sábado, 16 de setembro de 2017

Troca-Troca: E Você, Manda Nudes?





Informação aleatória, mas necessária: o texto mais lido de toda a história do Barba Feita é do nosso colunista das terças-feiras, o Glauco Damasceno. E sobre o que é esse texto? Sim, sobre elas, as nudes. Publicado em abril de 2016, Manda Nudes!, o texto do Glauco, está sempre sendo lido, compartilhado e aparecendo na nossa lista de mais lidos. Ponto pra ele que, sagaz e meio que sem querer, descobriu como agradar aos leitores e atrair visitantes.

Por isso, pensando no nosso tema da semana, falamos delas, as nudes. Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca recebeu ou enviou algum tipo de foto mais íntima, trabalhada ou não. Mas fica a dúvida: por que as nudes atraem tanto a nossa atenção? Por que aquilo que se esconde embaixo de nossas roupas desperta tanta curiosidade? Pau é pau, peito é peito, pepeka é pepeka, não é mesmo? Ou será que não?

Assim, no Troca-Troca de hoje, convidamos os nossos colunistas a falar sobre o tema e a confessar: você manda nudes?


Nudes, o que são nudes? Hum, deixa eu pensar... Não, não vou fazer o puritano e fugir do tema. Porque sim, as nudes estão aí e, sendo bem sincero, eu tenho um monte delas. O infortúnio do mundo moderno, em que todos temos uma ótima câmera em mãos no nosso celular, é esse: você pode se fotografar, testar ângulos e até ensaiar poses artísticas aleatórias no conforto do seu lar, do seu banheiro ou onde mais desejar. 

Se eu gosto de receber nudes? Depende. Não acho nada excitante receber uma foto de pau ou rabo de maneira aleatória, sem nem saber de onde vem. Abordagens diretas em Apps, em que uma nude vem antes de um "oi, tudo bem?" me broxam. Acho que as nudes podem vir no pacote, no jogo da sedução. Primeiro a gente vê rosto (porque eu odeio mulas-sem-cabeça, so sorry) e, depois, porque não desvendar um pouco mais do outro?

Quanto a mim, já confessei, tenho uma porção de nudes no meu celular. O que acarreta um certo problema que, talvez, você possa entender. Já foi mostrar uma foto aleatória de uma paisagem a alguém no seu celular e a pessoa, sem noção, começou a passar as fotos para lá e para cá, quase te causando um mini ataque cardíaco? Welcome to my life!


Nudez é algo que me gera certo desconforto. Pode parecer estranho para alguém que escreveu um livro chamado Perversão falar isso. Lidar com a nudez ao vivo como algo natural nunca foi muito comum para mim, e parecia algo instintivo: desde criança, mesmo naquela fase em que os pais julgavam normal ensinar os meninos a botar o seu pinto para fora e fazer xixi na rua, eu sempre tive vergonha. E ver outros nus era algo que me envergonhava igualmente (ou ainda mais).

Quando as nudes se popularizaram (assim como as selfies, graças ao advento dos smartphones com câmera digital e dos pacotes de internet mais generosos), achava um grande risco a troca de imagens que pudessem identificar a pessoa do outro lado. Talvez justamente por não lidar de forma natural com o objeto em si. Achar que alguém poderia ser diminuído por ter uma nude vazada reconhecida era reflexo direto de eu mesmo não saber lidar muito com peladões. Engraçado que eu mesmo nunca tive julgamento algum em receber nudes, mesmo sabendo de quem eram (famosos ou não).

A internet e a popularização de Apps como WhatsApp, Snapchat, Facebook e Instagram (via Direct) também pariram o sexting, a prática de mandar textos com teor sexual. Que, na verdade, nada mais é do que o mesmo processo dos nudes: o sexo é algo que fascina, que liberta, que provoca e que domina boa parte dos papos humanos. E a nudez consentida é a ponte para isso em boa parte das vezes.

Trocar nudes, desde que no momento e com o interlocutor certo, pode ser divertido, inspirador e correto. Desde que seja respeitada aquela regra de sempre: os nudes pertencem somente a quem envia e a quem recebe, e não há direito de ninguém repassar ou propagar, ainda que seja de um famoso. Aí sim, com o perdão do trocadilho, todas nudes serão castigadas...


