sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Aceitar e Respeitar: A Melhor Terapia





Essa semana fui surpreendido (surpreendido talvez não seja a palavra ideal... Talvez seja estarrecido) com a triste notícia da tal decisão judicial, em caráter liminar, permitindo com que os profissionais de psicologia possam oferecer tratamentos contra a homossexualidade, que desde 1999 estavam proibidos nos consultórios através de uma resolução do Conselho Federal da classe. Vale ressaltar que o conselho (que vai recorrer da decisão) se baseou no movimento da OMS (Organização Mundial da Saúde), que deixou de considerar a homossexualidade como doença em 1990.

Evidentemente, a decisão causou uma revolta nas redes sociais, pois é inaceitável esse retrocesso despropositado. Não sou psicólogo, mas sempre gostei muito de bater papo com profissionais da área e esse tema sempre esteve presente na maioria das conversas. A tal “cura gay” (um termo inventado pela imprensa imediatista) nada mais é o que alguns profissionais (já cassados) estavam publicizando a possíveis clientes. Má-fé, eu diria, com toques neonazistas. 

Certamente existem milhares de pacientes que buscam profissionais com o objetivo de encontrarem uma “cura”, movidos por uma culpa quase sempre vinculada a questões religiosas. São pessoas que chegam desesperadas e completamente perdidas aos consultórios, pré-julgando a homossexualidade como doentia, marginalizada e pecaminosa. Atender pessoas que “voluntariamente venham em busca de orientação acerca de sua sexualidade” é algo bem diferente do tal “poder de reversão” prometido. A própria resolução do CFP instrui os profissionais a atuarem em questões relativas à orientação sexual, mas impede ações que favoreçam na patologia de “comportamentos ou práticas homoeróticas”, além de também estarem proibidos de adotar “ações coercitivas tendentes a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”. 

Uma dentre as diversas ações que os profissionais de psicologia realizam é adequar o espelho com a figura do paciente para que ele passe a se aceitar e discutir da melhor maneira possível questões como auto-estima, segurança, confiança e coragem. E como discutir e desvincular o desejo? Como se libertar algo tão subjetivo e ao mesmo tempo tão real? 

Frequentemente falo aqui de Sandman, a história em quadrinhos criada pelo sensacional escritor inglês Neil Gaiman no fim dos anos 1980 que se tornou um fenômeno mundial. Na saga, Sandman (a representação simbólica do Sonho, ou Morpheus) possui seis irmãos; os chamados Perpétuos: Destino, Morte, Desespero, Destruição, Delírio e Desejo. Esta última (a mais cruel dos irmãos, exatamente por estar centrada na auto-satisfação), cria embates com Sonho, pelo simples prazer de querer... desejar. Conceitualmente, Neil Gaiman representava Desejo como uma estátua colossal com as feições do corpo que estivesse usando naquele momento. Um corpo retratado como uma grande cidade em um reino chamado Limiar onde Desejo habitava um coração de vidro. 

Mesmo com uma definição tão metafórica, podemos imaginar Desejo sempre relacionada a grandes conflitos, que ao sofrerem interferências, sempre acabam assegurando danos irreversíveis. Partindo para o mundo real, de onde você acha que nascem as neuroses e as psicoses senão da frustração pela não-realização dos desejos e seus conflitos? É bem por aí...

Quando estava praticamente com a coluna fechada, li na minha timeline um belíssimo texto de um amigo que casava perfeitamente com que eu estava pensando. Por isso, resolvi complementar com sua observação, pois ele direciona o prisma para um lado muito interessante. 
“Na adolescência eu fui levado a uma psicóloga para "tratar" minha homossexualidade. Tenho um amigo que foi para um retiro espiritual com psicólogo para tratar sua homossexualidade. Conheço gente que "deixou" de ser gay por alguns meses e voltou a ser depois. Tenho amigos que ainda hoje querem deixar de ser gays e buscam a mudança. QUAL O PROBLEMA PROCURAR POR AJUDA? DE QUERER MUDAR? DE NÃO QUERER SER MAIS GAY? Nenhum. Você tem que ser livre para ser o que quiser. Mas já parou para pensar porque alguém deseja mudar sua orientação sexual? Qual a infelicidade de ser gay? Das vezes que eu quis deixar de ser gay foi porque fui obrigado. Foi por causa da infelicidade da minha família, da minha religião, por não conseguir uma promoção no trabalho, por achar que eu era o desgosto de quem me amava, por diversos motivos, menos por motivos sexuais. Foi exclusivamente para me ADEQUAR à felicidade dos outros e ao padrão de vida imposto pela minha sociedade. Eu estava realmente doente. Eu realmente precisava de ajuda, mas não era para deixar de ser gay. Eu precisava aprender a me amar, a me aceitar, a respeitar meu corpo, meus desejos. Hoje eu entendo que era isso que a psicóloga deveria ter me ajudado. Ajudar a me entender e a conviver com quem eu sou. A atitude deste juiz permite que pessoas sofram mais em busca de uma mudança. Permite que nossa sociedade hipócrita continue a criar pessoas doentes em busca de uma identidade aceitável. Perpetua a ideia de que o diferente precisa de tratamento e mudança. Permite que pessoas ganhem dinheiro em troca do sofrimento alheio. Essa (falsa) liberdade de tratamento está mascarando toda a verdade por trás da atitude deste juiz. Não se engane, meu amigo. Psicólogo algum vai te fazer feliz mudando. Não é você que tem que mudar. E se quem diz que te ama, quer que você “seja alguém que você não nasceu pra ser”, precisa repensar. Porque amor não é imposição, nem julgamento. Amor é aceitação.”
Valeu, Rafa! Você foi na mosca! A melhor forma é aceitar a si mesmo. Poder observar o espelho e ver sua imagem refletida e gostar dela mesmo com todos os defeitos que porventura existam ou que sejam prejulgadas pela sociedade.

Terapias de reversão sexual não possuem nenhuma resolutividade. Certamente, os que se submeterem a esse tipo de escolha só terão mais sofrimentos psicológicos.

Viva!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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