sábado, 30 de setembro de 2017

Troca-Troca: A Bissexualidade e Suas Questões





Bissexuais: eles estão entre nós, sim. E talvez mais incompreendidos do que os gays. Há quem diga que todos nascemos bissexuais e acabamos indo por preferências baseadas em vivências ao longo da vida; há também os que digam que o mundo um dia será de bissexuais; há quem ache que é somente uma transição da heterossexualidade para a homossexualidade. A nossa velha necessidade de rotular e colocar a humanidade em caixinhas nos faz ter muitas ideias sobre os bissexuais, mesmo não nos considerando um deles.

Fato é: o maravilhoso mundo da bissexualidade poderia ser para muitos, mas é para poucos. Porém, o que te torna bissexual? Uma pessoa que se considera hetero beijar uma pessoa do mesmo sexo? Um gay transar com uma mulher ou uma lésbica com um homem? Estamos todos nós deixando de aproveitar muito mais possibilidades no sexo e no afeto, ou realmente são poucos os que vão gostar de pinto e ppk

Isso, claro, não poderia ser nada mais, nada menos, que um assunto pro nosso Troca-Troca da semana (curiosamente, no mês em que é comemorado o Dia da Visibilidade Bissexual):

Leandro Faria: Falar sobre a bissexualidade é falar sobre o desconhecido. É como um hetero falar sobre um gay ou um gay emitir opiniões sobre a heterossexualidade. Mas, doutores em tudo que somos, acabamos proferindo nossas verdades, muitas vezes sem qualquer embasamento, baseados apenas em nossas crenças e certezas.

Eu, durante muito tempo, não acreditei em bissexualidade. Jurava pra mim mesmo que bissexual era o gay que não tinha coragem de assumir para si mesmo a sua sexualidade e a mascarava ficando com mulheres. Mas, a vida ensina a gente a não julgar o outro pela nossa própria régua e eu conheci um menino certa vez que, ao conviver comigo, me convenceu (como se ele precisasse) da sua bissexualidade.

Somos idiotas, essa é a verdade. Precisamos de rótulos e definições que, para que servem exatamente? Nem tudo é preto ou branco, 8 ou 80. Entre um extremo e outro existem mil tons (de cinza ou das cores do arco-íris) que escapam ao nosso entendimento. Se eu gosto de homem, de mulher ou de ambos, a quem isso deveria interessar além de a mim mesmo? Por que julgar o que não se entende?

No fim das contas, eu acho que perdemos nós em querer nos limitarmos. Ou limitar o outro. Se você gosta só de meninos ou de meninas, ok, beleza, é a sua vida. Mas, confessemos: rola uma certa invejinha de quem pode se interessar pelos dois gêneros e se divertir duplamente não é mesmo? Eu confesso: queria! 

Paulo Henrique Brazão: Curioso que logo após escrever um texto sobre Cura Gay aqui no Barba Feita, uma amiga minha veio falar da sua bissexualidade. Falou o quanto foi difícil ela mesma compreender que era possível sentir atração por homens e mulheres. E o quanto tem dificuldade de compreensão em casa, pois a própria família interpreta como mera safadeza. Talvez se ela fosse lésbica, seria mais fácil. 

Eu não sou bissexual. Cheguei a pensar na hipótese muito no início da descoberta da minha sexualidade, talvez por uma questão interna minha de aceitação. Não sinto atração pelo sexo oposto, mas não vejo problema algum caso um dia acontecesse algo com uma mulher. Não me sentiria bissexual por isso, a menos que se tornasse uma tônica. Assim como o episódio isolado de um homem transar com outro não o torna gay (a menos que ele de fato sinta uma atração constante por isso), um gay ou uma lésbica ter um beijo ou transar com alguém do sexo oposto não diz que sejam bissexuais.

Como bem ouvi muitos anos atrás de uma amiga, sexualidade não se trata de pênis e vagina, mas, sim, de pele. Isso, sim, faz a diferença: como nos sentimos com outra pessoa e o que desejamos. Experimentar faz bem para quem quer, mas não transforma ninguém que não deseja algo de fato.

Silvestre Mendes: Me acho uma farsa escrevendo sobre bissexualidade.

Já fiz sexo com mulher, mas nunca me considerei bissexual. Sabia muito bem do que gostava, mas rolou... E não foi ruim.

Então prefiro ficar calado, já que não teria muito o que acrescentar no assunto.

Marcos Araújo: Quando eu ainda estudava jornalismo (olha que isso tem tempo, viu?) tive um professor que profetizou: “Daqui uns poucos anos, o comportamento mundial será bissexual e ninguém se importará com isso. O ser humano, essencialmente é bi. Só fazemos determinadas escolhas sociais com o tempo”. Lembro que tal comentário, à época, causou um certo burburinho entre os alunos, que além das risadinhas jocosas, proferiram observações machistas. Os estudos freudianos apresentados pelo professor viraram motivo de chacota. 

Semanas depois, um dos alunos que fez comentários intolerantes sobre o assunto na sala de aula foi pego no reservado do banheiro da universidade com outro cara, fazendo vocês bem sabem o quê. O que mais chamou atenção de quem soube daquela história (em faculdade pequena todo mundo acaba sabendo de tudo, né...) não foi o fato dele ser sido surpreendido com outro rapaz, mas sim as observações de pessoas chocadas por ele ser noivo de uma garota. 

Mesmo com todo o preconceito que os homossexuais enfrentaram e ainda enfrentam, mesmo em uma sociedade mais “cabeça aberta”, ser bissexual ainda parece estar muito presente em uma linha à espreita. É quase que como um filme expressionista, onde os atores se escondiam atrás de sua própria sombra, pintada nas paredes. Atualmente, grande parte de quem se declara homossexual vai lá e diz que se relaciona mesmo com outra pessoa do mesmo sexo, ponto final e ninguém tem nada a ver com isso. Além disso, a mídia felizmente está abrindo uma discussão bem interessante com a transexualidade, mas ainda há um abismo imenso e cheio de conflitos em relação à questão bissexual apresentados no contexto social. 

David Bowie se declarou bissexual em 1972 e, quando morreu, em 2016, vivia há décadas uma relação heterossexual. Renato Russo, em 1989, já cantava que gostava de meninos e meninas com sua Legião Urbana. O cantor Billie Joe Armstrong, vocalista da banda Green Day, que em shows sempre dá uns selinhos em seus fãs (homens e mulheres) já declarou que “nascemos bissexuais, e nos convencem a sermos héteros”.

Mas, ao que tudo indica, gostar e ter prazer tanto com homens quanto com mulheres ainda é considerado um tabu muito grande. Tomara que a previsão do professor ainda faça sentido algum dia.

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