terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Verdade Libertadora





Paulo estava tão ansioso quanto no primeiro encontro com Samantha. Mais, até! Andava de um lado para o outro na sala do apartamento, passando as mãos nos cabelos, olhando para as janelas dos apartamentos vizinhos da sacada da sala, roendo as unhas, respirando de forma acelerada. Torcia para que ainda desse tempo, para que Samantha não tivesse desistido.

Samantha se identificou para o porteiro, que já a conhecia. O homem careca deu um sorriso e apertou o botão para que ela entrasse. Atravessou o pátio cimentado, virando à esquerda em direção ao segundo bloco. Apertou as mãos nos bolsos do sobretudo preto, encolhendo os ombros quando atingida por uma brisa. Usou a cópia da chave para abrir a porta, e assim que o fez, respirou fundo e subiu.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Brotheragem e Sigilão





Sempre achei engraçada a expressão não-gay-hetero-fora-do-meio "no sigilo", mais popularmente conhecida como "sigilão". Porque sim, naquela época em que eu não sabia ou fingia não saber o que era, do que gostava, como me sentia, eu era do tipo discreto e fora do meio. E ali, no interior do Rio de Janeiro, vivendo na minha Smallville particular, o sigilo era fundamental. Pensem bem. Estou falando do início dos anos 2000, quando ainda não existiam os APPs de pegação e o bate-papo do UOL ainda era a principal fonte para se conhecer pessoas pela internet.

O tempo passou, a humanidade evoluiu mas as coisas continuam iguais. Eu assumi a minha própria hipocrisia e tenho tentado levar uma vida descomplicada, mas a realidade é que o sigilão continua aí à nossa volta, agora com a companhia de outra expressão que se popularizou nos últimos tempos, a "brotheragem". Nos perfis do Grindr e do Hornet, onde troncos e costas se oferecem para sexo rápido e sem compromisso, sempre no sigilo. E, claro, no bate-papo UOL, que ainda existe (eu juro, fiz um teste para escrever esse texto) e as salas estão lotadas de homens comprometidos que buscam alivio de suas necessidades sexuais, sempre no sigilo e escondidos de suas vidas e suas mulheres.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Urbana Legio Omnia Vincit - A Legião Urbana Vence Tudo




E lá se foram 21 anos da morte de Renato Russo, completados esta última semana.  Se estivesse vivo, seria quase um sessentão.  É estranho, mas de vez em quando fico me perguntando como estariam as pessoas que morreram cedo demais no nosso mundo atual.  Como agiriam Jim Morrisson, Jimmy Hendrix e Janis Joplin, mortos aos 27 anos num corpo de 75?  Será que Kurt Cobain continuaria destruindo guitarras e nossos tímpanos com 50 anos?  John Lennon, quase octagenário, estaria ainda promovendo a paz num mundo entre o ditador Kim Jong-Um e Donald Trump? E Michael Jackson, aos 60, ainda seria um vovô com o espírito de Peter Pan na sua Terra do Nunca?

É tão estranho / Os bons morrem jovens /  Assim parece ser / Quando me lembro de você...”  Esse é o trecho da canção Love in the Afternoon, composta por Renato Russo, presente no disco O Descobrimento do Brasil, da Legião Urbana.  Isso foi em 1993, três anos antes de sua morte.  Quando gravou esse sexto álbum de estúdio, Renato, que tinha iniciado um tratamento para se livrar da dependência química, certamente já sabia que estava doente.  Naquela época, ter o vírus da AIDS era a mesma coisa do que assinar a sentença de morte, que vinha antecipada.  Cazuza, outro talento que morreu devido às complicações da doença já tinha dito que havia visto “a cara da morte e ela estava viva”.  E nessa onda perdemos tantos e tantos talentos...

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Outubro e os Astros




Sabe essas coisas de astral? Signo, ascendente, Lua, Marte, Vênus... Então, eu acredito muito. Não que isso determine a sua personalidade, mas que direcione tendências. Talvez esse interesse tenha surgido quando acompanhava Cavaleiros do Zodíaco. Passei a entender um cadinho de constelações, signos e mitologia grega por causa do desenho. Acredite ou não na força dos astros, eu tenho convicção de que existem momentos no astral em que as coisas ficam mais ou menos propícias a algo.

