sexta-feira, 29 de setembro de 2017

E Assim Fui Sendo Criança Para Sempre




Essa semana estava ensacando os doces de Cosme e Damião que todos os anos a minha avó distribui e fiquei divagando enquanto separava as balas, mariolas, geleias e bombons entre cada saquinho.  Por um momento, relembrei minha infância como se fossem projetados fotogramas envelhecidos, riscados e amarelados na minha mente, sujos pela memória e pela crueldade do tempo.

Quando criança, sempre morei em subúrbios e no dia de Cosme e Damião era muito comum o corre-corre das crianças atrás de doces.  A maratona começava cedo: eu e meus dois irmãos mais novos colocávamos as mochilas nas costas e íamos os três, de mãos dadas, atrás dos saquinhos.  Naquela época, praticamente todos os vizinhos faziam a distribuição.  Alguns eram mais caprichados, outros nem tanto.  Tinham uns que previamente entregavam uns cartões, que eram a senha para o passe-livre... Era quase uma área vip à glicose.  Os que davam doce “com cartão” quase sempre vinham acompanhados de brinquedos bacanas.

Havia um vizinho, que se não me engano, era dono de uma loja.  Todos os anos ele fazia uma big-festa no dia 27.  Cedinho, as crianças já se aglomeravam em frente sua casa e quase todo mundo saía de lá com bolas, bonecas, carrinhos e até bicicletas.  Bons tempos em que almoçávamos suspiros e pés-de-moleques e voltávamos para casa ao entardecer com as mochilas abarrotadas e equilibrando os brinquedos nos braços.  Minha mãe já nos aguardava com aquelas panelas imensas e, depois de tomarmos um bom banho, fazíamos uma espécie de catalogação do que havia sido “arrecadado”: balas e jujubas eram colocadas em um lado, doces de abóbora e cocadas em outro monte e marias-moles (que sempre odiei) em mais um outro.  Depois, arrumávamos tudo direitinho nas grandes panelas que serviam como despensas para quase um mês de guloseimas, que devorávamos após às refeições como sobremesa.

Com o passar do tempo, fomos crescendo, nos tornando adolescentes e aquela sombra de bigodinho na cara já era uma forma para alguns vizinhos barrarem a nossa entrada, outrora liberada.  “Você já ta grande demais!  Só criança pequena ganha!”, diziam alguns, me causando um desapontamento.  Alguns dos vizinhos, na camaradagem, davam aquele sorrisinho de canto de boca e liberavam por já sermos conhecidos.  “Cresci só no tamanho, mas continuo sendo criança!”, protestava, ao longo dos meus 14 anos. 

E assim fui sendo criança para sempre.

A minha avó, desde que “me conheço como gente”, sempre distribuiu doces.  Eu a ajudava a distribuir os saquinhos quando morávamos na Penha e os meninos da Vila Cruzeiro digladiavam-se com os bracinhos tentando chamar a nossa atenção por entre as grades do portão de ferro.  De vez em quando minha avó dava um sonoro esporro nos moleques que só faltavam socar a cara um do outro em busca dos doces.  “Se vocês ficarem brigando eu paro a distribuição agora mesmo!!!!”, dizia, aos berros, fazendo com que eles “ficassem pianinho”.  Os espertinhos sempre vinham com aquela marota “me dá mais um pro meu irmão pequeno???”. Ih, mas minha vó, esperta como ela só, nunca caía nessa não. 

Vovó sempre distribuiu doces no dia 26 de setembro, que é a data onde é comemorado o dia de São Cosme e Damião pela Igreja Católica.  Na história cristã, os gêmeos nasceram na Arábia por volta do ano 260 e foram estudar na Síria, se especializando nas ciências e medicina, quando começaram a tratar pacientes sem cobrar nada.  Na época em que o imperador Diocleciano iniciou a perseguição contra os cristãos, os dois, acusados de praticar feitiçaria, foram presos, torturados e condenados à morte.  Por conta do sincretismo religioso com os orixás ibejis no candomblé e umbanda (onde a cerimônia acontece dia 27 com a distribuição de bolos, balas e doces nos terreiros), a tradição popular vinculada às guloseimas prevaleceu e quase todo mundo festeja no dia 27 mesmo.

Atualmente, com o crescimento de outras religiões, principalmente as evangélicas, surgiu um impasse.  A cada ano que passa, minha avó leva mais tempo para distribuir os doces pois as crianças, provavelmente orientadas pelos pais, são proibidas de receber os  saquinhos, já que acreditam que a oferta está relacionada a uma oferenda aos orixás.  Eu acho engraçado, pois minha avó, por exemplo, nunca fez promessa nenhuma.  Ela distribui os doces porque gosta de ver no rostinho de cada criança a alegria delas.  Sempre foi assim, desde que (como já disse) “me conheço como gente”.

No meu tempo não tinha esse mimimi.  Se eu tivesse que entrar num terreiro pra ganhar doce, ia feliz da vida.  Não “tava nem aí”; e inclusive os distribuídos nos centros eram até mais gostosos, pois não eram industrializados.  Tinha “bolo de verdade”, cocada com côco mesmo e não só feita de açúcar e ainda me entupia de guaraná Tobi.  

Obviamente, aquele clima de festa nunca mais vai voltar.  A cada ano que passa, a tradição vai diminuindo.  Os doces de abóbora em formato de coração não tem a mesma graça; quase não encontramos mais o famoso cocô-de-rato e aquela melecada gostosa que nos fazia ficar com lombriga até a alma está sendo substituída por doces embalados, diet e sem glúten.  Estamos entrando na era de Cosme e Damião fitness...  Mas num clima de nostalgia, só tenho a agradecer por ter passado por aqueles momentos felizes em que eu e meus irmãos corríamos atrás daqueles saquinhos.  Abrir e descobrir o que tinha dentro de cada um sempre era uma surpresa que, infelizmente, não tem mais espaço nos dias atuais. 

Até hoje, a minha avó guarda o meu saquinho.  Aquele rostinho lisinho que foi sendo transformado por uma leve penugem e um bigodinho safado, hoje tem uma grande barba, mas ainda assim, por esses momentos que se perpetuam, fui sendo criança para sempre.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Pereira disse...

Minha infância tem muito da história que contou! Embora tímida, adorava me juntar a irmãos e primos para pegar doces!