Eu não mando nundes! Mas recebo... Minha relação pessoal com nudes é menos "apegada" que a grande maioria das pessoas. Na verdade, eu acho que trocar nudes "quebra um pouco" o clima da hora H. Acaba não tendo um mistério maior sobre as partes do crush. E não que essa troca prévia de informações seja errada, só não é muito pra mim. 

A grande verdade é que algumas pessoas estão tão exibicionistas que enviam o nude até quando não tem o contexto em um assunto. Sério! Já recebi nudes antes mesmo de um mero "Oi, tudo bem?". Fiquei assustado? Não, apenas impactado mesmo. O material não era ruim, mas só não estava preparado receber aquele tipo de foto, naquele momento. 

Mas se não envio nudes, será hipocrisia da minha parte recebê-los? Então, acho que não. Na verdade, todos os nudes que recebi foram enviados ou com o carinha sabendo que não teria retribuição ou antes mesmo do assunto aparecer na conversa. Nude enviado e lide com isso. 

Em tempos que liberdade do próprio corpo é tema de vários debates, acho lindo as pessoas ficarem mais livres em mostrar o que acham de mais bonito nelas. A questão é a forma com que isso vem acontecendo. Enviar/receber nudes é saudável. A questão é quando se torna uma cobrança em forma de pressão.


O brasileiro, desde sempre, se amarrou em uma rede social e a uma obscenidade. Parece que a combinação das duas coisas sempre fizeram mais sucesso por aqui do que em qualquer outra parte do mundo, pois sempre havia um jeitinho de atrelar tecnologia à pornografia. Mesmo nos primórdios, quando sequer existia a composição imagem x texto ou imagem x som, a inventividade corria solta nas mentezinhas criativas e libertinas. Era uma espécie de “manda nudes” imaginário.

Foi assim com a famosa “turma da linda cruzada” dos anos 80, onde o papo sempre descambava para o “gozofone”; os bate-papos do UOL e da AOL, com aquelas salas reservadas para adultos (e muitas trocas de fotos eróticas que levavam hooooras sendo escaneadas); as salas proibidas do Disque-amizade; as mensagens do ICQ; os fakes do Orkut; o MSN; Facebook; Messenger; Snapchat; WhatsApp...

Tenho a impressão que a tela de um computador ou de um celular nos dá mais segurança. É a mesma correlação daquela velha história do medo de fantasmas à noite: basta se esconder debaixo de um edredon que o medo passa. Os meios tecnológicos também tem um poder semelhante: pelo WhatsApp (assim como todos os seus Apps e redes antepassadas) são ditas coisas que fariam corar o Marquês de Sade. Certamente, esses mesmos discursos dificilmente seriam verbalizados “olho no olho”. Talvez por isso, a função live ainda não seja tão utilizada para essa finalidade. O “liga a cam” quase sempre está apontada para qualquer parte do corpo, menos para os olhos e o “manda nudes” é quase um cartão de visitas para o encontro informal da rede. “Amores líquidos em tempos líquidos”, diria o sociólogo e filósofo Bauman. Basta cobrir os olhos que o medo passa.

Não sei se tenho uma opinião construída no sentido social da coisa, sabe? Eu, particularmente, acho normal a troca-troca de nudes. A sociedade sempre viveu aprisionada em seus próprios fantasmas. Cobrir a cabeça com um cobertor faz com que percamos o medo? Então façamos. Enviar nudes é uma forma de liberar o tesão acumulado e perder o medo inicial de se relacionar? Então mandemos! Só precisamos exercitar mais a função de poder abrir os olhos e enxergar um pouco mais além da busca do orgasmo.

Pra finalizar, tô lembrando de uma história que me fez dar boas gargalhadas na internet. Dizia mais ou menos assim: “no dia do juízo final, Deus vai ler todas as suas mensagens do WhatsApp em voz alta e vai ter um telão imenso onde vai aparecer as imagens enviadas”. 

Apesar de engraçada, é uma cena mais aterradora do que a imagem dos anjos do apocalipse e suas trombetas descendo pelos céus. Mas... já que todo mundo tá ferrado mesmo, um a mais, um a menos... Manda nudes aí?

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