Por exemplo, o tal inferno astral 30 dias antes do aniversário. Há estudiosos que dizem que isso não existe na literatura astrológica e que teria mais a ver com estarmos com a bateria fraca de boas energias, pois nosso último aniversário (quando recebemos felicitações, beijos, abraços, carinhos que nos abastecem a alma de boas vibrações) já foi há 11 meses. Volta e meia tenho o tal inferno astral fora de época, que chamo carinhosamente de Micareta Astral. Há pouco passei por um desses momentos. Quando menos se espera, ele acaba, sem grades sequelas.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A Verdade de Paulo





Paulo se pegou olhando pela janela. Era segunda-feira, dez da manhã, ele simplesmente não devia estar olhando para a paisagem. Seu escritório ficava no centro da cidade, num dos prédios mais altos. Claro, não tinha dinheiro pra bancar uma sala daquele tamanho num prédio caro como aquele, mas resolveu seguir os conselhos da mãe e cobrar um favor aqui, outro ali, e pronto, conseguiu a sala praticamente de graça. Da janela de seu escritório ele tinha vista para o parque central, viaduto, prefeitura, Sesc da cidade, e condomínios que, apesar de serem caros, precisavam muito de uma reforma, ou pelo menos, uma melhorada na fachada. 

O estagiário de Administração tirou a mente de Paulo de onde quer que ela estivesse, trazendo-a para o presente. Pediu para que assinasse alguns documentos e, enquanto datava os mesmos com vinte e dois de Julho, algo começou a formigar em sua mente. "É verdade...", pensou, "...nosso aniversário de namoro é hoje... caramba, oito anos juntos...". Terminou de datar e assinar, e assim que o estagiário saiu, voltou a olhar pela janela. Tinha se esquecido do aniversário de namoro? Será que era por isso que Samantha estava cabisbaixa naquela semana? Ele não havia dito nada a respeito, afinal, com tanta coisa acontecendo, a luta diária que o escritório enfrentava pra manter os clientes junto com a caça a novos clientes... Com o país enfrentando sua pior crise em mais de cem anos, tudo podia acontecer. O amanhã era incerto, o ontem era uma lembrança dolorosa e o presente tinha gosto de café velho. Desde 2015 que Paulo não sabia o que era ir a um jogo do Fluminense. A camiseta oficial estava parada lá no guarda-roupas. Ir ao Maracanã?! O que era isso? De comer? Não só ao Maracanã, mas em qualquer outro estádio. Paulo só conseguia assistir jogos pela televisão. Ir a um estádio ficava caro, e mesmo ele tendo uma vida confortável, preferia usar o dinheiro que sobrava para investir no próprio futuro. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Três Filmes Espanhóis Surpreendentes e Obrigatórios





Quando se fala em cinema, é natural pensarmos nas produções americanas, já que são elas que dominam o mercado mundial, atraindo multidões e ocupando as salas mundo afora. E, talvez exatamente por isso, muitas vezes deixamos de assistir obras de outros países que podem ser tão boas ou melhores que os filmes americanos. Os cinemas brasileiro, argentino e espanhol, por exemplo, possuem grandes obras que, tantas vezes, acabam não conhecidas do grande público.

Por isso, faço hoje uma coluna especial para recomendar alguns bons exemplos de filmes espanhóis, disponíveis na Netflix, e que servem para aguçar um pouco mais a nossa curiosidade sobre a obra cinematográfica da Espanha, que possui outros bons realizadores além de Pedro Almodóvar. 

Vamos conferir a minha listinha?

sábado, 7 de outubro de 2017

Troca-Troca: Isso Nunca Me Aconteceu Antes?





É difícil um homem admitir, mas provavelmente ele já brochou um dia. Assim como bolos solam, carros morrem e seleções perdem de 7 x 1, todo homem está suscetível a falhar na hora da ereção. Aliás, seria falhar a palavra correta? É tanta expectativa pela penetração que se esquece que sexo é muito além disso. Tanta virilidade, tanta masculinidade depositada em uma ou duas dezenas de centímetros, ao mesmo tempo bombardeados por estresses, cobranças de desempenho digno de filme pornô, ansiedade, instabilidade de humor... Aí não há cabeça que aguente e faça o corpo funcionar plenamente sempre. E a pipa nem precisa ser do vovô para não subir, como na marchinha do Sílvio Santos.

Poucos sabem, mas nas relações homossexuais masculinas é onde há menos satisfação com o próprio pênis e a própria ereção. Justamente porque há comparações com o desempenho do parceiro. Muitos acabam recorrendo aos comprimidinhos azuis como uma tábua de salvação e acabam tendo performances que não são naturais. Vale a pena? Ou melhor encarar com naturalidade o “isso nunca me aconteceu antes” e buscar se divertir de outra forma?

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Ódio Virtual é a Nova Versão do Holocausto





Para quem ainda não sabia a minha idade, chegou a hora de desvendar.  Nasci em 1969.  E, para contextualizá-los, época da guerra do Vietnã em pleno andamento, e da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.  O mundo via a corrida espacial com a chegada do americano Neil Armstrong pisando o solo lunar pela primeira vez, e a liberdade flower-power do lendário Woodstock, o maior festival de rock de todos os tempos. Por mais incrível que pareça, este ano também marcou o “nascimento” do que viria ser, décadas depois, a internet.  Em outubro, a primeira mensagem foi enviada por um sistema chamado Arpanet, um embrião da rede mundial de computadores. 

