terça-feira, 19 de setembro de 2017

Tempo, Tempo, Tempo, Tempo





Barra Mansa, 20 de Abril de 2006.
Colégio Luiz Gonzaga de Mattos, Santa Rosa
Turma 30002 - Sala 06
09:07h

Há dez anos, a professora Patrícia, de Química, pediu pra que escrevêssemos uma carta com o que desejávamos para o nosso futuro, e o que esperávamos que fosse acontecer. O combinado era que ela jamais abriria as cartas, e que só nos entregaria dez anos depois.

Ano passado rolou um encontro com os alunos para que recebessem e lessem suas respectivas cartas. Eu não fui porque tinha acabado de conseguir um emprego aqui em Florianópolis, e depois de muitos contratempos, minha carta chegou semana passada. O conteúdo? BEM... Eu posso dizer que fiquei um tanto quanto chocado.

Pra começar, eu tinha 19 anos, uma letra horrível (não que tenha melhorado muito) e, aparentemente, eu tinha feito muita merda e magoado um bocado de gente, mas também tinha ajudado outras pessoas, tudo porque a carta começava dizendo que eu tinha feito muita merda naquele ano, que tinha magoado algumas pessoas e ajudado outras, então... E também tive muitas batalhas travadas comigo mesmo, bem Maria do Bairro, bem dramático. Pelo menos eu me diverti muito, então nem tudo foi um completo desastre.

Meus desejos para dez anos no futuro eram conseguir meus bacharelados em Comunicação Social (de onde foi que eu tirei isso?) e Música (pelo menos ISSO se manteve vivo ao longo dos anos).

O que me deixou um tanto quanto esquisito foi o fato de que, em 2006, eu ainda lutava contra o fato de ser gay. Eu sempre fui gay, desde os 13, vocês sabem, mas depois que me aceitei pra mim mesmo, lá por volta dos meus 25/26 anos, eu simplesmente toquei a vida como se sempre tivesse me aceitado e entendido homossexual, esquecendo a guerra interna e solitária que era ser um jovem homossexual dentro de uma igreja onde todo mundo fazia questão de te lembrar disso, e da forma menos gentil possível.

Em 2006 eu desejei encontrar a mulher da minha vida e ter dois filhos homens (Filhos? Sério?), mesmo não sentindo absolutamente nada por mulher alguma, mesmo sabendo que eu jamais sentiria algo por mulher alguma, nem bêbado. Apenas com essa linha eu fui levado numa viagem no tempo, quando eu lutava pra andar na linha da igreja, evitando festas de amigos, forçando pra sentir algum tipo de prazer com pornô heterossexual e me sentindo horrível por não querer nada com aquilo.

Com 19 anos eu desejei ganhar um bom dinheiro (algumas coisas não mudam mesmo, né?) pra dar pra minha família, incluindo meus pais, e poder ensinar aos meus filhos (dois?? Sério mesmo??) o amor a Deus, à Música, aos livros, à comida (sempre!), às pessoas pobres e ricas, negras e brancas, novas e idosas, terminando a carta com: "O resto acontecerá porque tem que ser!".

No final da carta eu deixo um registro dos meus amigos, os nomes das pessoas que me eram muito queridas na época e, felizmente, Vinicius e Andresa continuam sendo, mesmo com cada um num canto. Citei também minha irmã, e me lembrei de como éramos próximos, não que hoje não sejamos, mas a vida adulta suga tanto a gente que fica difícil manter um ritmo de convivência frequente.

Ao ler essa carta, e ao pensar nela enquanto escrevo esse texto, foi/é impossível não pensar no quanto eu mudei. Foram dez anos! Dez longos anos, e tanta coisa aconteceu, eu aprendi tanto, as pessoas ao meu redor mudaram tanto, umas da água pro vinho até. Como diria Sidney Sheldon, nada dura para sempre. Fico feliz e assustado com as mudanças que sofri nesses anos, porque imagina eu hetero, gente? Com DOIS FILHOS?! 

Brincadeiras à parte, que bom que as mudanças existem, que eu me permiti mudar nesses dias, meses, anos, mas não deixei que o melhor de mim morresse. Continuo músico, com minhas crenças intactas, e com o respeito a todos, como minha mãe me ensinou desde sempre.E agora, com 30 anos, em 2017, como será que eu vou estar em 2027? Será que vou durar até lá? Será que estarei em Florianópolis? No Brasil? Com Rafael? Hetero, com DOIS FILHOS? Músico?

E você, como era há dez anos? Se tornou o que esperava? Como se imagina daqui há dez anos? Será que nos encontraremos por aqui?

Leia Também:
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
FacebookTwitter

Um comentário:

Paulo Roberto Ferreira Junior disse...

Me identifiquei TOTAL, inclusive com a parte do casamento e dos dois filhos (DOIS FILHOS???). kkkk' Que bom que as coisas mudam... Saudades Glauco! S2