sábado, 9 de setembro de 2017

Troca-Troca: Amor Livre





No feriadão da Independência, o Barba Feita veio falar de liberdade. Mas não é de qualquer liberdade. Nosso Troca-Troca desse fim de semana esquentou e resolveu tratar do amor livre. Amor, por si só, já é algo pelo qual todo mundo se interessa. E quando esse adjetivo tão simples e positivo se junta e traz a concepção de uma coisa completamente nova?

Modernidade? Safadeza? Caminho natural? Amor livre, para você, é sinônimo de poligamia? Poliamor? Ou putaria mesmo? Os meninos do Barba Feita parece que não vieram explicar, mas, diferentemente de Chacrinha (que veio para confundir), eles lançam luz sobre um assunto ainda meio tabu na nossa sociedade.

Será que amor livre é quase um pleonasmo, como nos diz o Paulo Henrique Brazão? Ou uma quase filosofia-de-vida, como ressaltou o Marcos Araújo?

Será que todos têm uma visão simpática dessa liberdade? Vamos ao nosso Troca-Troca!


Leandro Faria

A religião fode com a gente. E não, isso não é no sentido gostoso da palavra. E eu, criado dentro dos preceitos de uma instituição religiosa, carreguei em mim durante anos aquilo que nos foi ensinado desde sempre: amor é aquele entre um único homem e uma mulher, que vão se encontrar, se completar e ficar juntos para o resto de suas vidas. Tolinho eu, não é mesmo?

Mas a gente cresce, evolui e tem a oportunidade de encarar o mundo real. E aprende que não, não somos a metade de ninguém e, sinceramente, ainda bem que não é assim. Deus me livre (olha ele aí) eu deixar de ser inteiro para me tornar parte de uma outra pessoa, com direito às suas expectativas e cobranças universais. Não mesmo, meus queridos, nós somos indivíduos, únicos, inteiros, prontos para conhecermos outras pessoas também assim.

E pra mim, você só pode ser inteiro se você for livre e tiver livre arbítrio. Para decidir ficar com uma ou diversas pessoas. Para encarar um casamento monogâmico, aberto ou até mesmo viver um poliamor. Somos responsáveis pelos nossos sentimentos e pela forma que podemos vivê-los. 

Se eu viveria um amor livre? Eu prefiro viver o amor, seja ele em qual contexto estiver inserido. Eu posso amar uma pessoa e só querer me relacionar sexualmente com ela pelo resto da vida (mas, duvido); eu posso amar alguém verdadeiramente, transar com outras e continuar nutrindo esse sentimento maravilhoso por esse alguém; eu posso gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo e, se isso for bom para todos, por que não experimentar uma relação não convencional? Quem se define, se limita. E quem se limita, não vive.

Já disse algumas vezes aqui no Barba Feita: relacionamentos são contratos, cujas regras são decididas entre os envolvidos. E é assim que a banda toca e que a vida segue. Eu prefiro a honestidade (que pode ser brutal) e a lealdade a uma falsa sensação de fidelidade. 

Glauco Damasceno

Eu que sempre fui do time "Só fico com uma pessoa só pelo resto da vida", e que julgava secretamente quem aderia ao amor livre, poliamor, etc. Entretanto, hoje em dia me encontro completamente tranquilo e aberto ao assunto, inclusive. 

A gente cresce com aquele roteiro de cinema colocado diante de nós a cada momento, e muitos acham que é só esse que é o certo, que só funciona se for assim: A pessoa é sua, somente sua. Não pode olhar pro lado, não pode fazer amizade com pessoas de outro sexo (em caso de heterossexuais), a menos que sejam pessoas comprometidas, senão são pessoas vadias, que só querem saber de farra.

Mas uma coisa que me atingiu como um trem no trilho, foi que ninguém é propriedade. Uma pessoa não é uma propriedade de ninguém além dela mesma. O que mata na geração amor de cinema é isso, achar que deve-se amar uma única pessoa pelo resto de sua vida, assim como os pinguins, só que não é bem assim. A gente não ama apenas uma pessoa, a gente ama várias, só que de formas diferentes. Amamos amigos, amamos parentes, amamos animais, amamos coisas, filmes, livros, sons, cheiros... o amor está em todo lugar, inclusive na crueldade. Há quem ame ser cruel, vil, uma pessoa horrível. 

Nesse mundo, ninguém é de ninguém. Pode reparar, o marido tá sempre checando a bunda da mulher alheia, desejando, querendo ela pra si; a mulher tá sempre suspirando por um ator, pensando no que faria se fosse solteira, se ele lhe desse uma chance. É assim no mundo hétero, é assim no mundo gay, é assim em todo lugar, independente de etnia, credo, localização geográfica. As pessoas só escolhem não externar esse sentimento, esse desejo, e preferem trair, enganar e mentir.


Amor livre. Duas palavras juntas que, na verdade, são quase um pleonasmo. Já nos ensinou A Bela e a Fera: quem ama, deixa o outro livre. Amor não foi feito para aprisionar e já falei sobre isso aqui no Barba Feita algumas vezes. Infelizmente, mitos sobre relacionamentos criados milênios atrás ainda assombram a nossa sociedade ocidental. Regidos, inclusive, por uma parcela religiosa que sequer poderia... se relacionar afetivamente! E leva a acharem que o amor percorre caminhos obscuros ou até mesmo doentios.