Caos, guerra, tecnologia e contracultura caminhavam juntos, embolados como um universo em expansão após o Big-Bang.  No Brasil, vivíamos o auge do período da ditadura militar com o General do Exército Emílio Médici na presidência.   Apesar da divulgação de que o país vivia um momento de “milagre” com o crescimento da economia e projetos de desenvolvimento com a construção da Transamazônica, a Usina Hidrelétrica de Itaipú e a Ponte Rio-Niterói, existia o lado obscuro da repressão, a tortura e o assassinato de civis que eram contrários ao sistema governamental ou que emitiam qualquer manifestação de opinião.  Eram os chamados “anos de chumbo”, com a completa mordaça nos meios de comunicação, artes e cultura em geral.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Hipócritas Desde 1500





Muito já se falou sobre a nudez na obra do artista Wagner Miranda, no MAM de São Paulo, e o seu contato com uma criança durante uma performance. A tradicional família brasileira atacou novamente e, com agressividade, já o taxou de pedófilo (se você procurar por “artista pedófilo” no Google, já aparecem notícias sobre o episódio) e nojento. Sequer sabem do que se trata pedofilia. Não é de se surpreender, já que há quem se ofenda com uma mulher amamentando uma criança ou com duas pessoas que se amam abraçadas só por serem do mesmo sexo.

O Brasil não está tendo mais vergonha de mostrar a sua face mais retrógrada, quadrada e chata. Enquanto debatemos isso aqui, recebo a mensagem de um amigo que está na Alemanha e foi para um complexo de piscinas e saunas naturistas com famílias, inclusive sua irmã grávida de sete meses, rodeado de crianças. Todos nus, interagindo e sem qualquer conotação sexual. No Brasil, o falso moralismo impera desde 1500, quando os portugueses aqui chegaram e consideraram selvagens os homens nus e pagãos que aqui habitavam. Antes tivesse sido como no poema de Oswald de Andrade:

“Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português”

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Verdade de Samantha






Samantha estava sentada no banco da praça do centro da cidade. O dia estava lindo, poucas nuvens, céu azul, pequenos insetos voadores pra lá e pra cá em busca de alimento, pessoas indo e vindo, apressadas, outras, despreocupadas. Era seu dia de folga e, ao invés de perdê-lo dentro de casa, dormindo (o que seria mais do que compreensível depois de um plantão pesado de vinte e quatro horas), ela resolveu descansar por algumas poucas horas e ir em busca de vitamina D, ar fresco e o que quer que a tirasse de dentro do quarto. Tudo bem que ela poderia fazer isso no segundo dia de folga, ou até no último dia de folga, mas resolveu ir de uma vez, pois sempre que protelava, acabava desistindo.

Tinha feito uma caminhada curta ao som de uma das muitas playlists fitness do Spotify, inspirando e expirando, sentindo o vento bagunçar os cabelos castanho-claros que iam até os ombros, e a luz do sol entrar por sua pele branca. Parou na banca de jornais da praça, comprou uma revistinha de palavras cruzadas e uma caneta, sentou-se e começou a exercitar a mente. Dado momento, ela começou a observar o lugar onde estava. Os insetos, o sol, o vento, o céu, as nuvens, os insetos, as pessoas. Seu olhar seguiu um casal de mulheres. Uma negra de cabelo afro, na casa dos trinta, com roupa de corrida, alta e esguia. A outra, ruiva, mais baixa e também vestida com roupa de corrida. As duas se olhavam com tanto carinho e afeto, os sorrisos iluminando os rostos uma da outra. Sem perceber, Samantha também estava sorrindo. Havia tanto amor ali, mas tanto, que transbordava e atingia as pessoas ao redor. Ao perceber que estava sorrindo, ela riu do fato e voltou para sua revista, mas não conseguiu se concentrar.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Os Esqueletos no Armário





Quem nunca guardou um segredo, uma informação só sua, seu maior orgulho ou maior medo? Querendo ou não, todos temos os nossos segredos. Eles podem ser inconfessáveis, cheios de culpa ou não, ou pequenas besteiras, mas que fazemos questão de manter apenas para nós mesmos.

Durante um pouco mais de duas décadas eu escondia até de mim mesmo que gostava de homens. O meu segredo mais bem guardado e oculto, até de mim mesmo. Principalmente porque não aceitava isso, não queria ser diferente de ninguém. Era o meu esqueleto do armário, aquele segredo que me assombrava, que me fazia ter pesadelos de aceitação. Confess, confess!, gritava a minha consciência dentro da minha cabeça tal qual a Septa fazia para Cersey em Game of Thrones. E tudo que eu pensava era Shame! Shame!.