terça-feira, 10 de outubro de 2017

A Verdade de Paulo





Paulo se pegou olhando pela janela. Era segunda-feira, dez da manhã, ele simplesmente não devia estar olhando para a paisagem. Seu escritório ficava no centro da cidade, num dos prédios mais altos. Claro, não tinha dinheiro pra bancar uma sala daquele tamanho num prédio caro como aquele, mas resolveu seguir os conselhos da mãe e cobrar um favor aqui, outro ali, e pronto, conseguiu a sala praticamente de graça. Da janela de seu escritório ele tinha vista para o parque central, viaduto, prefeitura, Sesc da cidade, e condomínios que, apesar de serem caros, precisavam muito de uma reforma, ou pelo menos, uma melhorada na fachada. 

O estagiário de Administração tirou a mente de Paulo de onde quer que ela estivesse, trazendo-a para o presente. Pediu para que assinasse alguns documentos e, enquanto datava os mesmos com vinte e dois de Julho, algo começou a formigar em sua mente. "É verdade...", pensou, "...nosso aniversário de namoro é hoje... caramba, oito anos juntos...". Terminou de datar e assinar, e assim que o estagiário saiu, voltou a olhar pela janela. Tinha se esquecido do aniversário de namoro? Será que era por isso que Samantha estava cabisbaixa naquela semana? Ele não havia dito nada a respeito, afinal, com tanta coisa acontecendo, a luta diária que o escritório enfrentava pra manter os clientes junto com a caça a novos clientes... Com o país enfrentando sua pior crise em mais de cem anos, tudo podia acontecer. O amanhã era incerto, o ontem era uma lembrança dolorosa e o presente tinha gosto de café velho. Desde 2015 que Paulo não sabia o que era ir a um jogo do Fluminense. A camiseta oficial estava parada lá no guarda-roupas. Ir ao Maracanã?! O que era isso? De comer? Não só ao Maracanã, mas em qualquer outro estádio. Paulo só conseguia assistir jogos pela televisão. Ir a um estádio ficava caro, e mesmo ele tendo uma vida confortável, preferia usar o dinheiro que sobrava para investir no próprio futuro. 

Teve um sobressalto. Tinha ele acabado de pensar no próprio destino, sem Samantha? Quando foi que os dois acabaram se tornando um desses casais que apenas existem um do lado do outro, coexistindo numa atuação que, de tão ensaiada, havia perdido o brilho, o frescor, o novo? Sentiu saudade de quando ambos iam aos jogos FlaxFlu, e de como discutiam amistosamente sobre qual time era melhor. As famílias se reuniam quase que todos os finais de semana e, sempre que ele usava sua camiseta oficial do Fluminense, Samantha lhe lançava um sorriso, apagando tudo ao redor, como se os dentes brancos iluminassem todo o lugar, ofuscando quem quer que fosse, apenas para ela tê-lo somente para si. Ele, claro, sorria de volta, aquele sorriso apertado, de criança, os cabelos feito uma juba leonina perfeitamente arrumada de um jeito que pendia para frente, deixando alguns fios na testa.

Desde que ele começou a trabalhar demais, a diversão passou a ter pouco espaço na vida, não só do casal, mas da família em geral. Era divertido com todos juntos. Sem ele não havia graça. Sem ela não havia graça. Então ele começou a trabalhar até mais tarde e nos finais de semana, aí a praia foi substituída por noites de filme com pipoca, mas ele acabava dormindo primeiro que todo mundo. O restaurante foi substituído por pizza com vinho em casa, pra que ele pudesse ter mais tempo para trabalhar em casa, já que levar documentos para ler a noite toda havia se transformado em seu novo hobby. Escândalos, prisões, demissões, falências. Em meio a todo esse caos, a Paulo e Everton Contabilidade ia sobrevivendo. O escritório corria o risco de explodir caso alguém acendesse um fósforo lá dentro, tamanho era o clima de tensão e perigo que pairava no ar.

"Não.", pensou, se colocando de pé num salto, "Isso não é desculpa. Nada disso é desculpa pra eu esquecer o nosso aniversário de oito anos de namoro, ou de ter deixado de me divertir com minha família, ou sozinho mesmo.". Com uma pontada de dor no coração, se lembrou de todas as vezes em que deu atenção a outras coisas que não sua família e sua namorada. Ela, tão atenciosa, insistindo para irem ao cinema, mas ele nunca podia e sempre sugeria que ela fosse com as amigas, ou com a mãe dele, que adorava a companhia de Samantha. O sorriso da namorada murchava, e um breve arrependimento fazia seu rosto tremer, mas logo ele estava com os olhos vidrados no notebook ou celular, enquanto ela ficava ali, deitada, ansiando pela companhia dele, pelo calor das mãos dele em suas costas enquanto falavam nada com nada, rindo feito bobos, ocupadíssimos fazendo absolutamente porra nenhuma.

Desejou que ela também tivesse se esforçado mais. Sabia que Samantha se esforçara para ficar com ele, agora reconhecia isso, e que ele não facilitou as coisas, mas se ela tivesse se esforçado mais, não desistido de tentar... Porém, agora, Paulo estava decidido. Aquele oitavo aniversário seria um recomeço. Levaria Samantha para aquele hotel de frente para o mar, assim poderiam jogar conversa fora ao som das ondas se quebrando na praia, bebendo cerveja, disputando quem arrota mais alto e mais forte, ou qual era a melhor X-Men, e porquê era a Vampira. Paulo tinha que tentar. Precisava tentar. Mandou mensagem para a namorada, com um código interno que há muito não usavam: "Noite do look livre!". Ela ia gostar de comemorar o aniversário de namoro da forma mais confortável possível: de short jeans, sandália rasteirinha e camiseta do Flamengo.

Paulo mal podia esperar para vê-la naquela noite, e fazê-la se apaixonar de novo por ele.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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