quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sobre Ser Macho





Estava eu caminhando no centro do Rio, próximo à Estação Carioca, chegando ao escritório da minha empresa pela manhã, quando fui abordado por um rapaz. Passado o sobressalto de ver que não era nenhuma ação criminosa (tristemente, temos vivido tempos em que não há hora nem local para a violência, e essa área da cidade já é um local de muito assalto), parei para ouvir o que ele tinha a dizer. Estava todo cheio de dedos:
- E aí, cara. Poxa, queria te fazer uma pergunta. Não me leva a mal, mas é que eu tô procurando uma mochila tipo essa sua há algum tempo. Onde você comprou?
Após revelar que havia sido na Renner, para o espanto dele, ele prosseguiu:
- Pois é, ela é grande e social, dá para ir trabalhar e levar as coisas da academia. Mas não estava encontrando. Mulher é que costuma se falar mais para essas coisas, a gente acaba não sabendo.
Os motivos que ele elencou para querer uma mochila como a minha (na verdade, é uma bolsa de couro sintético bem trambolhuda, mas elegante) foram exatamente os que me levaram a comprá-la. Mas os motivos que o fizeram ter tanta vergonha em me abordar (e ainda justificar o ato como algo “feminino”) foi o mesmo que rege tantos dos comportamentos humanos há séculos, no nosso país e mundo afora: essa tal “macheza”.

A masculinidade expressa em atos, do que supostamente é atitude de macho ou não, é algo que persegue a nós, homens, desde antes do nosso nascimento. Geralmente no diagnóstico de que o bebê tem saco e pinto, já se criam inúmeras expectativas sobre o que ele pode vir a ser. Um bem-sucedido pai de família, mas não sem antes ser um implacável pegador, bom bebedor, craque no futebol. Como se um órgão sexual pudesse definir comportamentos e personalidades.

Lembro-me de quando eu era adolescente ter um embate com um tio paterno meu, bem mais velho que meu pai, que me questionou do fato de eu não montar cavalos. Eu já havia montado antes, mas não gostava e não fazia questão de repetir. Para ele, era um ato de macheza. Levantou a suspeita da minha sexualidade. Eu, nos meus 15 anos, disse a ele que teria várias outras formas de ser homem que não montando em um cavalo – e, vejam, mesmo não sabendo da minha orientação sexual ainda, não comparava homem a hetero. A conversa não foi amistosa. O tio foi criado no agreste da Paraíba, morava ainda numa sociedade extremamente paternalista e preconceituosa do Nordeste. Busquei relevar depois.

Não é fácil ser homem; digo naquilo que se é esperado e cobrado de cada um. O machismo não fere somente as mulheres, mas os homens também, que, mesmo involuntariamente, acabam agindo muitas das vezes contra as suas essências simplesmente para corresponder a uma expectativa. Agridem sem saber por quê; xingam simplesmente porque é assim que macho faz; dificilmente se desarmam e demonstram aquilo que carregam em suas personalidades. É como se toda aquela sensibilidade infantil tivesse que ser abandonada e relegada a ser um passado dissociado, como se a macheza fosse um rito de passagem sem volta.

Sabemos que não mudaremos esses comportamentos de uma hora para a outra. E muito dificilmente isso será modificado nas gerações que mais viveram dentro desses valores do que em outros, que começam a ganhar mais voz e iluminação. Mas debater essa tal macheza é importante para vermos o quanto deixamos de sermos nós para sermos aquilo que esperam de nós. Como alguém que não pergunta da mochila do outro, por exemplo.

Encerro a coluna com a música Guerreiro Menino (Um homem também chora) de Gonzaguinha, que também foi mencionada no programa Amor & Sexo, num episódio sobre masculinidade. Nunca é demais lembrar que a macheza é algo construída e não inerente ao gênero:



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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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