quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Rio Mais Brasil: Patriotismo em Tempos Difíceis





Têm sido tempos difíceis para ser patriota ou ufanista no Brasil ultimamente. O último lampejo nesse sentido que tivemos foi nas Olimpíadas, um ano atrás. E tudo isso já parece tão distante. Por isso, talvez, ir assistir à peça Rio Mais Brasil, no teatro Oi Casa Grande, tenha causado certa estranheza inicial para mim. Engraçado como em dado momento em que a bandeira brasileira, grande e imponente, se faz presente acaba até causando certo incômodo. Sintoma de tristes dias que vivemos em terras tupiniquins.

Pois bem. Minha prima, Teka Balluthy, está no elenco de Rio Mais Brasil (coincidentemente, seu nome na peça é Flávia, seu nome de fato) e me convidou para ir na última sexta-feira. Temos, ainda, uma amiga em comum que também esteve presente. Fui basicamente com a expectativa de ver a prima querida em cena, cantando e atuando (adoro dizer que ela foi o primeiro bebê que eu peguei no colo – e foi mesmo!). Mas me surpreendi com um belo espetáculo, com números musicais e representações que buscam sair do óbvio – por exemplo, usar o funk De ladin para falar de Madureira, em vez dos sambas mais tradicionais de Portela e Império Serrano.

Com direção de Ulysses Cruz, Rio Mais Brasil conta a história de um filme que começa a ser rodado baseado no clássico "O Povo Brasileiro", de Darcy Ribeiro, com atores de todo o país. O espetáculo tem grande elenco de atores que cantam, tocam, dançam e, claro, atuam, liderados por Cláudio Lins (que faz o produtor, mais à vontade no palco) e Cris Vianna (que vive a diretora, um pouco mais contida, mas de uma presença ímpar com seu porte e beleza). Entre os talentosos artistas estão alguns ex-The Voice Brasil e outros acostumados a performances em musicais. Isso garante uma homogeneidade nos números com solos. Outro acerto da peça é mesclar músicas originais com outras já consagradas ou até mesmo pouco conhecidas. Impossível não cantar algumas delas, mesmo que mentalmente, como O Meu Lugar, Oração, Ideologia (defendida por Teka) ou Caçador de Mim (esse, o solo mais incrível da peça, totalmente à capela).

Rio Mais Brasil tem momentos de lugar comum, também. Principalmente aqueles que costuram os números musicais. Ao mesmo tempo, o espetáculo joga na nossa cara a desvalorização da cultura no Brasil (em momentos, inclusive, autobiográficos) e a lembrança de que não importa o quanto exaltemos o nosso país, ainda existe uma realidade de extrema pobreza e insalubridade para boa parte da sua população.

Vale a pena conferir (não só pela minha prima, juro!). Rio Mais Brasil é uma lufada de frescor no nosso patriotismo tão adormecido e até mesmo ferido – ainda que não seja uma peça indolor. Além de ser um presente aos nossos olhos e aos nossos ouvidos.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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