quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Não é Uma Questão de Cura




Pessoal, vamos parar com essa coisa de “não existe cura para quem não está doente”. Não é esse o discurso que precisamos nesse momento. Aos olhos de quem acha que somos doentes, é como um bêbado que fala que está ótimo e pega a chave do carro para dirigir. Não estaríamos nós em sã consciência para falarmos sobre o nosso suposto estado patológico. Não adianta.

Doeu muito fundo a liminar que libera a tal “cura gay”, com o pretexto de que seria censura não permitir que uma pessoa queira apoio e tratamento para não ser o que ela não quer ser. Retrocesso, ultraje, covardia. Avançamos muito nos últimos anos, embora ainda sejamos muito hostilizados e agredidos e até mortos (não custa lembrar que o Brasil é o país que mais mata LBGTs no mundo, mesmo diante daqueles em que homossexualidade é considerada crime). O golpe foi duro e precisamos fazer barulho, sim. Temos o Conselho Federal de Psicologia ao nosso lado e eles mesmos não ficarão quietos enquanto isso não se resolver. Não é uma guerra perdida, apenas uma batalha.

Mas a guerra não é especificamente contra a “cura gay”. Por isso, desculpem os que levantam a bandeira contra a cura, precisamos de mais efetividade no discurso. Os que são militantes a favor da cura não irão se converter; é o mesmo que falar com a parede. Lembra da metáfora do bêbado com a chave do carro na mão? O que precisamos batalhar não é para sermos aceitos, mas, sim, para sermos respeitados. Não precisamos convencer ninguém de que somos sãos, porém, que eles precisam conviver mesmo com aqueles que julgam doentes, como julgamos doentes (e criminosos) os homofóbicos, misóginos e preconceituosos. Eles existem, não deixarão de estar entre nós. 

Claro que educação, instrução e amor podem, sim, fazer a diferença. Mas o fazem no longo prazo e, não, no imediato. O que precisamos de imediato é proteção e cumprimento da Lei, o que, infelizmente, ainda não é uma realidade brasileira. Em países onde ela já existe, como Holanda e Uruguai, homofóbicos e LGBTs convivem com muito menos incidentes como no Brasil, pois sabem que têm que conviver, já que podem ser punidos. Concorde-se ou não com um dos lados, a regra é respeitar e coexistir. Assim como vegetarianos e carnívoros convivem. Assim como torcedores do Real Madrid e do Barcelona. Assim como quem gosta do Iron Maiden e quem gosta de Ivete Sangalo. 

Tem um ditado que diz que determinada coisa muito suis-generis é igual a jabuticaba, que só existe no Brasil. Um juiz se sobrepor a uma norma da Organização Mundial de Saúde (OMS) em uma república supostamente laica é meio que uma jabuticaba também. Mas tal como a jabuticaba, um dia cai do pé e apodrece. Precisamos apenas trabalhar para que a semente não germine o solo, já tão fértil de ideias retrógradas como a que vemos no Brasil e no Mundo atualmente.

Não precisamos de cura, eu sei. Porém, mais do que isso, temos que fazer todos saberem que precisamos de respeito aos nossos direitos. Ainda que fôssemos doentes.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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