segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Inevitável Trem e Uma Reflexão Sobre a Vida, os Amores e a Nossa Finitude





Eu adoro teatro. Lembro de, quando bem mais novo e ainda morando no interior, do tanto que esse mundo me fascinava. Não era comum que peças fossem encenadas na minha cidade e, quando isso acontecia, normalmente era pelo esforço individual de algumas pessoas da região que apreciavam a experiência. E eu, todas as vezes, prestigiava as poucas peças que chegavam até nós. 

Mas o tempo passou, eu sai de Smallville e desbravei a vida na cidade grande. Lembro que quando me mudei para o Rio, eu fazia questão de pelo menos uma vez ao mês ir ao teatro e conferir o que estava em cartaz. Entretanto, com a rotina e os afazeres, fui deixando esse hábito um pouco de lado até que, atualmente, eu vou muito esporadicamente ao teatro, o que considero um lapso que preciso contornar.

Assim, depois de um longo inverno longe das plateias, fui assistir na última terça-feira ao espetáculo O Inevitável Trem, estrelado por Carla Nagel e Giuseppe Oristanio, atualmente em cartaz no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema. E, confesso que fui sem expectativas. Eu não sabia muito sobre a peça, apenas que se tratava de um  último jantar entre um casal que repassava sua história depois de uma separação. E foi assim que me permiti mergulhar em uma verdadeira reflexão sobre relações, amores, vida e até mesmo sobre a nossa finitude.

Carla Nagel e Giuseppe Oristanio vivem o casal Vitória e Jean Paul, uma fotógrafa e um chef de cozinha. No encontro que presenciamos, Jean Paul prepara um último jantar para Vitória e ambos decidem ter uma última conversa, botando em pratos limpos a própria relação que, aparentemente, chegou ao fim. Mas o que poderia ser apenas mais uma DR na frente do público, acaba sendo uma verdadeira experiência sensorial, já que Giuseppe realmente está cozinhando desde antes do início da peça, envolvendo a plateia com odores maravilhosos da comida sendo preparada, nos fazendo salivar.

Por falar em Carla Nagel e Giuseppe Oristanio, os dois se entregam de corpo e alma a seus personagens. Se há uma palavra para descrever o que sentimos ao assistir à conversa de Vitória e Jean Paul é empatia. Eu mesmo me lembrei de algumas relações que tive ao observar a conversa dos personagens, suas intimidades, o apogeu e o naufrágio de uma relação que começou tão bela e promissora. E quando uma obra de arte consegue fazer o seu público se sentir abraçado e emocionado, entrando em uma verdadeira reflexão sobre a própria vida, acredito que ela esteja cumprindo o seu papel.

Ainda sobre a experiência sensorial apresentada na peça, acabamos surpreendidos por estar praticamente dentro daquela história. Como o Teatro Cândido Mendes é pequeno e em forma de arena, o público está ali, mergulhado naquela DR, com os atores a um esticar de braço e mãos. E, para fazer da peça ainda mais real, em determinado momento, além do cheiro que toma conta do teatro, o personagem Jean Paul, vivido por Giuseppe, serve alguns felizardos com uma generosa porção do prato que está preparando. Eu, por um desses acasos do destino, fui um dos escolhidos na sessão que assisti e degustei um delicioso farfalle ao pesto, que amei. Meu amigo Philippo Almeida, que me acompanhou na sessão, foi o escolhido pela personagem Vitória, de Carla Nagel, que dividiu sua porção de bruschettas com ele, que me garantiu estar uma delícia. É o teatro levando o espectador a viver a mesma experiência que os personagens estão experimentando, de maneira simples e marcante.

Como se a história já não nos envolvesse o suficiente, em seu ato final somos levados a experimentar emoções para as quais não estávamos preparados até aquele momento. Sem dar nenhum spoiler, posso dizer que saí da peça com olhos marejados e vi várias pessoas chorando copiosamente enquanto os atores eram aplaudidos, incluindo o meu amigo Philippo, que ganhou até um abraço de consolo de Carla Nagel, uma atriz linda e fofa.

Em tempos tão difíceis como os que estamos vivendo, encontrar uma diversão escapista e reflexiva é um achado. E por isso mesmo eu fiz questão de compartilhar e indicar a minha experiência com O Inevitável Trem com vocês. Assistam, vale muito a pena!

Serviço:
O Inevitável Trem, com Carla Nagel e Giuseppe Oristânio
Texto e Direção: Pedro Jones
Onde: Teatro Cândido Mendes - Rua Joana Angélica, 63, Ipanema
Quando: de Terça a Quinta, até 26/10/2017
Quanto: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia)

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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