sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Hoje é Dia de Rock, Bebê!




Nunca me esqueci desta data: 12 de janeiro de 1985, 7h da manhã. Levei uma surra bíblica da minha mãe quando voltei pra casa, com o sol na cara. Havia saído de casa na tarde do dia anterior dizendo que faria um trabalho do colégio (em plenas férias). Na verdade, tinha fugido, com a ajuda de uma amiga mais velha rumo à Barra da Tijuca para o primeiro dia de shows do Rock in Rio. Eu tinha acabado de fazer 15 anos. Idolatrava o Queen e curtia demais o Iron Maiden. Naquele dia, as duas bandas tocariam no festival, com o Whitesnake de quebra para quase 300 mil pessoas. Para abrir o espetáculo, Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Baby (que ainda era Consuelo) e Pepeu Gomes fariam as honras da casa.

Numa época onde ainda não existia celular, era impossível se comunicar. Sabia que levaria uma surra da minha mãe por ter inventado essa história esdrúxula, mas era uma oportunidade única de assistir s duas bandas que mais curtia naquele momento. Freddie Mercury era para mim uma espécie de Deus dos palcos. Tinha assistido algumas performances através de uns programas na tevê e o disco A night at the Opera, que eu ouvia sem parar na velha vitrola. O Iron tinha uma fama de satânico, ajudado pelas sinistras capas dos LPs, com o monstro-mascote Eddie. Lembro que uma vez comprei um pôster imenso em madeira na rodoviária de Caxias e coloquei na parede da minha cama. Meus pais detestavam aquilo.

Naquela edição, outra banda ficou muito conhecida: os inigualáveis B-52´s e seu estilo new-wave com aquelas perucas gigantes de Kate Pierson, Cyndy Wilson e o hilário Fred Schneider. Lembro bem do jeito peculiar do irmão de Cindy, o guitarrista Ricky Wilson, tocar seu instrumento. Meses depois, ele morreria em decorrência da AIDS. Em 1985, o Brasil estava entrando no processo de redemocratização. Três dias depois, o colégio eleitoral escolheu, através de eleição indireta, Tancredo Neves para a presidência da República. Na noite de 15 de janeiro, o Barão Vermelho terminou o show com a canção Pro dia nascer feliz, com Cazuza saltitando para uma multidão ensandecida que realmente acreditou que dias melhores viriam.

O Rock in Rio sempre nasceu com essa ideia de experiência. E se o mundo começasse agora? E se o mundo fosse nosso outra vez? 

De lá pra cá tiveram outras edições: em 1991, no Maracanã lotado com o Guns and Roses (e quando fui o único ser no estádio a deixar o show na metade e fui impedido de sair pela rampa), o pop rock australiano do INXS (com o saudoso Michael Hutchence), o peso do Faith no More destruindo tudo, Debbie Gibson debaixo de chuva, Information Society com playback e patins, e Lobão tomando vaia; em 2001, quando toquei a mão de Michael Stipe do REM, cantei parabéns com o épico show dos Foo Fighters e vi os peitos da Cássia Eller; em 2011, com o imperdível System of a Down e Motorhead, além do pop do Coldplay; em 2013, com os requebros de Beyoncée, o grunge do Alice in Chains e o exorcismo do Ghost; e em 2015, com o sensacional Royal Blood, a volta do Queen com Adam Lambert, o stoner rock do Queens of the Stone Age e o metal progressivo do Mastodon.

Ontem, após o cancelamento repentino do show de Lady Gaga, os fãs ficaram muito decepcionados. Também, pudera! A cantora americana era uma das atrações mais esperadas. Essas substituições às pressas já aconteceram outras vezes. No primeiro Rock in Rio, em 1985, o Whitesnake entrou no lugar do Def Leppard; na segunda edição, o cantor Billy Idol substituiu a lenda Robert Plant; e o próprio Maroon 5, que vai substituir Lady Gaga, também já substituiu Jay-Z em 2011.

Gaga é uma das artistas contemporâneas mais relevantes e seu talento é indiscutível. O cancelamento de um show em que ela era a headliner traz prejuízos não somente para a produção do festival como também para a própria artista, já que estamos falando aqui de cifras milionárias. E isso é muito impactante em termos de valores relacionados a patrocinadores e toda a logística do staff e equipamentos para um show desse porte.

Mas, como já dizia Freddie Mercury, “the show must go on”... o show não pode parar. Que o festival, ainda perdure por muitos e muitos anos. Que possamos ainda tomar surras dos pais por correr atrás dos ídolos, de pegar chuva, atolar na lama, se emocionar com os fogos de artifício após os shows e ter a experiência de que a vida está novamente recomeçando.

Leia Também:
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: