sábado, 23 de setembro de 2017

Troca-Troca: Gays Machistas, Eles Estão Entre Nós?





machismo: substantivo masculino. 
1. qualidade, ação ou modos de macho; macheza. 
2. exagerado sendo de orgulho masculino; virilidade agressiva.

Descrito como no dicionário, o machismo pode nem parecer tão nocivo. Mas, vivendo em uma sociedade machista como a nossa, é fato que o "senso de orgulho masculino", aliado a uma "virilidade agressiva" causam mais mal do que bem à sociedade como um todo.  

Mas, falando em machismo, pensamos imediatamente em homens hetero, principalmente com um estilo meio ogro de ser. Ledo engano. Existem machistas de todos os tipos, incluindo mulheres e até mesmo gays. E o nosso Troca-Troca de hoje surgiu de uma conversa banal de um de nossos colunistas com outras duas amigas que afirmaram que, generalizando, os gays são machistas. Será?

Assim, fiquem com as reflexões dos colunistas do Barba Feita e sintam-se à vontade para entrar na discussão: existem gays machistas? Eles estão entre nós?

Leandro FariaO assunto surgiu em uma conversa casual e minhas duas amigas de longa data foram categóricas: os gays, em sua maioria, são machistas. Que absurdo!, eu reagi. Mas, ouvindo seus argumentos e pensando no assunto eu tive de concordar com elas sim. Quantas vezes não nos referimos às mulheres, em geral, de maneira depreciativa, com apelidos como racha, que podem denotar inferioridade, por exemplo? Quantas vezes não existe uma cobrança excessiva até mesmo entre os gays pelo padrão "discreto e fora do meio", que inundam os APPs de pegação?

Refletindo sobre meu próprio comportamento, posso dizer que sim, eu sou machista. E, em um exercício diário, venho tentando mudar isso. Já falei algumas vezes aqui sobre desconstrução e da importância que tenho dado a isso. Vivemos tempos difíceis, de retrocesso e, se não mudarmos a nós mesmos, como querer que o mundo também mude?

O machismo, ele sim, é uma doença, que não escolhe gênero ou orientação sexual para se manifestar. E é contra esse tipo de comportamento que devemos lutar, diariamente, em um esforço consciente. Só assim poderemos viver em uma sociedade melhor, igualitária e livre de preconceitos.

Paulo Henrique BrazãoEu já falei algumas vezes aqui no Barba Feita sobre feminismo e machismo. Mas olhar pela ótica de gays machistas, creio que poucos foram os debates. Sim, eles existem. E talvez até alguma atitude daqueles que não se consideram machistas (como eu não me considero) pode vir e ferir alguém nesse sentido.

O machismo é um mal histórico, que existe em diversas culturas, sejam ocidentais, orientais, cristãs, muçulmanas, entre outras. Cortar raízes não é fácil. Por isso, mesmo em grupos que sofrem com preconceito e discriminação, é possível ainda encontrar atitudes preconceituosas e discriminatórias com outros grupos. Sim, gays também erram nesse sentido. Muitos perpetuam o machismo, ainda que não agressivamente. Muitos têm certa aversão à mulheres ou partes delas (as mais óbvias) de forma que ultrapassa a mera falta de atração física; muitos demonstram desmerecer as lésbicas, com termos depreciativos, mesmo em brincadeiras. Provavelmente herança do pensamento de que, sem um pênis no meio, o sexo é “menor” ou não é sexo de verdade.

É o mesmo mecanismo que cria o sentimento pejorativo em relação aos gays passivos, como se, por estarem na situação supostamente mais frágil ou mais “feminina” (com muitas aspas). Quantas vezes não ouvimos ativos “convictos” de que nada pode penetrá-lo, mesmo sem sequer terem tentado, apenas por não aceitarem a possibilidade de serem “menos homens”. É o mesmo mecanismo que, nos filmes pornôs gays, fazem os passivos quase serem sempre os que foram dominados pelos ativos, os que perderam a disputa pela macheza, os que são submissos, esculachados e meros buracos rodeados de carne e osso. Soou familiar com o que passam as mulheres? Pois é, o machismo existe entre os gays sim, seja com as mulheres ou mesmo com os próprios gays.

