quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Desculpa Por Ter Sido Um Babaca





Sempre quando a gente se imagina em uma história, somos os heróis. Os mocinhos incompreendidos. Em nenhum minuto sequer nos colocamos como os vilões da trama. Os filho da puta. Somos os mocinhos, sempre... Mas, se for parar para analisar friamente, certeza que você vai conseguir listar duas ou três vezes que foi vilão na vida de alguém. Ninguém é o mocinho o tempo todo. É impossível...

Algum tempo atrás eu me vi do lado oposto. Eu me vi sendo um completo babaca. E o pior? Eu tinha consciência disso. Sabia que estava fazendo alguém que eu gostava sofrer. Estava confuso e achava que aos 18 anos não era possível encontrar o amor da minha vida... Ninguém encontra o amor da sua vida aos 18 anos, não é mesmo?...

Hoje em dia sei de histórias de casais que estão juntos desde o colégio. Outros da faculdade e mais alguns da vida inteira. Mas quando eu tinha 18 anos, os tipos de casais que conhecia eram outros bem diferentes. E não pensava que o destino/universo/seja-lá-quem-manda-na-vida-da-gente fosse me presentear e me dar o cara perfeito no meu colo.

Nosso encontro foi lindo. Eu estava nervoso. Ele estava nervoso. Mas foi lindo. Lembro que tinha o meu ideal de cara e ele preenchia todas as lacunas. Era o meu número, perfeito demais pra mim. De verdade. E eu tive medo. Muito medo. Primeiro pensei que seria sacaneado, então não levei aquela perfeição muito a sério. Depois, iludido que estava sendo sufocado, eu não me permiti entrar em uma relação como deveria (será?) ser... Não respondia mensagens e coisas do tipo. Resumindo, sim, eu era um completo babaca! Um babaca bem do tipo que tinha receio que ele fosse comigo. Um babaca com medo.

Algumas memórias são turvas demais para usar como exemplo, mas no meio do caminho foi decidido que seríamos amigos. Só amigos. Naquela época não tinha grandes amizades e as que estavam presentes em minha vida ainda não sabiam que eu era gay. Ou sabiam, mas não tinham ouvido de mim. Só possuíam bons olhos, ouvidos e um gaydar funcionando.

Mas eu acabei me apaixonado (hoje eu acho que idealizei uma paixão em alguém que sabia que não daria certo. Sabe auto-sabotagem? Pois é! Foi o que fiz naquela época) e decidi usar quem gostava de mim como confidente, do sentimento que estava destinado a não dar certo. Como não deu mesmo.

Não sei se pelo fato de ter conhecimento que minhas escolhas não eram as melhores e que estava fazendo alguém "sofrer", mas eu sabia que um dia isso voltaria contra mim. Já falei aqui algumas vezes e repito. Karma is a bitch. And I was a bitch...

E sim, me arrependo por isso. Acho que poderíamos ter dado certo e casado. Ou poderíamos ter dado certo, ficado um tempo juntos e nos separado. Ou poderia ter acabado em pouco tempo. O que me arrependo foi de não ter dado uma chance real pra gente. Pra ter existido um "nós" realmente. Fui um babaca e sei disso. E também sabia quando estava sendo. Algumas vezes até disse que sofreria no futuro pelo que estava fazendo ele passar... O lado feio do amor, sabe?

Às vezes me pergunto se gosto do adulto que me tornei. E não sei a resposta. Acho que essa versão de quem sou é boa. Meio que com o dom de fazer escolhas equivocadas, baseadas no calor da emoção, mas esse sou eu.

O eu diferente, aquele que fez a coisa certa e acreditou no primeiro amor aos 18 anos ao se assumir gay... Bem, esse é um eu corajoso pra caramba e que admiro de longe e visito às vezes. Gostaria de hoje ser ele? Sim! Mas talvez fosse preciso eu não ter sido lá atras pra me permitir ser hoje. Também é possível que não me torne esse "eu" nem agora e nem no futuro. Que no fim seja um amontoado de poderia ter sido, mas nunca de fato foi...

Sei que fui um babaca. Como sei que todos somos em algum momento da vida. Alguns são muitas vezes, inclusive. E continuarão sendo trocentas outras. O que muda realmente é que hoje não só sei disso, mas também assumo isso. Não tenho vergonha de dizer isso. Não tenho receio de sentir isso.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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