quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Divina Diva




Segunda-feira à tarde, na reprise de Tieta no Canal Viva, Ninete chegou a Santana do Agreste cercada de mistérios e expectativas. Todos na pequena e fofoqueira cidade queriam saber da “despachante” da protagonista, recém-chegada de São Paulo. Classuda, um pouco exuberante e até meio esnobe, Ninete causa. E ainda vai causar mais nos próximos capítulos, exibidos originalmente em 1989 na TV Globo.

Ironicamente, Ninete é a personagem de Rogéria. Poucas horas após o seu desembarque na reprise da novela, quem lhe deu vida partiu dessa para outra. No intervalo da programação, coincidentemente um comercial que está no ar há semanas passava um trecho do Vídeo Show em que Rogéria aparecia bradando: “Felicidade!”.

Rogéria nos deixou no fim da última segunda-feira. Uma das pioneiras no transformismo ou travestismo brasileiro, foi também a primeira figura que eu vi, ainda criança, como mulher sabendo que nasceu homem. Lembro-me de uma entrevista dela a Jô Soares na qual ela dizia que somente não aceitava que seu irmão a chamasse de Rogéria, apenas de Astolfo, seu nome de batismo. Dizia que ele era um dos poucos que a viam desnudada da persona que adotara.

Carregava o sobrenome piada-pronta Pinto e optou por não fazer a transição completa, com a mudança da genitália. Autointitulava-se “a travesti da família brasileira” e era relativamente avessa a movimentos LGBT, o que lhe rendeu algumas críticas no meio. Em entrevista a O Globo, explicou que não precisava de engajamento, pois ela seria o próprio engajamento e, graças a ela, havia o mínimo de visibilidade trans no Brasil.

Faz sentido. Se hoje temos Pabllo Vittar, Liniker, Johnny Hooker e outrxs fazendo muito mundo afora, derrubando preconceitos e explicitando outros ainda existentes, muito se deve a Rogéria e outras bandeirantes da causa. Pode ser que fosse uma travesti datada, que carregava valores antigos para determinadas coisas, mas muito à frente de seu tempo na época em que os obstáculos eram os dela e de algumas poucas. Ninguém precisa se preocupar com o rótulo de ser da “família brasileira” hoje em dia, mas ter conquistado esse espaço foi fundamental para quebrar o primeiro rótulo, o de que uma travesti não estaria incluída na família brasileira.

Causou no Brasil assim como Ninete causou no Agreste. Certamente vai seguir causando, tanto por sua figura, quanto por sua herança e suas herdeiras. Vá em paz com a certeza da missão cumprida.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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