quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Quinze Dias, de Vitor Martins





Crescer sendo gordo é horrível. Não por culpa da criança que é gorda, mas por conta dos outros. Os coleguinhas do colégio, por exemplo, acham normal esquecer que você possui um nome e criam os mais diversos apelidos (todos ligados ao formato do seu corpo, é bom lembrar). E tudo isso para te chamarem da maneira "mais engraçada/constrangedora" na frente de estranhos. Pessoas que não sabem se você se importa ou não de ser chamado de maneira tão... Ridícula pelo amiguinho..

Mas o que é ruim sempre pode piorar. Ainda mais se o gordo em questão não souber fazer piadas ou ser o engraçadinho da turma. Já é gordo e, ainda por cima, sem "graça"? Aí já é sacanagem com os outros e com o pobre gordo, que será, novamente, o sacaneado pela sala inteira por não ser "humorista". 

Não se engane. Ser gordo, quando ainda não se sabe muito bem quem somos como pessoa, é complexo. Sempre pelos outros. Porque toda critica que alguém que é/está acima do peso se faz, acontece por conta dos olhos dos outros. Dos pensamentos dos outros, que se incomodam e falam seus inúmeros conselhos estéticos. 

O mais engraçado (juro que não farei piada nenhuma, isso é só uma observação) é que só fui começar a pensar como me sentia ao ser adolescente acima do peso enquanto lia Quinze Dias, primeiro livro de Vitor Martins pela editora Globo Alt. 

Felipe, o protagonista de Quinze Dias, é gordo, assim como eu fui na idade que ele tem no livro. E ele não gosta em nada do próprio corpo. Não posso dizer que odiava o meu naquela época, mas não mostrava pra ninguém. Era inseguro (sou até hoje, assumo) e ir para praia, tomar banho na cachoeira com outras pessoas ou pegar uma piscina era tarefa plenamente impossível! Assim como é para Felipe se imaginar em situações assim, com o corpo dele sendo observado por estranhos ou conhecidos. 

Se isso não fosse o bastante, Felipe precisa lidar com bullying dos colegas de classe. E isso, meus leitores, foi um inferno que também vivi em minha vida. Ganhar apelido que odiamos, levar empurrões no corredor e ainda "seguir com o baile" é horrível, doloroso e muito comum, infelizmente. Eu mesmo não consigo lembrar quantas vezes chorei no banheiro do colégio após uma sessão de ofensas. Fossem elas físicas ou psicológicas.

Mas se você acha que Felipe não tem outros conflitos, preciso dizer que você não teve adolescência. É bem obvio que mesmo não tendo nenhuma autoestima, Felipe tem um crush (quem não tem aos 17 anos?) e ele se chama Caio. E para melhorar ainda mais a história os dois moram no mesmo prédio. E nas férias do meio do ano Felipe recebe uma surpresa: Caio vai passar quinze dias em sua casa. Dormindo no mesmo quarto. Com essa informação, Felipe congela e não consegue pensar em mais nada. Afinal, o que fazer quando se é gordo, não gosta do próprio corpo e seu crush impossível acaba caindo, sem paraquedas, na cama ao lado da sua? Sinceramente? Não faço ideia do que eu faria. 

Caio, ao contrário de Felipe, não possui tantas inseguranças com o próprio corpo. Na verdade, nenhuma. Ele é lindo (segundo o olhar de Felipe, bom deixar isso bem claro). Os dois na verdade até eram amiguinhos de infância, mas a vida e os complexos fisicos de Felipe acabaram por afastar os meninos. Agora aos 17 anos eles são dois estranhos que precisam achar a melhor maneira de conviver por 15 dias no mesmo apartamento e dividindo o mesmo quarto. 

E nesse livro de estreia, Vitor Martins resolve mostrar que todas as pessoas lutam para se aceitar e serem aceitas. Até mesmo Caio, que fisicamente não apresenta questões complexas com o próprio corpo, precisa passar por cima também de bullying de colegas de colégio e uma superproteção da mãe, por ser gay. Na realidade, a mãe de Caio não cogita nem essa possibilidade. E isso cria inúmeros problemas familiares. 

Dessa maneira, Caio e Felipe vão descobrindo que a pessoa que você menos desconfia também passa por problemas e precisa de ajuda. Alguém que escute sem julgar e, como amigo, aconselhe. A jornada dos dois meninos é tão singela e poética. Quinze Dias é do tipo de livro que aquece o coração e você sente vontade de ver o filme na Sessão da Tarde. 

De maneira simples e direta, Vitor consegue tocar nas feridas individuais de cada leitor e faz com que a gente embarque em uma terapia coletiva tendo o personagem principal como um guia. Recomendo muito essa leitura.  

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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