Pode parecer um contrassenso acreditar ao mesmo tempo em um casamento mais convencional e no amor livre. Mas é como acreditar que Deus existe e, ainda assim, aceitar a teoria do Big Bang e do evolucionismo: uma coisa não concorre com a outra. Porque amor livre não necessariamente significa promiscuidade ou mesmo um relacionamento sem regras. 

Amor é libertação e, se houver verdade, não há porque temer. Já dizia Jesus: “conheça a verdade e ela vos libertará”. Aí começa o amor próprio, pois passamos a nos conhecer a nós mesmos, que é a base para todos os tipos de amores. Quando existe um sentimento consolidado, um companheirismo calcado na lealdade e (mais uma vez) na verdade, fica mais fácil enxergar que não existem amarras.

Há pouco tempo, li uma matéria linda no jornal O Globo sobre a oficialização da primeira união entre três pessoas do mesmo sexo na Colômbia. Eles chegaram a ser quatro, mas um deles faleceu de câncer e os três remanescentes conseguiram a união. A matéria terminava com o seguinte trecho, de um dos noivos (Manuel), extremamente emblemático:

"Questionado se acredita que alguém pode amar mais de uma pessoa, Manuel foi direto:
— O estranho é dizer que alguém só pode amar uma pessoa."


Silvestre Mendes

Amar não é um sentimento simples, de só gostar e pronto. Tudo resolvido. Amar envolve inúmeras regras, vários "quereres em comum" e muita sorte. Mas no manual que vamos recebendo desde que nos entendemos por gente, a regra é bem clara: Gostar de alguém envolve só você e a outra pessoa. Mais alguém nessa equação é traição. É errado.

Não sei se sou o melhor para falar sobre esse assunto. Mais sofri por amor do que fui realizado. É, que merda! Mas vejo que boa parte do que me fez infeliz até hoje foram essas benditas "regras" que a sociedade embutiu em mim. Que a Disney fez com que eu acreditasse desde que me entendia por gente e achava que torcer para os vilões nas histórias era o errado. Nem todo mundo por quem a gente se apaixona é o príncipe encantado! É muitas vezes nem nós somos o príncipe encantado da outra pessoa. Temos defeitos. Um monte deles e antes de apontar o dedo pro parceiro, fazer uma auto análise pode ser de grande ajuda.

Hoje em dia é muito mais provável que uma relação aberta funcione bem melhor do que aquela boa e velha relação monogâmica. Queremos novidades a todo o momento. Seja com séries, livros, amigos e trabalhos. O que acaba sendo o "de sempre" nos cansa. Vejo que uma relação que envolve três ou mais pessoas podem ser mais duradouras. E quando digo isso não estou querendo afirmar que para dar certo essa será a nova regra para todos os casais, muito pelo contrário. Antes de mais nada precisamos perder o sentimento de posse! A única coisa que cada um de nós possui é nós mesmos! Iniciar uma relação com alguém não te faz "dono" daquela pessoa. O que podemos desejar é que exista reciprocidade e respeito! De resto... É uma construção de relação que precisa ser feito com as pessoas envolvidas.

Talvez, só talvez, o convencional não seja uma regra tão exata e maravilhosa assim. E se permitir amar, sem uma regra exata de quantas pessoas precisam estar nessa relação, seja o que você esteja precisando.


Quando a gente começa a discutir sobre “amor livre”, a maioria das pessoas já torce o nariz, dizendo que é um troço “modernoso demais”. Mas o principal ponto do “amor livre” é exatamente essa quase filosofia-de-vida, que rejeita o casamento e que crê no amor sem posse ou controle. Inicialmente, o movimento nem defendia essa questão de multiplicidade de parceiros sexuais, mas sim, às arbitrariedades das instituições sociais, como o Estado ou a Igreja. Apesar desse movimento existir há muito tempo, ele sobreviveu ao radicalismo da era vitoriana, cheia de preconceitos, repulsa e puritanismo. Talvez por isso, chegou aos dias atuais com a imagem relacionada à promiscuidade. 

Por isso sempre é tão difícil assumir as suas vertentes, seja no “relacionamento aberto”, ou no “poliamor”. Para a sociedade monogâmico-burguesa-tradicionalista, sempre vai ser coisa de “gente doente que gosta de uma safadeza”. Por essa razão, é importante debatermos isso... No relacionamento aberto, o casal acredita que o desejo por outros pode existir e não deve ser sufocado dentro das normas sociais como a do casamento, que classifica a infidelidade, se “alguém pula a cerca”. Há aqui, uma combinação muito baseada na confiança e honestidade, já que o sentimento não pode ser quebrado. Ou seja, você pode extravasar o desejo sexual, mas o coração não pode ser mexido. Já no poliamor, os sentimentos são compartilhados. Há o sexo e o sentimento caminhando juntos entre vários parceiros. 

No amor livre, o que se discute é, principalmente, a liberdade individual, mesmo sendo monogâmica. Independentemente das terminologias, o importante é que sempre haja o diálogo, pois o combinado nunca sai caro. Não podemos idealizar nomenclaturas para as possíveis soluções dos problemas nos relacionamentos. Se pensarmos dessa forma, sempre será uma grande armadilha, pois como dizia a letra de Belchior, imortalizada pela grande Elis, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, lutando o tempo inteiro contra modelos carregados de opressão. O amor livre é importante sim, mas precisa ser realmente livre para ambas as partes.

Leia Também:


Nenhum comentário: