem ama não trai!

O tom de Cecília era calmo, mas carregado de raiva. Moça fina e educada, nunca foi afeita a "barracos".

- Mas, eu te amo Cecília. Quer maior prova de amor do que essa confissão?
- Pra mim não dá, não funciona assim. Eu não penso dessa maneira e você sabe muito bem o meu conceito de traição!
- Nós prometemos ser leais um ao outro acima de tudo, lembra? É o que eu tô fazendo agora.
- E por que só agora? Por que não me contou assim que eu voltei de viagem?
- Achei que pudesse conviver com esse segredo, não queria te magoar. Mas, isso já me consumiu demais. Não suporto não ter uma relação transparente com você. Você é minha amiga, meu amor, minha companheira. Será que consegue me perdoar?
- Preciso de um banho. Como você já sabe, antes disso eu não consigo pensar.

Dentro da banheira, com todos os sais e óleos essenciais que encontrou pela casa, Cecília chorou copiosamente, refletiu, procurou entender, ponderou a atitude do marido em confessar-se e chegou à conclusão que tomaria uma decisão no dia seguinte.

Enrolada em seu roupão, com a toalha envolta na cabeça, pegou o travesseiro e a roupa de cama de Arthur e sentenciou... 

- Hoje você dorme no sofá. Preciso ficar sozinha.
- Mas Cecília...
- Amanhã Arthur, por favor!

Recostada na cabeceira da cama, acompanhada de um legítimo Merlot, Cecília pensava e bebia, pensava e bebia. Após a quarta taça de vinho, conseguiu dormir, um sono leve e angustiado.

No dia seguinte, Arthur que mal tinha conseguido pregar o olho, levantou antes da esposa e preparou a mesa de café da manhã mais linda que já tinha feito na vida. Croissant's, geleias, queijos, suco, achocolatado, iogurte, flores e um bilhete com a inscrição "eu te amo" ao lado da xícara de Cecília.

Aparentemente serena, Cecília levantou-se e pôs-se à mesa. Cumprimentou o marido com um simples bom dia, sem o costumeiro beijo da manhã. Elogiou o capricho da mesa e após ler o bilhete, olhou Arthur nos olhos e disse com toda a sinceridade.

- Eu também te amo, mas foi um golpe duro ouvir que você me traiu.

Segurando sua mão Arthur respondeu.

- Pra mim também foi horrível te magoar. Isso nunca mais vai acontecer. Eu juro!
- Não jure. Não prometa o que você não pode cumprir. Apesar de continuar te amando, alguma coisa se quebrou, mas eu não vou ficar me atormentando com o receio de que você possa me trair novamente. Você é homem, jovem, bonito, cheio de vida, e eu também.
- Como assim? O que você quer dizer com isso?
- Eu pensei muito Arthur, e acho que cheguei a uma conclusão civilizada, inteligente e lógica. Não quero me separar de você, porque você realmente é o homem que eu amo e nunca me passou pela cabeça ter um caso com outro, ou mesmo uma transa de uma noite só. Nunca tive esse desejo, essa atração por outro homem. Sempre abominei traição e pensava que se um dia acontecesse de olhar pra outro com segundas intenções iria me sentir a última das mulheres. Indigna, baixa, imerecedora do seu amor. Mas depois de ontem, depois de tudo o que me disse, não enxergo mais as coisas assim tão duramente.

Arthur ouvia cada palavra atentamente, não piscava, a respiração lenta, quase parando.

- O que eu quero dizer é que se algum dia surgir outro homem, eu tiver a oportunidade e quiser transar com ele, não vou ter mais nenhum tipo de pudor ou remorso por causa disso.
- Tá querendo dizer que na primeira oportunidade que tiver você vai se vingar, é isso?
- Não Arthur, claro que não, sem vinganças por aqui ok. O que você fez foi digno, amoroso. Confessou um deslize, e eu não posso querer te punir por causa disso, seria injusto, desamoroso.
- Mas então...
- ...Então, que eu não vou mais encarar a infidelidade de forma tão inflexível, nem pra você, nem pra mim. Ninguém tá livre disso. Precisamos ser mais complacentes com o outro e com a gente mesmo.
- Você quer dizer, que caso isso aconteça com você, vai fazer o mesmo que eu fiz, confessar?
- Não necessariamente.
- Como não, Cecília? Não seria honesto não contar, seria desleal. Eu faria questão de saber.
- Arthur, meu querido, obviamente que eu confessaria se me sentisse culpada, com a consciência pesada, como você se sentiu. Do contrário, não teria a menor necessidade de contar.
- Mas você acha que não sentiria remorso?
- Sinceramente, de hoje em diante, acho que não.
- Eu não suportaria, Cecília!
- Não suportaria o que, meu amor?
- Saber que você me trai sem um pingo de remorso.
- Mas você não saberia, querido, e quando a gente não sabe dói menos.
- Eu nunca mais vou te trair Cecília, nunca, nunca, nunca mais. Te juro por tudo que é mais sagrado. Eu te amo mais que tudo!
- Fico feliz de ouvir uma declaração dessas num sábado de sol tão lindo, pela manhã. Eu também te amo.

Toda aquela conversa surtiu efeito devastador em Arthur. Ele a amava profundamente, e por amá-la tanto sabia que não suportaria uma traição confessa dela, e pra evitar que isso ocorresse também nunca mais a traiu. Tornou-se o mais fiel dos homens.

Cecília também o amava, mas depois daquela confissão, ela, que nunca havia tido outro homem, tornou-se a mais adúltera das mulheres. Mas, por amá-lo profundamente e saber que ele não suportaria uma traição, jamais confessou um único de seus inúmeros amantes.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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