sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O Bizarro Mundo de Santiago Nazarian





Desde molequinho, sempre gostei de literatura nacional, incentivado por uma professora que me presenteava com edições do Para Gostar de Ler, da Editora Ática. Aos dez anos, já devorava as obras de Paulo Mendes Campos, Cecília Meireles, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade, algo bem incomum para um pré-adolescente. Machado de Assis, por exemplo, sempre foi um dos meus autores favoritos. Apesar de não ter entendido Dom Casmurro de imediato, este clássico acabou sendo meu livro de cabeceira por muito tempo. Por isso, os escritores brasileiros estão incessantemente presentes na minha lista dos dez mais de todos os tempos.

Recentemente, em uma entrevista que concedi a uma rádio para divulgar meu primeiro livro, citei alguns autores nacionais como base de minha inspiração e o entrevistador percebeu meu entusiasmo enquanto falava das obras deles. Nos últimos anos, tenho consumido inúmeros livros de escritores brasileiros e alguns deles têm me surpreendido bastante como os ótimos Raphael Montes, João Paulo Cuenca, Daniel Galera e Santiago Nazarian. Todos os quatro estão em plena produção atual e o último que me referi, o Santiago, acabou de lançar o ótimo romance Neve Negra, que saiu pela Companhia das Letras. O livro já está, inclusive, com os direitos vendidos para a RT Features, que produziu o sensacional e assustador A Bruxa nos cinemas.

Nazarian sempre foi, entre os quatro, o que mais me fascinou. Apesar de muito jovem, sua vida sempre foi muito intensa. Já fez mochilão por diversos países, morou na Finlândia, é apaixonado por coelhos e pelo compositor húngaro Franz Liszt. Já teve profissões um tanto quanto peculiares e exóticas e outras, comuns. Antes de se tornar escritor, já trabalhou como barman em Londres (onde já serviu Boy George, Brian Molko e Kate Moss), foi colunista de moda (mesmo sem saber nada sobre o assunto), professor de inglês, vendedor em livrarias, redator publicitário, bartender de um clube de sexo nos Jardins, em SP, tecladista de banda de glam rock, artista performático de body art (inclusive os primeiros livros de Santiago tem algumas fotos de automutilações) e até redator de disque-sexo. Lembro-me bem dele contando essas histórias incomuns no Programa do Jô, que rapidamente fizeram-me procurar as suas obras pelas livrarias da cidade, quando me senti seduzido por elas.

O primeiro livro que li foi exatamente o que o alçou: o premiado Olívio (2003), com uma aura surreal, erótica, degradada e até irônica na construção de um personagem que, certamente foi baseado em suas próprias experiências de vida.

Neve Negra é o seu nono livro. Li em menos de dois dias e notei que faz uma espécie de trilogia com outros dois livros dele (Biofobia e Feriado de mim mesmo) no clima de suspense e thriller psicológico, definido pelo próprio autor como “pós-terror”. A trama de Neve Negra se passa em uma única noite na Serra Catarinense, quando um famoso artista plástico, após uma viagem, retorna para sua casa e estranhamente começa a nevar. A partir daí, situações insólitas começam a acontecer e o leitor é surpreendido pelo turbilhão de flashbacks em uma narrativa sensacional, que nos transpõe ao sinistro pesadelo em que a personagem está. Afinal, tudo aquilo que está acontecendo é real ou somente fruto da imaginação do artista plástico?

O que mais me chamou atenção no livro, foi o impacto global da narrativa e a proximidade com algumas obras de Nelson Rodrigues, que nem sei bem ao certo se Nazarian (claramente influenciado pela literatura de Oscar Wilde ou João Silvério Trevisan) é fã. Mas vi em Neve Negra elementos de Vestido de Noiva (na questão psicológica presente nos flashbacks oníricos) e, mais precisamente em Dorotéia (talvez a peça mais incompreendida do dramaturgo). Tanto em Dorotéia quanto em Neve Negra, podemos perceber que a ação se passa no plano do inconsciente, transitando entre o realismo e o surrealismo. Nas duas obras há uma alegoria sobre o delírio paranóico sobre a maternidade/paternidade.

Nelson Rodrigues traz uma filha morta-viva (Das Dores), “nascida” de cinco meses, como um anseio da personagem principal (D. Flavia) em ser mãe. No terceiro ato, Das Dores retorna simbolicamente ao útero de D. Flavia para que possa criar a sua própria personalidade, interrompida pelo desejo da matriarca. Santiago utiliza, no mesmo cenário delirante, um sentimento de culpa pela perda no acompanhamento da infância devido aos compromissos profissionais e a relação de dúvida quanto a paternidade de seu filho de sete anos, muitas vezes sendo representado como um pré-adolescente andrógino. Com maestria, o autor nos envolve, tal qual o enigma da provável traição de Capitu em Dom Casmurro, se havia ou não um desejo incestuoso latente entre pai e filho em Neve Negra.

Outra intersecção é referente à espécie de “maldição” familiar nas duas obras. Nelson Rodrigues trazia a fatalidade da náusea, herdada pelas gerações de mulheres da família na noite de núpcias. Santiago, além da questão homoerótica, apresenta a espera do pai com a possível anomalia do seu filho, uma espécie de “convulsão”: “A cada frango servido, esperava o osso da sorte a travar-lhe a garganta. Sempre que eu voltava de uma viagem, sempre que, de longe, esperava, temia, ansiava pela má notícia que acreditava ser inevitável recair sobre meu filho”.

Se você ainda não o conhece, tire um tempinho para ler um de seus livros. Sugiro que comece pelo incrível Mastigando humanos que, com um humor sarcástico sensacional, conta a história de um jacaré frustrado que vive nos esgotos de uma metrópole, revelando suas crises. Depois, se aventure pelas paranóias existenciais de seus outros romances. Sua obra é visceral e certamente te arrastará para uma viagem assombrosa e surpreendente sem volta, mas essencial.

Ah, e no próximo dia 6, de 17 às 19 horas, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Santiago vai estar participando do Café Literário na mesa Grandes Lançamentos juntamente com os escritores Heloisa Seixas e Joca Reiners Terron, que vão falar um pouco sobre seus lançamentos e em seguida, autografarão suas obras. É uma oportunidade de poder bater um papo com esse grande autor.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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