Silvestre MendesGay também é machista. E escroto. E Bolsomito (o que é triste e irônico, se você parar para pensar sobre isso). Por me sentir reprimido, desde sempre, por conta da questão sexual, sempre tive mulheres ao meu lado. No colégio, por exemplo, era amigo de várias e isso, ao mesmo tempo que era o meu conforto (ter amizades) era o meu calvário (ouvia inúmeras piadinhas por conta disso). Mas sempre fui próximo do universo feminino. O ser próximo, observe, quer dizer que era um universo que estava por perto. Ouvi confissões que dificilmente outros caras teriam paciência para testemunhar.

Mas desde lá de trás possuía empatia com as causas delas. Não entendia como muitas estavam presas em relacionamentos abusivos, não eram promovidas, mesmo sendo melhores que colegas de trabalho e, pior ainda, via quando eram "alvo" dos olhares maldosos de outros homens. Por ser homem e gay, jurava que não carregava o gene machista... Até perceber que nos pequenos gestos eu tinha aquele 1% de machista.

Aceitar que tivemos (e ainda muita gente tem) uma criação machista é complicado. Mas a sociedade nos condiciona ao machismo. E no meio gay não é nada diferente. Por exemplo, "AFEMINADA", gíria gay é para caracterizar um homem gay que possui trejeitos e características femininas. E dentro do contexto desse universo, acaba sendo o grupo que sofre mais preconceito. Dentro e fora da comunidade gay. É como se o homem com um comportamento menos "másculo" não pertencesse ao mesmo patamar que os outros. Ele é condicionado a pertencer ao "gueto", o que automaticamente, em termos de comportamento, remete ao universo hetero. Ou hetero normativo.

Sei que esse é um micro exemplo em um vasto universo de comportamentos, mas o que quero dizer é que os gays, mesmo por serem oprimidos, também são opressores (em tantas outras questões) e falta empatia dentro da própria comunidade. Assim como falta com os de fora.

Em uma luta é preciso aliados. Mulheres e gays, normalmente, são parceiros de batalha. Mas, infelizmente, não lutam a mesma guerra. E precisamos sempre pensar em como nosso comportamento pode ser uma propagação de algo que aprendemos e deve/precisa ser deixado pra trás.

Marcos Araújo: Acho muito incoerente ouvir de muitos gays que, só por serem gays, acreditam que não podem ser machistas. O que mais se vê por aí são gays com atitudes sexistas ou expressando comentários misóginos completamente absurdos. Certamente, você já deve ter escutado em grupinhos esses comentários extremamente pejorativos, que vão desde o nojo pela genitália feminina à expressões de ridicularização às mulheres, tratadas com inferioridade. Já cansei de ver cenas onde gays apalpam os seios de amigas, sem o consentimento delas, com a alegação que podem fazer isso, pois não “sentem tesão” por elas. 

Já repararam que as lésbicas preferem andar em companhia de mulheres por se sentirem mais protegidas do que ao lado dos gays que, em muitas vezes, reproduzem palavreados chulos em tom de lesbofobia, sacaneando-as? Pode parecer estranho, mas muitos gays são preconceituosos com lésbicas femininas, pois foi estabelecido que para ser lésbica precisaria usar calça camuflada, ter cabelo reco, usar pochete e ser designada como a “sapatão caminhoneira”.

Chega a ser paradoxal: a maioria dos gays também achincalha os homossexuais com um perfil mais feminino. Para eles, sempre será a “bichinha”, a “pintosa” ou o “viadinho”.

Na grande maioria das vezes, esses comentários são expressos quase que inconscientemente, como se fosse ali estabelecido uma espécie de “senso-comum”, mas que possui, em sua raiz, uma ação machista. Sempre é divulgado que o Brasil é o país onde há uma maior incidência de crimes contra a comunidade LGBT. Por isso é muito importante essa reflexão, pois homofobia e machismo estão ali, lado a lado, como verdadeiros vilões sociais.

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Um comentário:

Carlos Roberto Santos Ferreira disse...

Um amigo me indicou esse blog e achei de suma importância esse debate porque muitas vezes não temos tempo o suficiente para refletir sobre tais assuntos. Portanto, somos fruto de uma sociedade machista e tudo que está relacionado ao feminino é menosprezado. Certo que, atualmente, as mulheres e os gays conquistaram mais espaço e respeito em nossa sociedade. Contudo, o trabalho é contínuo, pois mudar uma cultura é um desafio. Nós, homossexuais, precisamos de espaços para debates e trocas de ideias a fim de nos ajudarmos e compreendermos nossa diversidade, a qual muitas vezes nem percebemos existir. O mais importante é nos respeitarmos e compreendermos a necessidade do outro, aceitando-o como ele é.